quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Verão

Uma semana depois da enchente e eu ainda não tinha procurado saber o horário do barco que me levaria pra casa. Pura inércia. No entanto as coisas não estavam tão ruins: pela primeira vez na vida possuía um lugar só pra mim. Meus velhos amigos em outro continente, em afazeres correntes, provavelmente nem mesmo imaginavam que eu fosse voltar. Claro que dessa forma teria que continuar a acordar antes do sol para pegar minha parte de arroz no mercado, uma hora e quinze com passos médios. Seria obrigado a drenar o pequeno rio que cavava o fosso ao redor da varanda, limpar diariamente duas vezes o assoalho para que ele se parecesse um pouquinho menos com o quintal, expulsar as galinhas sem noção na hora do jantar, e "Ca muishc losdena, ig Lince", berrava Don Herbertic quando precisava de uma força na colheita, passando de bicicleta. Eu nunca soube o que isso queria dizer no literal. Chuva de verão no início da noite. A gente desiste de beber a vida inteira de um gole, consegue viver um momento de cada vez e acaba ganhando um monte de vidas em uma só.

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