quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Coelhos

Ainda que a chuva de coelhos não desse sinais de trégua, e por mais que os guarda-chuvas estivessem disponíveis em quantidades bastante razoáveis, mesmo assim eu não quis sair de debaixo da marquise. A colina toda espelhava o cinza do céu, e todos aqueles coelhos caíam como se corressem na vertical - quando tocavam o solo, simplesmente mudavam de direção - e a linha do horizonte para eles fazia então tanto sentido quanto o nascer do sol para um girassol recém-nascido. Assim foi todo o dia, assim seria toda a noite. Mas mesmo que eu tivesse tentado, não sei se compreenderia como tantas unidades conseguiam ser tão independentes, tão microcósmicas, quando na verdade aquilo tudo era apenas uma onda. E se nenhum dos coelhos tinha noção disso, não seria eu que iria contar pra eles. Os trovões foram ficando mais fortes, pois lembro de ter me perguntado como seriam as nuvens de coelhos e o que estariam fazendo no céu enquanto esperavam a hora de cair. Olhei para cima, bem a tempo de evitar que um deles aterrizasse na minha cara. Por puro malabarismo impressionista, este fizera sua trajetória de descida na diagonal, ricocheteando em seus colegas e afirmando que a vida segue seu rumo, Lince, e o rumo é você quem dita, digo, mas quem tem que dizer isso é você, portanto retiro o que disse.

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