domingo, 14 de abril de 2013

Momentum

Meu primeiro impulso foi querer pegar a estrada de novo. Porém, de alguma maneira, eu sabia que algo importante estava para acontecer, e que se eu me movesse rápido demais perderia o relâmpago. Além do que, a pintura se mantinha igual à de tempos atrás, o estilo seguia inconfundível, a moldura (ou melhor ainda) – só que eu era mais eu mesmo, bem mais. E da parede do museu virei para o despenhadeiro de mentira, onde pode ser fácil cair quando não se tem nada a perder. Não era o caso. O despertador tocou e eu tinha sonhado um momento que já existia entre as nuvens da tempestade.

sábado, 13 de abril de 2013

O Mestre do Farol

“Onde você vai, Lince?”, inquietaram-se meus novos amigos. Não respondi. Eles voltaram às piadas sobre elefantes bêbados enquanto eu me distanciava no descampado. O lance é que eu tinha visto um farol na praia algumas horas antes, e me perguntara quem seria o encarregado do posto. Não foi difícil achar o som do mar, menos ainda o próprio farol. Descalço na areia branca, reflexo da lua crescente, fui deixando pegadas propositais para saber por onde voltar. Um portão de madeira se semidesintegrou quando o toquei. Abriu caminho para os degraus e para algo que, intuí, poderia trazer algumas das respostas que eu procurava nos dois últimos anos. No fim da escadaria vi uma sala ampla com 360º de janelas à disposição, uma mesa de jantar, uma poltrona, o farol ligado e nem uma viva alma para controlá-lo. Esperava encontrar alguém tipo um caquético sábio de barbas alvas. O Mestre do Farol ou algo assim, a escrever notas de epifania. Era o mínimo (mas não). Sentei-me na poltrona para observar o movimento automático do facho de luz, realmente admirável em termos de alcance. Em seguida peguei meu caderno e registrei o momento. Quando me preparava para voltar, ouvi um barulho, o que queria dizer que tinha alguém subindo as escadas. O Mestre? Um garoto uns dez anos mais novo do que eu apareceu na entrada da sala – ele e sua expressão interrogativa.
- Venho de longe e tenho uma questão.
- Para mim? – Perguntei surpreso.
- Sim.
- É... Ok, diga.
A pergunta dele era sua própria resposta, e ele não se havia dado conta.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A solidão da paisagem perfeita


Lá pelos idos da fronteira, antes do idioma trocar, achei um lugar para o descanso que eu vinha planejando. Uma cidadezinha de indivíduos estranhamente indiferentes à minha câmera fotográfica, melhor assim. A placa equivalente a “pensão” apareceu.

- Um quarto sem pernoite, por favor.

Só fui perceber o tesouro escondido no quarto passados dois minutos, já deitado. A janela. A vista perfeita de duas montanhas que se juntavam – casal em reaproximação milenar imperceptível, ao longo de toda a Era do Silêncio. A cachoeira que criava uma graciosa nuvem de gotículas flutuantes, livres, mas confortáveis no existir coletivo. O rio que descia em perspectiva até mim, até o observador. O paradoxo do narrador-personagem. E sim, também elas, as árvores de quinhentos anos. Tentei enquadrar, enchi o cartão de memória com fotos que pareciam estar de sacanagem comigo, tamanha a mesmice e a falta de fidelidade. Incontáveis cliques depois, me restou deitar novamente na cama. Formatei a câmera e contemplei afinal aquela paisagem inexplicavelmente invisível a olhos eletrônicos. Uma fotografia pessoal e intransferível.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Duas estrofes

Duas chances, diz o poeta contente com sua canção. “Talvez você... Tenha duas chances.” Então paro de prestar atenção e imagino logo a mureta na beira do caminho (o próprio caminho), o portão, uma festa, o eco simples e sincero,  a questão fundamental resolvida, componho com as brasas da refeição ao ar livre, umas conversas maneiras de guitarra havaiana, acrescento o cheiro da noite. Penso que as coisas podem ser melhores do que são, do que foram e do que serão. Penso. Nem sei se adianta muito. No entanto, a meia página escrita um dia pode ser uma foto, quiçá mais até: uma história – a história. Duas chances, diz o poeta. Duas estrofes. Parece impossível, eu rebato. É a segunda vez que eu ouço isso, ele completa.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Arrivederci

Boa parte da outra noite eu passei nadando. Contagem em segundos. Debaixo de um exagerilhão de pontos luminosos, olhos dos deuses mais antigos que o próprio sistema, que a origem, que a paz. Se eu pensasse assim, dava uma certa tranquilidade... Afinal, quem era eu para me preocupar com qualquer coisa que fosse, certo? Mas as estrelas tinham reflexo – da mesma forma que meus pensamentos se projetavam para muito além da linha deitada, sempre fugidia. O mar uma vez foi promessa, depois era pressa (na maior parte do tempo); eu me contentava com o fato de a água gelada conseguir pentear os nervos em modo contínuo. E a ilha que alguns profetas em slow motion anunciaram, essa nunca veio. Ou então fui eu que acabei achando antes a tal correnteza inevitável que de um jeito ou de outro me acharia por si só. Em meio a águas inofensivas como suor, profundas como lágrimas. Hoje ao recapitular posso ver que foi mesmo apenas uma corrente (no momento, confesso, parecia desprovida de elos quaisquer) e respirar aliviado, confiança na correção monetária, belo bônus da aposentadoria. Cheguei na praia junto com o amanhecer: o déjà vu do fim de um oceano no nosso planeta circular. Haveria um caminho mais rápido? É provável. Deitei com o rosto para cima, as ondas disseram arrivederci e eu apaguei.