domingo, 25 de novembro de 2012

Voltas

A corrida começou assim – e assim se manteve por longas voltas. Que tudo pudesse fazer sentido, por um momento no tempo que fosse. Porém, pensando bem, era precisamente quando o tempo perdia o sentido que tudo funcionava. A ideia então foi emparelhar com o momento, sem ultrapassá-lo entretanto, sim, o sentido que se virasse por sua conta para nos alcançar.

sábado, 24 de novembro de 2012

Banquinho

Eu fui vê-la se apresentar algumas vezes, às quintas. Chegava e ficava lá atrás, junto com a poeira das garrafas de vinho da melhor qualidade. Esperando. Eu esperei um bocado. Se fosse um dia bom, ela sairia pelas cortinas com seu vestido azul, um sorriso de garota tímida, o banquinho alto numa das mãos, o violão na outra. Apreciava especialmente o fato dela trazer seu próprio banquinho ajustável. Ela fazia um cover de uma música chamada “Because of You” do Gene Clark com bastante propriedade, vocês poderiam até procurar no YouTube e ver que é uma canção de 1975, é engraçado porque nenhum de nós dois pensava em nascer ainda nessa época. O que eu sei é que ela cantava aquela música olhando pra mim, sorriso tímido desmentindo e mentindo descaradamente o que diziam seus olhos, sotaque espanhol nas entrelinhas. Ela cantava outras coisas também, mas essa era pessoal. “So close your eyes and pick a place to fly away”, e eu seguia sua sugestão. Valeu a pena ter esperado, mas gostaria de ter tido tempo para conhecê-la melhor, uns meses mais pelo menos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma das saudades

Uma das saudades que vem é como aquela foto que se perdeu porque tinha que se perder, a melhor delas. Estava no velho HD externo, uma DSC456, uma JPG003, blabla, sei lá, procurei mais um pouco mas não adiantou. Uma das saudades que vem é aquele passeio depois da aula, longa caminhada que podia ser feita de ônibus mas a gente decidiu ir a pé. A tarde de ócio jovem, as conversas que não levam a lugar algum, nunca. Ela vem e fica. Saudade, saudade, eu falo a palavra até esvaziar, vazar bastante o seu peso, então o que ocorre é que acaba inundando toda a cidade, a rua por onde a gente andava lá no canto da memória, a rua por onde eu vou agora. Se pelo menos eu pudesse achar a foto... Acho que vou ter que me contentar em fazer um desenho com palavras por aqui.

Contracapa

É justo dizer que tudo funciona inacreditavelmente melhor do que se imagina pelo menos de vez em quando: basta para a gente se sentir um pouco mais satisfeito com as nossas intenções e tudo isso. Um desses parágrafos que lemos na contracapa antes de comprar o livro e que nos surpreende quando o reencontramos, já envolvidos pela história. Veja para começar o Dom, aí deitado sem camisa no chão de poeira sem dar a mínima para as formigas, mas falando baixo umas palavras legais e sonhadoras para a noiva dele, adormecida faz uma boa meia hora (enquanto a fogueira vai alto em faíscas bonitas e deixa tudo com um cheiro de quintal, um alívio considerável na desolação que é a praia de hoje). Claro que alguém traz um violão e dedilha canções igualmente aconchegantes que evoluirão em algum ponto também para roncos sinfônicos de todo o pessoal, pois o ciclo é esse, só que antes disso, porém, eu vou me certificar de que as luzes se esquentem no céu mais uma vez, respirar fundo e fazer meus pedidos, meus agradecimentos, meus poemas sem sentido, os que sobram; a água do mar vai se aproximar e perguntar se pode participar da reunião agora divertida, mas vai se dar conta de que é um episódio bastante humano e se retirar respeitosamente. Talvez a Flor me olhe com seu código para que a barraca debaixo da palmeira se feche por uns momentos, ninguém vai se importar, tenho certeza. É justo dizer, um desses parágrafos que não estão na contracapa à toa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cinco luas

Ontem na volta eu fui andando pela rua com as mãos no bolso da aceitação incondicional para com tudo o que tinha acontecido e viria a acontecer dali pra frente, ao longo da avenida rolante. Alguma coisa acionou a chave, foi um processo exaustivo e intermitente e eu estava consciente de que não havia terminado ainda. Deixei todo o falatório para trás, sem me despedir, os ecos corriam latindo atrás das minhas rodas – e a lua sorriu de novo pela quarta ou quinta vez, baitas dentes desconcertados que me haviam recebido e cresciam e se preparavam para me levar até a porta do avião dentro de poucas semanas. As primeiras luzes de Natal deste ano não foram as da árvore robótica do banco, mas as da pequena janela do segundo andar da padaria no meu caminho: nada além de uns vagalumes um tanto bêbados e sem experiência. Só que eu reparei nisso, só que eu me sentiria bem-vindo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Desconhecido

O Desconhecido, esse cara babaca que nos pede dez reais pra comprar pão e em seguida cai no chão em lágrimas, querendo apenas (e vá...) um pouco de companhia e um par de ouvidos para suas lamúrias incessantes, mais, mais, a insatisfação da limonada perdida na geladeira. Ele tem um chapéu azul escuro como que da cor do céu de suas vidas seguintes acumuladas em reflexões sem a menor importância, mas isso é mero detalhe, mero cavalheirismo espasmódico da parte dele. Ele se curva com o chapéu na mão: o gesto outra vez é de pedido, de submissão interesseira, meu bom homem. “Demando o que é seu, o que não é meu, o que não é nosso e nem de ninguém, o que é irreal com gosto de carniça.” O cachorro dele é velho, cheio de tiques nervosos e puro osso, a ponto de confundir-se e morder seu próprio calcanhar na hora do desjejum. O relógio dele é sério, mostra a pobre balança desregulada, tá, tá, não quero ouvir mais nada, some daqui. Chove. O Desconhecido desce as escadas, olha de soslaio e se perde em lembranças da época em que era Conhecido, isso em terras outras – soam diálogos bem marcados pela rítmica de uma geração que sabia se divertir –, um grandíssimo desperdício em forma de descontinuidade. Ou de inconformismo. (E ainda assim), ainda assim ele escolheu seu caminho e merece todo o meu pesar, ou a minha admiração, ou os dois juntos, tiro eu o meu próprio chapéu azul para pedir-lhe umas moedas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Vai

- Exemplos, eu quero exemplos.
- Por exemplo, quando você tenta algo só pela sensação da coisa. Como caminhar a noite inteira, passar a noite inteira caminhando.
- Mas por quê? Tem gente que gosta de passar a noite em claro, não tem nada de novo nisso.
- Essas pessoas têm insônia, ou então precisam estudar, ou estão fazendo coisas tão divertidas que acabam perdendo o sono. Trabalhando. Estão esperando alguém, nervosas. Ou estão viajando de trem, ou de avião, lugares onde se dorme mal. Têm medo de dormir e ter pesadelos, pensam demais.
- Você está querendo dizer que um sujeito se proporia andar a noite inteira por aí, assim, sem motivo?
- Uma decisão, sabe? O cansaço poderia justificar tudo, ou tudo poderia terminar como começou: com outra decisão.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Coelhos

Ainda que a chuva de coelhos não desse sinais de trégua, e por mais que os guarda-chuvas estivessem disponíveis em quantidades bastante razoáveis, mesmo assim eu não quis sair de debaixo da marquise. A colina toda espelhava o cinza do céu, e todos aqueles coelhos caíam como se corressem na vertical - quando tocavam o solo, simplesmente mudavam de direção - e a linha do horizonte para eles fazia então tanto sentido quanto o nascer do sol para um girassol recém-nascido. Assim foi todo o dia, assim seria toda a noite. Mas mesmo que eu tivesse tentado, não sei se compreenderia como tantas unidades conseguiam ser tão independentes, tão microcósmicas, quando na verdade aquilo tudo era apenas uma onda. E se nenhum dos coelhos tinha noção disso, não seria eu que iria contar pra eles. Os trovões foram ficando mais fortes, pois lembro de ter me perguntado como seriam as nuvens de coelhos e o que estariam fazendo no céu enquanto esperavam a hora de cair. Olhei para cima, bem a tempo de evitar que um deles aterrizasse na minha cara. Por puro malabarismo impressionista, este fizera sua trajetória de descida na diagonal, ricocheteando em seus colegas e afirmando que a vida segue seu rumo, Lince, e o rumo é você quem dita, digo, mas quem tem que dizer isso é você, portanto retiro o que disse.

O último fim

Lily voltou. Tinha uma pinta nova do lado do nariz. Já não era a mesma, claro. Eu menos. Nos encontramos em um desses bares sem propósito nenhum a não ser finalizar histórias decadentes, um desses lugares indecentes sem uma única estúpida fonte direta de luz branca. O barman popeye comia ovos e bebia rum puro, na fanfarronagem. Provavelmente instigava o próximo cliente a dizer ou a pensar qualquer coisa ofensiva, olhou para mim mas eu não era seu público-alvo. Ela entrou pela porta uns vinte ou vinte e cinco minutos depois do combinado. Apenas outro camarada no balcão, e sem embargo foi sentar-se ao lado dele, enquanto a música parava para os anúncios das eleições. E ela achou que fosse criar um efeito dançante em seu desfile gelado, pois nem isso. Daí chamei o barman e lhe ordenei que trouxesse um pedaço de torta. Perguntou se era para viagem. Para viagem, sim, que seja! Lily trocou uma ideia com o outro cara, que era um pobre bêbado sem a menor condição de ajudá-la em seu plano infantil, então ela desistiu.
- Olá, Lince.
Arqueei as sobrancelhas.
- Não vai dizer nada? – Ela bufou um pouco.
- Quer um pedaço de torta?
- Não, obrigada.
- Como vai o Woody?
- Não o vejo há meses.
Falávamos em espanhol, isso começou a me irritar. Decidi ficar calado. O barman veio com a torta embalada como a cara dele, a música recomeçou e ela tocou meu ombro de leve.
- Vamos ao cinema?
Fomos ao cinema. Eu já tinha visto o filme, mas ele me pareceu absurdamente pior dessa vez.

Escadas

Então eu descobri que por mais altos que sejam, todos os prédios têm escadas, mas poucos indivíduos as utilizam, a não ser aqueles que vão para o segundo ou terceiro andar, e ainda assim, chutando o ar e usando o combustível altamente poluente da impaciência aditivada, como que para punir os próprios elevadores e as pessoas que os esperam calmamente. Mesmo correndo o risco de encontrar os raivosos no início do edifício, e mesmo tendo que ir diariamente para o último andar, preferia os degraus. Depois de alguns lances de escadas, o caminho ficava tão barulhento quanto um lago congelado às cinco e meia da manhã.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Truque

Queria aprender a fazer aquilo. Ele tirou o coelho da cartola e o bicho correu por entre as pessoas curiosas, trinta ou quarenta faces desarmadas pela diversão. O truque da fonte da juventude, que funcionava sobretudo com o próprio mágico.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Paralelo Railway Blues

Porque o trem ia até bem lento. Ia beirando o rio às vezes, quase tão rente que dava pra sentir o cheiro d’água, ouvir as pedras vivas de movimento. A gente dormia um pouco e depois acordava, cada um viajava em seus respectivos sonhos, num silêncio que parecia domar o tempo. Mas o tempo não era fácil. A paisagem na janela nunca seguiu padrões ou respeitou o que eu esperava, quem era eu afinal para decidir por onde o trem passava – ele percorria espaços definidos por pessoas que já se tinham ido há décadas. No outro vagão, o jovem esfarrapado dedilhou seu violão esgulhepado todo cheio de si. Um som meio calmo para sua idade, que me lembrou de mim mesmo e das possibilidades (as velhas inquietações me dizendo para onde ir). E o trem ia ultrapassando vales tristonhos, raios horizontais de sol, subia montanhas e três oitavas no piano, só pra me fazer recuperar as ideias que me acompanhavam desde a estação de embarque: o pessoal todo reunido, o adeus no portão de entrada. Só pra anunciar a próxima parada, a próxima despedida.

domingo, 11 de novembro de 2012

Macia

Abracei-a de leve, contando as gotas de chuva na calçada, marcando o ritmo assim. Eu não a conhecia pra valer, nem ela a mim. O que tinha passado entre nós não era nada de maluco ou uma porrada no coração, muito menos o que eu imaginei que seria quando a vi pela primeira vez. Mas dividir aquele momento, não sei, sim que era importante e disso eu sabia. Soube na hora. Tem aquelas pistas que você não consegue perceber sozinho, tem outras que são mais elefantes alpinistas do que propriamente pistas. Ela me deu um beijo na bochecha para depois se encaixar no meu ombro, quente. Macia.
- E aonde você quer chegar com essas andanças? – Ela pensou.
- Talvez eu tenha acabado de chegar, e você também. – Eu pensei.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cochilo

Lá vão os pés suspensos sobre o sofá da sala – na pequena noite madura, um tchau na memória e quase nos sonhos, mas... E mesmo ele, o senhor bonzão com o controle de seus passos, com a cabeça erguida ao atravessar o cruzamento antes da massa (era o primeiro, e tanto o estudante quanto a madame o seguiam como que puxados por cordas), mesmo ele tinha que dormir. “Vá para o seu próprio ninho composto de suor e erros e tudo o que eu nem sei o nome ainda, vá se aconchegar aí, no conforto dos mantras em nuvens de eletricidade e abacaxi, tiras de Páscoa no topo do Lago Titicaca, tudo misturado. Perca-se na sua própria voz, tenha medo do próprio medo até as últimas consequências e atire-se para dentro de si mesmo. Vire do avesso para mergulhar num mundo de simples desfoques (pois o foco total e extremo é bastante incômodo), de lâmpadas quentes e contraluzes, de camisas de botões e fotos antigas, de um eu que tu decides, já saberás quando chegares.” Pode ser que ele só saiba que é feliz assim, sem se ligar muito. Tanto faz, porque a felicidade não é canção, é trilha sonora. Não é o título do filme, é a sensação que fica quando enfim as luzes se acendem e se vai embora.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Grafite

Tintas aguadas serviram por muito tempo, eu que o diga. A parede fechada com grafite podia ser chamada de estilosa, os jornais lhe concederam um prêmio e eu até comprei a ideia perante a rua, porém no fundo sabia que não passava de puro lixo. E era o meu muro, por tudo quanto é sagrado! Ok que ficava do lado de fora, que nem era obrigatório eu olhar para ele se eu não quisesse, mas quando eu chegava de viagem... Um domingo eu saí com meu balde e o pigmento feito em laboratório – o laboratório de guerra – para começar uma revolução. Cada passante chorava um pouco, as crianças riam e os velhos praguejavam. Meus vizinhos mais humildes criticaram o que podiam em entrelinhas e à distância e uma semana depois os grafites voltaram dobrados. Não tive outra alternativa a não ser alugar um trator e derrubar o muro. Pus abaixo a casa também, para aproveitar a diária do trator. Ouvi uma salva de palmas e logo percebi que era eu mesmo e eu só. Mas quem sabe o eco não fosse eco, e houvesse mais gente em algum lugar.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fábrica

Se bem que aquele foi o único bloqueio de escrita que me deixou feliz. A história é boa, escuta só. Chegara em Marloque São João fazia pouco e ninguém queria me dar trabalho. Eles não tinham culpa afinal, a cidade era pequena. A única fonte de empregos, a fábrica de papel, não recebia currículos porque os empregos todos eram hereditários, desde o gerente até o operário – uma espécie de lei trabalhista informal que facilitava a vida do Capitalista porque os pais ensinavam os filhos e ele não precisava gastar com qualificação de mão de obra, nem os pais com orientação vocacional. Enfim, foi isso que me disse a filha da estagiária, que estava em treinamento. Quando saí pelos fundos, dei de cara com um container semiaberto. Parecia um descuido, então eu peguei um montão de sobras de papel defeituoso (furinhos imperceptíveis, riscos imperceptíveis, descolorações imperceptíveis) e voltei para o quarto do hotel. A princípio a ideia era passar o dia escrevendo, mas comecei a ficar entediado com todo aquele branco em excesso e fiz um aviãozinho de papel. Era um Supermarine Spitfire Mk XI. Daí saí para testá-lo na praça, naquele dia nublado sem brisa. Não me incomodei com a presença das velhinhas em seus trajes vermelhos, nem com seus olhares ameaçadores: o Spitfire seguiu viagem como se fosse operado por controle remoto, percorrendo um semicírculo perfeito e pousando em uma das árvores do outro lado da rua. Um bando de moleques se aproximou. Chegaram gritando e batendo palmas, e eu me senti como um dos Pioneiros.
- Como o senhor se chama? – Perguntou um moleque de olhos cor de laranja.
- Lince Paralelo.
- O senhor é que fez aquilo?
- Sim, fui eu.
- O que é? – Perguntou outro, com um boné de hélice em cima.
- É um Spitfire.
- Como o senhor construiu ele?
- Ora, com papel. É só o que vocês têm por aqui, não é? – Comecei a pensar que as velhinhas me olhavam ainda mais ameaçadoras. O moleque de olhos laranja voltou a falar:
- O que é papel?
- Como assim? Papel? É o que bota comida na sua mesa, garoto. É a razão do seu velho levantar às quatro da manhã todos os dias e ir para aquela fábrica horrível perto do rio.
Os pirralhos me olhavam como se eu fosse um extraterrestre.
- O senhor deve ter-se enganado. A Fábrica não faz esse tal de papel coisa nenhuma. – Afirmou um outro, de camisa listrada.
- O que ela faz então?
- É tipo um mercado. – Disse um dos grandões sabichões, talvez o mais velho, mas nunca se pode ter certeza com garotos dessa idade – Você sabe o que é um mercado?
- Claro que sei o que é um mercado. Aquilo não é um mercado.
- É sim. Meu pai vai lá todo dia vender o tempo dele. O Sr. Juan compra o tempo dos nossos pais por um bom preço. Quer dizer, depende da época do ano. Às vezes os preços caem e todo mundo começa a falar de crise.
- E como funciona isso? – Perguntei, só que já começara a entender.
- Você não aprendeu na escola? – Quis saber o do boné. – Todo mundo nasce com uma quantidade de tempo, só que ninguém sabe quanto é, assim, certo. Aí quem tem mais dinheiro pode comprar o dos outros.
- E vale a pena vender?
- Ué. É a única coisa que as pessoas têm para vender, e elas precisam do dinheiro pra comer. E para comprar coisas e tal.
- Mas de onde esse Sr. Juan tira tanto dinheiro então?
- Não sei, mas acho que deve ter vendido muito do tempo dele. E agora precisa comprar o tempo dos outros pra se garantir.
- É, mas isso não faz muito sentido... – Disse o dos olhos laranja.
Cocei a cabeça e fui pegar meu aviãozinho na árvore. As senhoras estavam conversando com um policial.
- Gostariam de aprender a fazer um desses? – Eu disse, ao voltar com o Spitfire na mão.
- Sim! – Gritaram os moleques.
Então eu tirei uns papeis da minha mochila e sentei no chão, e eles também. Resolvi fazer um N2758E, aquele que eu aprendera com o velho Richard. Os moleques prestavam máxima atenção a cada movimento, a cada dobra, comentando entre si em estilo partida de futebol. Quando terminei, berraram de alegria no meu ouvido. Todos queriam voar primeiro, mas o olhos laranjas estava quieto demais desde a conversa anterior, então eu estendi o papel dobrado na direção dele.
- Mas eu não sei pilotar.
- Claro que sabe.
Ele jogou o aviãozinho, e de repente vi nos olhos laranjas que algo profundo tinha mudado em sua maneira de ver as coisas. As senhoras e o policial já não podiam fazer mais nada: ele estava livre, para sempre.

Cozinhar

Os convidados foram partindo por volta das tantas. O furo na camisa deve ter denunciado a minha situação, porque os anfitriões perguntaram se eu não gostaria de passar a noite por ali. De qualquer jeito meu ônibus só sairia de manhã, argumentaram. Então me deram um colchão de algum material surpreendentemente macio e eu apaguei. Quando voltei de um sonho em que disputava a corrida de aviões da Red Bull, já era dia total. Havia barulho na cozinha. O Arqui saíra para o trabalho uma hora antes mais ou menos e sua mulher cozinhava alguma coisa com cheiro doce.
- Tá com fome?
- Gostaria de comer um bode inteiro.
O que na verdade era mentira: eu queria comer o que a Gabriela estava fazendo, o que quer que fosse. Não era uma coisa só, eram sete (eu fui contando). Um purê de batatas com amêndoas, arroz branco, feijão preto, espaguete à carbonara, carne assada ao molho de mostarda e mel, quiche de queijo, bolo de chocolate. Um verdadeiro banquete, simples e incrível. O Arqui não voltaria para almoçar, e eu me perguntei para quem seria tudo aquilo tudo. Perguntei para ela também.
- Para quem é isso tudo?
- Você sabe que eu estou desempregada não é, Lince?
Tinham comentado isso na festa, eu sabia. Mas antes de continuar eu preciso acrescentar aqui uma coisa, não sei bem por quê: a Gabriela era o tipo de garota que todo cara espera encontrar na vida, mesmo que não saiba ou não pense muito sobre isso. Eu não sou um tipo invejoso, simplesmente não faz parte da minha personalidade (além disso, a minha Gabriela apareceria alguns anos depois) – só estou dizendo que era bom de olhar aquela figura feminina de avental, uma pequena indomável e cheia de energia. Ela era cozinheira, na verdade chef de cozinha. Estava desempregada há três meses e fazia bicos em recepções aqui, casamentos ali etc e tal. Realmente tinha talento, eu comprovara na noite anterior.
- Uma parte é pra mim e pro Arquimedes, ele adora carne assada. E pra você claro!
Uma parte, eu pensei, mas nem deu tempo de arriscar uma suposição, porque ela foi contando que precisava fazê-lo todos os dias, isto é, cozinhar, para não perder a prática, e não necessariamente pelo resultado, pelo utilitarismo da coisa, da comida como produto, mas pelo ato de cozinhar em si, e tampouco somente para manter-se em forma, mas porque sim. Era uma função vital para ela.
- Talvez tão importante quanto comer.
- E o que você faz com o que sobra, todo dia?
- Há! Se tem uma coisa que não sobra nesse mundo, é comida caseira boa. Basta achar um jeito de levá-la até as pessoas.
E então olhei para ela ainda mais impressionado. Tinha preparado todos aqueles pratos simultâneos enquanto conversava comigo, regava as plantas e lavava a louça. Quando sentamos para almoçar, a cozinha cheirava a flores. Comi devagar, mastigando e saboreando aquela filosofia de vida, pensativo – enquanto meu ônibus deixava a rodoviária, do outro lado da cidade.

domingo, 4 de novembro de 2012

Perdido na estrada

Havia muitos quilômetros que a paisagem permanecia igual. Nunca fui de reclamar da linha do horizonte – para mim ela era contrapeso, parâmetro de medidas eventual –, mas pouco a pouco foi se tornando tão claustrofóbica quanto o elevador do prédio na empresa durante o feriado prolongado. Era uma amplidão pesada. Virei para trás e foi como se não houvesse virado, pois se via a mesma coisa. Virei de novo, mas logo fiquei na dúvida de quantas vezes tinha virado e acabei virando outra vez. Bateu a fome, as bússolas já não existiam e percebi que contava basicamente com a poderosa sensação de não ter nada a perder.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A estrada perdida

Uma noite mal dormida ao acaso, uma manhã de feriado. Troca a coberta de lã pela janela da varanda, debruça no parapeito. Esfrega os olhos enquanto descobre um dia de inverno com um sol morno e úmido que nem roupas recém-saídas da máquina de lavar. O vento é pouco, mas o suficiente para mexer seu cabelo de cachos bagunçados pelo travesseiro, o bastante para limpar os dias da semana anterior, trazer a vida de volta, inteira, de um golpe só. Ninguém por perto. Respira fundo o ar gelado e limpo de um futuro inexplorado, passa a mão no rosto mas não boceja, porque está meio em transe. Porque na verdade ele sempre soube que queria a multidão, um lugar na multidão. Não que fosse melhor do que ninguém, mas é só que de alguma maneira ele possuía uma posição de responsabilidade na grande rede invisível de conexões, como o marinheiro que grita terra à vista. Era seu papel gritar terra à vista. Ele podia muito bem ignorar tudo isso, voltar para a cama e dormir mais um pouco. Acordar às três da tarde e decidir que iria dar uma volta, isso estaria bem. À noite, encontraria seus amigos na esquina, esperando por ele em uma das mesinhas, nas cinco cadeiras. No dia seguinte, o trabalho e oito horas pesadas se passariam com o barulho de mil carroças, mas de noite ele chegaria ao quarto para abraçar sua mulher e sonhar sonhos fortes demais para uma vida descansada. O homem sabe que isso é bem uma possibilidade. Mas o que fazer com a criança que chorava em filmes que nem eram de chorar, mas que faziam sentido e isso era emocionante e simplesmente bonito como a luz do luar? O que fazer com o bebê que tinha medo dos noticiários de TV porque davam a impressão de que o mundo estava por acabar? – E o mundo era importante demais. O garoto e seu caminho, a iluminação e o espio entre as cortinas, à procura da verdade. Um dia ele vira uma pessoa comum num palco e quando tocaram sua música ela era real. A verdade estava lá, com seus gritos e assovios, e barulhos eufóricos. O que fazer com tudo isso? Um livro depois outro, uma sede insaciável por histórias humanas, por vidas, por vidas paralelas, sucessivas, infinitas. O livro que terminava e então ele não conseguia dormir aquela noite porque não seguiria compartilhando a vida dos personagens. Saudade dos personagens. O que fazer com sentimentos reais de vidas imaginadas, com todas as ideias que apareciam sem serem convidadas, com todas as palavras que jorravam quando se abriam os portões do abstrato e da lembrança conjugados, com todo o potencial cutucado por cada música aparentemente randômica? Talvez fosse apenas medo da morte. Talvez fosse o sentido da vida. Não era possível que não houvesse algo que ele pudesse fazer. Um lugar para todos, não é o que dizem? Vamos lá, sigamos nossas ideias mais internas, mais impedidas pela insegurança de um mundo que já existia muito antes que a gente aparecesse por aqui. É achar agulha no palheiro, sussurram. Mas acontece o seguinte, a coisa realmente importante é que cada um tem um ponto de vista e isso é a própria base da apreciação. O sujeito que percebe. O resto é só história, não é a coisa em si. Não que história não seja essencial, mas seus expertos devem saber disso: é história, não é real. A verdade existe somente a partir do momento em que alguém observa e sente. Ele sabia disso, porque sentia. E sabia além disso que poderia criar essa sensação nas outras pessoas. Já o tinha feito antes. Ninguém gosta de desperdício, pelo menos a natureza não. Então ele caminhou de volta e tomou uma ducha fria, olhos fechados e concentrados na melodia de uma música que não saía da sua cabeça, porque ele tinha sonhado com ela, e era uma música que não se lembrava de ter ouvido antes, mas que era a mais familiar de todas. Ele começou a assoviar baixinho. Vestiu-se e comeu seu pão torrado usual, mas dessa vez ele não foi encontrar os amigos. É estranho quando acontece algo assim, quando se tenta algo diferente, um clique, uma semente, uma pergunta sem resposta consciente, uma vontade de seguir sem modelo nem tremedeira. O artista não teria mais medo de criar, não veria isso como um problema entre ele e o mundo, nem precisaria desviar seus sonhos só porque outros foram por um caminho tal. O mundo nunca é o mesmo, nem as pessoas. Tudo é novo, agora. Agora.