quarta-feira, 14 de março de 2012

Fusível

Uma limpeza completa era feita na piscina a cada duas semanas. A última tinha sido no dia anterior, alguém me disse em algum momento, ou então entreouvi uma conversa a respeito. Havia aquelas luzezinhas brancas por todo o quintal, trilhões delas, em volta das árvores, na caixa d'água, nas telhas e nos dois portões de madeira. Um belo contraste com a noite sem lua. A anfitriã saiu de dentro da casa com uma bandeja cheia de bolinhos de arroz, e todos olharam de imediato, como leões de documentário. Tenho que acrescentar aqui que três horas tinham se passado sem que nenhuma comida desse o ar da graça, e supostamente tínhamos todos sido convidados para um jantar dançante. Todos já tínhamos dançado. A trilha sonora se repetia em espiral (algumas músicas-chave eram mais frequentes que outras) e um dos convidados pegou no sono, se aproveitando do fato de que ninguém dava a mínima. Eu dançava com uma moça cujos pais tinham uma casa de penhores e queriam que ela perpetuasse a tradição familiar, mas não, ela tinha fugido de casa aos dezoito anos para trabalhar como estagiária em uma empresa do ramo alimentício. Sei disso porque ela me contou sua vida inteira durante a segunda ou terceira vez que tocaram “Let's Stay Home Tonight”, e depois o assunto acabou e ficamos calados pisoteando nossos pés. Mas aí, como eu ia dizendo, a anfitriã chegou com os bolinhos de arroz. Particularmente, posso dizer que até então nunca tinha provado na minha vida inteira um único bolinho de arroz. E era provável que a maioria das pessoas na festa nem soubesse que aqueles eram bolinhos de arroz, apesar de que sabiam com toda certeza possível que eram bolinhos - porque tinham formato de bolinhos, e cheiravam a bolinhos, e tinham aquela cor específica que os bolinhos têm. Eu sabia sobre a parte do arroz porque claro que o meu par de dança, do ramo alimentício, conhecia tudo sobre bolinhos de arroz, e sobre todos os bolinhos em geral (e também sobre os tipos de arroz), de modo que eu também acabei ficando de posse dessa informação privilegiada. A música acabou de repente, mas as pessoas continuaram dançando sem se darem conta disso, sempre de olho no trajeto da bandeja. A anfitriã virou pescoços por todo o gramado, e os bolinhos foram deixados na pequena mesa de toalha branca ao lado de um cortador de grama de última geração. Depois que todo mundo dançou uns dois minutos ao som de grilos e cigarras e do ruído constante do aquecedor da piscina, a anfitriã gritou algo para o filho adolescente sobre recolocar o CD com a seleção musical feita pelo famoso DJ do Suriname. Ela entrou em casa e todos ouvimos seus berros roucos indiscerníves, e os guinchos de uma guitarra sendo ligada no amplificador lá dentro. Nada disso importava, porque havia bolinhos de arroz, todos pensamos. Minha executiva do ramo alimentício se virou para mim com um olhar cúmplice. Parecia estar bolando algum plano em que eu faria a parte suja. O casal ao nosso lado mudou o ritmo para um passo de tango, e foi se encaminhando bem devagar para perto da mesa, só que eles olhavam para o lado oposto (seus rostos estavam colados). O cara que roncava acordou. Do outro lado da piscina, o grupo de jovens empresários já não se concentrava mais nas pernas da esposa do vereador. Os bolinhos deviam estar bem quentes, soltavam um vapor incrível em uma diagonal que cruzava o belo céu da noite. Minha executiva do ramo alimentício me puxou com os dois passos para lá, um passo para cá, três passos para lá, meio passo para cá etc, etc. O tipo de garota que sabe exatamente o que quer. A esposa do vereador cochichou alguma coisa no ouvido do marido, que soltou uma risadinha sacana e lambeu os beiços em singela discrição. A guitarra aumentou de volume, os berros também. “Let's Stay Home Tonight” entrou em fade in. Um senhor e uma senhora que juntos somavam pelo menos cento e cinquenta anos começaram a brigar bem baixinho, enquanto lançavam olhadelas de desespero para os bolinhos de arroz. Ninguém se atrevia a ser o primeiro. Quando o vereador se levantou, o fotógrafo deu um passo à frente, as duas amigas com roupas combinando desencostaram do muro. Mas o vereador desviou covardemente e foi fingir acender um cigarro, e todo mundo desistiu. Os dançarinos de tango contornavam a mesa ad nauseam, sem saber o que fazer, às vezes tropeçando no cabo de energia do cortador de grama de última geração. Alguns momentos depois éramos nós quem estávamos dançando bem próximos da bandeja, e a minha garota me fuzilava com suas pupilas dilatadas, mas a situação merecia todo cuidado. Havia no máximo quinze bolinhos dispostos em uma pirâmide perfeita. Olhei em volta: os cerca de trinta e cinco convidados fiscalizavam cada um dos meus movimentos. Comecei a pensar que um final feliz era impossível, era uma simples questão matemática. A anfitriã e o seu filho duelavam lá dentro com o CD surinameso e a guitarra respectivamente, em um conflito histórico sem precedentes. O cara que estivera dormindo se levantou, e as atenções se voltaram para ele. Era agora ou nunca. Abaixei para amarrar o sapato, e então liguei o cortador de grama de última geração na potência máxima. É engraçado como o cérebro age nessas horas. De alguma forma eu sabia que um fusível em algum lugar estava apenas esperando o seu momento: o aquecedor da piscina, as trilhões de luzezinhas, o aparelho de som com o CD surinameso em caixas de som espalhadas pela varanda, a guitarra, e agora o cortador de grama de última geração. Meti uns bolinhos no bolso, puxei a garota do ramo alimentício pelo braço e corremos no escuro total para um dos portões de madeira, enquanto em vez da décima segunda execução de “Let's Stay Home Tonight” ouvíamos a sinfonia mal mixada de centenas de grunhidos animalescos e xingamentos, berros e ameaças, sons de objetos voando pelos ares e convidados caindo dentro d'água. Acho que daquela vez não esperaram as usuais duas semanas para limpar a piscina de novo.