terça-feira, 13 de novembro de 2012

Paralelo Railway Blues

Porque o trem ia até bem lento. Ia beirando o rio às vezes, quase tão rente que dava pra sentir o cheiro d’água, ouvir as pedras vivas de movimento. A gente dormia um pouco e depois acordava, cada um viajava em seus respectivos sonhos, num silêncio que parecia domar o tempo. Mas o tempo não era fácil. A paisagem na janela nunca seguiu padrões ou respeitou o que eu esperava, quem era eu afinal para decidir por onde o trem passava – ele percorria espaços definidos por pessoas que já se tinham ido há décadas. No outro vagão, o jovem esfarrapado dedilhou seu violão esgulhepado todo cheio de si. Um som meio calmo para sua idade, que me lembrou de mim mesmo e das possibilidades (as velhas inquietações me dizendo para onde ir). E o trem ia ultrapassando vales tristonhos, raios horizontais de sol, subia montanhas e três oitavas no piano, só pra me fazer recuperar as ideias que me acompanhavam desde a estação de embarque: o pessoal todo reunido, o adeus no portão de entrada. Só pra anunciar a próxima parada, a próxima despedida.

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