sexta-feira, 12 de abril de 2013

A solidão da paisagem perfeita


Lá pelos idos da fronteira, antes do idioma trocar, achei um lugar para o descanso que eu vinha planejando. Uma cidadezinha de indivíduos estranhamente indiferentes à minha câmera fotográfica, melhor assim. A placa equivalente a “pensão” apareceu.

- Um quarto sem pernoite, por favor.

Só fui perceber o tesouro escondido no quarto passados dois minutos, já deitado. A janela. A vista perfeita de duas montanhas que se juntavam – casal em reaproximação milenar imperceptível, ao longo de toda a Era do Silêncio. A cachoeira que criava uma graciosa nuvem de gotículas flutuantes, livres, mas confortáveis no existir coletivo. O rio que descia em perspectiva até mim, até o observador. O paradoxo do narrador-personagem. E sim, também elas, as árvores de quinhentos anos. Tentei enquadrar, enchi o cartão de memória com fotos que pareciam estar de sacanagem comigo, tamanha a mesmice e a falta de fidelidade. Incontáveis cliques depois, me restou deitar novamente na cama. Formatei a câmera e contemplei afinal aquela paisagem inexplicavelmente invisível a olhos eletrônicos. Uma fotografia pessoal e intransferível.

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