sábado, 11 de fevereiro de 2012

Depois de tudo aquilo, só me restou esperar que tudo se acalmasse, a poeira baixasse, e foi isso que eu fiz. Foi bem mais rápido do que eu supunha. A chuva ajudou, é claro. Logo, todos fugiram aterrorizados por medo de água (que na verdade era só medo de perder tempo, a médio prazo por resfriado, ou a curto prazo por ter que tomar um outro banho e colocar a roupa para lavar – era só isso) e a praça se tornou uma reserva protegida, com o mais provocante silêncio que eu jamais havia percebido. Só então me dei conta de que fazia uma quantidade incrível de tempo desde que ficara sozinho pela última vez. Sozinho mesmo, sem internet, sem pessoas passando aqui ou acolá, na janela ou no horizonte, sem o telefone tocando, sem televisão ou fones de ouvido, luzes se acendendo no quinto andar do prédio em frente, vizinhos arrastando móveis, pássaros cantarolando ou vendedores ambulantes em seus ofícios. Fazia uma eternidade! Assim, senti que poderia recomeçar dez, cem, mil vezes, tudo era possível contanto que eu esperasse novamente o silêncio, que sempre viria mais cedo ou mais tarde, em qualquer ocasião.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gasolina

Sei que o pessoal todo só estava decidindo o que fazer com as suas próprias vidas, mas eu não podia aguentar mais toda aquela baboseira. A semana toda se passara assim. Um louco, um desesperado, um neutro metido a especialista, uma obcecada por cálculos. A cada pisada no acelerador, a cada bifurcação na rua, todos apresentavam suas versões para a sensatez, só que nada se parecia com uma solução imparcial. Não sei como eu tinha entrado nessa confusão, não conseguia imaginar um desvio tão grande quando eles foram aparecendo na estrada, um a um. Pelo mapa era possível ver um desenho de casco de tartaruga, em vez da bela linha reta que eu idealizara. Em vez de diversão e tranquilidade, eu tinha gasolina agora. Gasolina.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Café

O cara cismou que tinha um emprego para mim. Não sei se ele me viu ajudando o gerente com a porta da loja de conveniência do posto, acho que sim. Daí me deu uma carona no 4X4 com sua garota sardenta e simpática. A cidade ficava a menos de cinquenta quilômetros dali, e fazia um belo dia de nuvens brancas inertes. Assim que chegamos, vi que seu empreendimento não passava de uma banca de café de 3X3, onde só cabiam duas pessoas. Em pé. Mas eu seria o único empregado, e como havia um tempo já que a minhas cinco moedas de emergência tinham se reduzido a uma só, resolvi aceitar. Na quarta semana, o suprimento de café foi chegando ao fim. Uns guardas apareceram e perguntaram algo sobre licenças, e eu apenas disse que o cara viria no final de semana. Pura invenção, eu não tinha notícias dele desde o primeiro dia. Tinha me dito que me pagaria no fim do mês, somando todas as horas e mais uma bonificação por desempenho. Vendi tudo antes de sexta-feira, mas ninguém veio repor o café. Precisei dizer aos clientes que não tinha mais, e era só. No dia seguinte, mesmo sem ter nada para fazer, fui até lá, por causa de uma gracinha que vinha sempre depois da academia. Dei uma varrida, peguei meu salário no caixa, fechei tudo e fomos tomar um café.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Enfeites

Apesar de fevereiro, havia enfeites de Natal, uns papais noeis, o que interpretei como um indício de que quando as pessoas enfim encontravam suas bondades inesperadas em algum lugar, queriam prolongar aquilo ao máximo. A desculpa podia até ser o esquecimento, mas todo mundo sabe que ninguém nunca esquece nada.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A ética e o cansaço

Hortêncio Gimo veio nos receber na porta da espelunca com um sorriso. Ele era um velho amigo de infância, não o via há pelo menos uma década. Não estava tão mal, apenas a barba exibia pinceladas de cinza na altura das costeletas, e uma barriga de chope se pronunciava sob a camisa de botões. Almoçamos todos juntos na copa. A moça recém-contratada preparara um cozido de galinha e um café bem forte, tudo muito bom e caprichado. Peguei as chaves do 202 na recepção e subi. Dali a poucos minutos o telefone tocou: Hortêncio Gimo perguntava se eu tinha interesse em uma viagem de pesca com os camaradas do golfe, mas eu não sabia nem pescar nem jogar golfe. Fui, de qualquer forma. Um ruivo mal-encarado que pescava com arpões se aproximou do meu canto do barco.
- Quanto tempo você fica por aqui?
- Uma semana. Uma semana e meia.
- Ganhei dois campeonatos de pesca no ano passado.
- Sério? Que ótimo.
- Venci o Iuri Pé-de-Pato por cinco pontos no municipal. E teve o regional também. Para dizer a verdade, no regional fiquei em terceiro. Mas fui o mais aplaudido.
- Sei. Como vocês contam os pontos?
- Peso.
Ele se afastou. Não passaram nem dois minutos, um velho que devia ter bem uns noventa anos veio falar comigo.
- Olhe, não acredite em uma palavra do que diz esse pilantra.
- Que pilantra?
- Esse que veio falar com você agora há pouco, o ruivo.
- Entendi.
- Na verdade ele mal consegue pescar e fica contando suas lorotas o dia inteiro. Deixamos que venha só porque o irmão dele é o dono do barco.
O velho piscou um dos olhos, pegou a rede que estava ao meu lado e foi ajeitar os pesos de chumbo ou qualquer coisa parecida. O ruivo resolveu voltar.
- O que o Jamau queria?
- Nada, só pegar a rede dele.
- É bom você não confiar naquele sujeito. Não há uma palavra que saia da boca dele que seja verdadeira. É um mentiroso compulsivo.
- Entendi.
No final da tarde Hortêncio Gimo me perguntou se estava tudo bem. O barco balançava muito, fora isso tudo em ordem. Voltei para o hotel sem pescar nada, o que não me surpreendeu nem um pouco.
- Os caras são engraçados, não são? – quis saber Gimo antes de me entregar as chaves, depois do jantar.
- Sim, foi legal.
- Só espero que o Fernão e o velho Jamau não tenham te incomodado muito. Os dois são mentirosos profissionais.
- No final das contas acho que eles foram bastante sinceros. Acho que tenho esse efeito nas pessoas.
Subi e tomei um banho, pronto para dormir o dia seguinte inteiro. Antes de me deitar, olhei no espelho e vi algo. Tinha nascido um pêlo branco na minha barba.

Trajeto

A luz me fez abrir os olhos, e lá pelas sete o silêncio reinava no ônibus. Eu podia ouvir apenas o ronco do Londo e vê-lo quase caindo da sua poltrona, uns três lugares na minha frente. Devia faltar ainda uma boa hora para a próxima parada, e um pouco menos para os mais apressadinhos começarem a mexer nas sacolas com biscoitos e balas de hortelã. A estrada era boa. Da janela eu via todos aqueles carros nos ultrapassando como besouros seguindo instintos primitivos. Senti um peso no lado direito do corpo: a morena de cabelos curtos descansava sua cabeça no meu ombro. De repente ela pareceu em paz. Tinha passado a noite inteira se revirando de um lado para o outro, me acordando e me deixando louco, sempre que eu conseguia começar a sonhar com alguma coisa. Aquilo não me deixou constrangido. Pelo contrário, me fez pensar na intimidade espontânea que pode surgir entre duas pessoas que simplesmente compartilham o mesmo trajeto no espaço. Logo ela acordaria, pediria desculpas, e seguiríamos nossos caminhos pré-determinados.

Mercearia

Quem sabe aquela fosse a última mercearia da cidade grande, de todas as cidades grandes. Quando ouvi o pequeno rádio colocado no chão, quis diminuir o passo, porque também o sol rabiscava uns tons meio sossegados na calçada à minha frente. As paredes ou eram azuis, ou verdes. Não tinha ninguém ali. A música continuou. Era uma cançãozinha de uns cem anos atrás que me fez ver que para viver basta estar de vez em quando bem atento, mesmo que com o mecanismo ultrapassado e lento do canto da alma. Era o que a letra não dizia. A melodia se emendou numa outra sem que eu percebesse e, caramba, logo soava desconhecida, o solo do naipe do foco de uma câmera cinematográfica decidida, que me deixou apenas a alternativa de descobrir como rimar o vento com a minha própria transpiração.