sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Destino

DOM: Ela parece estar cansada.

LINCE: Como você sabe?

DOM: Tá indo muito devagar.

FLOR: Talvez esteja só aproveitando a caminhada. Eu mesma fiquei com um pouco de vontade de fazer igual. Toda essa tarde e esse vento.

DOM: Por mim a gente parava um pouco, relaxava, não tem ninguém nos esperando em lugar nenhum.

LINCE: Vou encostar.

FLOR: Ali, perto daquela árvore, Lince. Tem uma sombra perfeita. Ei, garota! Ei!

DOM: Espera um pouco! Quer uma carona? Para onde você vai?

PILAR: Cinco Montes, minha tia mora lá. Decidi ir a pé para economizar.

LINCE: Temos um lugar sobrando.

FLOR: Você não tá com pressa, né?

LINCE: Achei essa lata de figos. Dom, toma aqui a chave, esqueci a toalha no porta-malas. Aproveita para aumentar um pouquinho o som também, essa música é boa.

FLOR: Uma laranjeira!

PILAR: E vocês, para onde vão?

LINCE: Cinco Montes, a tia de uma amiga mora lá.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lar

Encontrei uma cerca, e ela continuava por metros, muitos metros, metros que se pretendiam quilômetros. Além dela, o carpete devorado pelas vaquinhas em câmera lenta. Uma cerca de madeira bruta, construída com suficiente arte e engenho, acompanhando sem diferença aclives e declives porque, pensei, as linhas retas perfeitas só existem dentro da mente humana. Cara, mas o cheiro de milho foi forte demais pra mim, tive que apoiar todo o meu peso em um só ponto e pular para dentro. Uma das vacas se virou sem me julgar: minha maior ousadia dos últimos dias... Muito silêncio naqueles tempos, o bom e velho. Caminhei sem pressa pelo pasto, o sol não se pusera ainda mas já pendia cansado, então trocamos olhares alaranjados de confiança e cada um seguiu para o seu lado. Subi uma pequena colina para entender que a propriedade rodeava uma pequena casa onde pessoas de alma leve provavelmente cozinhavam alguma coisa com milho e manteiga e muito provavelment e não esperavam convidados, e mais provavelmente ainda não faziam ideia de que eu trocaria todas as minhas histórias por um prato generoso. Conforme me aproximei, pude sentir a brisa que varria todo o pasto, a boa-noite geral e sutil dos séculos inevitavelmente dando lugar às coisas inéditas, porque elas existiam, afinal. Há! Por isso, parei ali um momento e soube que alguém pintaria aquele quadro em 360 graus. Talvez até eu mesmo, quem sabe, Lince Paralelo, quem sabe, um dia, no futuro próximo circular. A casa foi ficando maior, uma porta que parecia exageradamente convidativa, mas por que não? Ninguém atendia. A televisão na sala murmurava coisas velhas sobre a Segunda Guerra Mundial. Uma cadeira de balanço ali fora me convenceu - logo o aroma de milho me fechou os olhos enquanto eu balançava o peso instável da minha existência, e quando os últimos raios do sol já se haviam recolhido e eu percebi que tinha cochilado, talvez segundos, talvez minutos (um segundo?), me senti revigorado como se voltasse de uma sucessão de gargalhadas espontâneas. A Segunda Guerra continuava desenrolando os barulhinhos tranquilos de um conto quase mitológico e a manteiga já impregnara minha roupa. Fiz meu caminho de volta. A estrada me esperava para continuar, pois o lado de lá da cerca ainda não tinha terminado comigo e agora tudo estava bem.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Artista

Interromperam o meu fluxo de pensamentos aleatórios. Foi o primeiro pensamento não aleatório que me veio. Um tipo meio cigano, óculos que pareciam de cangaceiro, ou como eu imagino serem óculos de cangaceiro, e depois a careca parcial escondida com um pano listrado vermelho-branco que retorcia o cabelo restante comprido em três divisórias: deu um pulo teatral para o meu lado, no meio do vagão do metrô, entre duas estações um pouquinho mais distantes. Já o tinha feito muitas vezes e o timing era sua segunda pele. Metade dança, metade tentativa de se equilibrar. Os outros evitaram o pedido de atenção subentendido, apesar de terem buscado minha reação imediatamente, eu, quem sabe o representante supremo dos expectadores babacas – era o que esperavam de mim. E é verdade que minha reação foi basicamente parar de viajar no MP3 confortável para saber o que viria daquele homem e seu patético acordeão, só que de uma maneira que o fiz como um desafio a todos os presentes. Não tirei os fones, no entanto, e então só eu soube do meu plano. O cigano tocou uma melodia tão patética quanto possível. Sorria tão palhaçosamente quanto possível. Mais ninguém se dignou a enxergá-lo, simplesmente porque teriam que enxergar também a própria necessidade patética do ser humano de ser enxergado. O que eu fiz só era permitido às crianças, e essas sim o fitavam com afiadas bolas de gude, eram três e estavam sentadas perto da porta. Mais do que previsível, o rosto da mãe se empenharia em disfarçar tudo com uma atenção exagerada ao desenho do mapa da linha de metrô. Quando a música acelerou, ele virou para as crianças, enfeitando sua performance com caretas patéticas. A mãe sorriu e beijou a filha num gesto de proteção. Bocejou. Fiquei pensando se o cigano estaria acostumado a ser ignorado, ou se sabiamente sabia que o ato de ignorar deixava sua exposição ainda mais evidente, pelo absurdo da coisa toda. Ali estava um sujeito que propunha um enigma, esse sim. Ou seria ele apenas um pobre romântico em busca da validação das massas, pessoa por pessoa, nem que isso levasse toda a sua energia pelo rio subterrâneo da metrópole? Sei lá. Só sei que no final ele juntou as palmas das mãos, pateticamente, agradeceu com os olhos fechados para frente e para trás - desceu uma estação antes de mim - e o MP3 voltou para os meus ouvidos no fade-in ilusório. Senti a nuvem de alívio no vagão. Pensava nisso ainda quando subi as escadas da estação e vi de novo aquela cara patética com óculos de cangaceiro estampada no primeiro outdoor: ingressos a partir de trezentas pratas.

sábado, 18 de agosto de 2012

Decisão

Não soube de imediato que ela iria mexer comigo nesse nível tal, mas aos poucos foi ficando claro – e claro, eu já tinha idade suficiente para saber o que aquilo queria dizer. Foi uma semana antes, as previsões apontavam na receita do sol o uso da panela de pressão, o meio-dia ansioso surpreendendo bocejos por toda parte, eu vi um homem e seu bode tropeçarem no meio-fio um após o outro e as gaivotas sorrirem sarcásticas entre si num céu de photoshop iniciante. Ela jogou limpo o tempo todo. Seus pais não estavam de acordo, caramba. Lince, nada disso vai funcionar se você não vier comigo e arranjar um trabalho de freelancer ou sei lá como se chama. A universidade era muito mais do que um colete salva-vidas para ela: vi em seus olhos, melosos, ensebados; não, só melosos mesmo, uma vida inteira pela frente, porém já uma fração passada – a fração jovem dos comerciais – deixava as marcas no tapete vermelho sem fotógrafos para entrar num salão onde os coquetéis viriam aos montes, os convidados que em vez de vestirem roupas formais e usarem bigodes finos jogariam pôquer em pé, em grupos de três, talvez quatro ou cinco, mas haveria também quem dissesse que o que estava em funcionamento era um sistema geral e interligado de apostas. Enrolei a ponta do cabelo dela enquanto a olhava. Enquanto ela falava. Ela me olhava regularmente também, mas eu não passava de um mero obstáculo em sua corrida de palavras, seus saltos ginásticos entre pontos de exclamação, sua camiseta com um barquinho estilizado. Sempre tive vontade de ter um barco, mas nunca mexi um neurônio nessa direção. Ou talvez não. Que barco o quê, com mil pergaminhos de inutilidade! Mas e se eu fosse mesmo junto com ela? Daí seríamos felizes para sempre ou então eu teria que voltar atrás, pois se fosse na semana seguinte, então aí estaria uma semana perdida da minha vida. E se fosse justamente a última semana da minha vida? Isso era um argumento contra ou a favor? Mas Lince, não tem nada aqui para a gente, já passou, já foi. O problema agora é geográfico. Ao menos do ponto de vista dela. Eu mesmo não tinha um ponto de vista comprometido, só conseguia olhar para os seus olhos, e então para o barquinho. Um barquinho à deriva, sem forças para se firmar na correnteza, conseguir a simples centralização em uma camiseta sob um sol escaldante. Estava inclinado também, como se afundasse imperceptivelmente. Nos sentamos em cadeiras de ferro à beira do chafariz. As pessoas olhavam sem interesse para sua face rosada que eu conhecera jogando uma partida de vôlei especial em um lugar especial e nunca ninguém saberia que ela era capaz de empalidecer como queijo minas em dias de tristeza ou frio, e de amorenar como biscoitos de aveia nas nossas praias mais frequentes. Parou de falar e eu nem notei. Ela não esperava que eu me desse conta, não o fez calculadamente, apenas cessou como se lhe tivessem puxado a tomada. Seus olhos encontravam agora a minha camiseta. Tinha sido um presente seu, era azul e tinha uma estrela no meio, amarela. Eu adorava aquela camiseta e nós brigávamos a cada vez que íamos a algum lugar especial porque eu nunca a tirava. Nada disso. Era uma camiseta especial, oras. E então. Então o quê, Lince, ela resmungou. Começamos a rir e depois o sorriso foi murchando até virar uma seriedade de bom-senso que falava quase tudo. Eu sabia o que tinha que fazer. Só eu, as pessoas que passavam, não.