sábado, 29 de outubro de 2011

Mesa

- Vem ao concerto hoje?
- Estou na mesa do Sr. Alado.
- Eu também tenho uma mesa.
- É no setor amarelo?
- Azul.
- Entendi.
- É por causa da perspectiva. Gosto de ter uma visão mais ampla. Mas podemos nos ver depois, se você quiser. Conheço um barzinho de jazz muito bom na Teixeira.
- Você tem uma mesa lá?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Nova Iorque

Caminhei até a parede de tijolos e me encostei com um dos pés enquanto as pessoas procuravam a escada do metrô. Peguei o celular e ouvi sua voz apenas saída da cama, quase senti o perfume que eu tinha dado de presente. Na meia hora seguinte, dei quinze voltas no quarteirão, fingindo um tempo de percurso, e ela abriu a porta para mim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Shine on you

Valioso é descobrir que o tesouro mesmo é o mapa (que nem existe), porque o que eu tenho usado para me guiar aqui é um diamante que brilha às vezes, dependendo das circunstâncias, uma dinâmica misteriosa que codifica as respostas todas ao dizê-las da forma mais direta possível.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Burburinho

Chega a ser atordoante andar no meio da multidão reconhecendo a presença de tantos momentos em um mesmo local, todos simultâneos, todos absolutos, e não estou falando só do que é visto dos olhos ou da altura de cada um, mas também do choque entre os contextos. Ninguém usa a mesma língua. É por isso que o mundo gira, ele é reconstruído cotidianamente através de microscópicos desentendimentos muito maneiros.

domingo, 16 de outubro de 2011

Galera

Fazia algum tempo que não entrava lá para rever todo o pessoal e contar um pouco de besteiras no balcão da irresponsabilidade confortável. Porque sempre que passava depois do trabalho, estavam fazendo uma festa. Eu podia entrar se tivesse convite. Era só fazer uma ligação, tipo dois minutos, e pronto, rapidinho me deixavam entrar. Nunca quis. Mas dessa vez achei que podia mudar o meu humor, que andava bastante sacal há um tempo – eu merecia um descanso de mim mesmo. Mal ultrapassei o segurança, encontrei dois amigos da época da faculdade. Depois uma conhecida do banco, um vizinho de apartamento, o motorista do ônibus, a velhinha da livraria, um domador de bestas, o roadie do show de sexta-feira dos Napoleones, a groupie-chefe dos Napoleones, os Napoleones, uma mulher vestida de Rainha Elisabeth II. Um homem vestido de Rainha Elisabeth II. A noiva do Chuck, o irmão gêmeo do Charles Bronson, trinta e cinco casais felizes da Ilha de Portaganmad, a Chiquinha e seus bisnetos, o sócio-proprietário do Hotel Califórnia, três modelos de lingerie. Isso tudo antes das onze. De manhã, fui embora sem cumprimentar ninguém.

Competição

A rota, aquela em específico, consistia em atravessar o percalço dos feridos com tamanha elegância que, inclusive nas épocas de colheita e essas coisas, as pessoas comuns parassem para observar e aplaudir, trazendo água gelada em garrafas térmicas (era permitido pelo regulamento). Funcionou. Os próprios competidores se transformavam em torcedores quando iam percebendo o seu lugar. O líder da prova deixava o vice ultrapassá-lo sem medo; o vice, por sua vez, parava para descansar. Teve até o juiz, o senhor respeitável sentado na cadeirinha alta na metade do percurso, que se empolgou ao anunciar que ele mesmo daria seu troféu da época da universidade para aquele que chegasse em último. Alguém trouxe uma garrafa de champanhe e todo mundo esqueceu do placar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Elo

Uma semana daquelas, que valia por todo um ano, prometia uma noite calma. O problema foi quando atravessou a estrada um cachaceiro que carregava uns livros nas duas mãos, e de dentro deles caíam folhas de papel, todas brilhantes no escuro intercidades. Não deu tempo de perguntar, ele correu para atingir o combo dos tropeços. Peguei uma das folhas para saber do que se tratava e li um monte de frases aparentemente soltas: “O erro dos mamutes se mostrou incrivelmente acertado.” “Lá adiante, uma geringonça mágica sincronizante.” “E tinha.” “Rumores confirmavam o artigo de Amelinda.” “PAUL RODGERS ESTREIA HOJE” “Como se vê, uma uva vale mais do que o caroço.” “Rápido, temos que tirar logo as camadas...” “Fumaça!”

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cidade

De cima da colina o andarilho viu a cidade. Que não era um feito típico humano, ela era só parte da natureza em geral. Era produto de séculos de amadurecimento orgânico, celular, competitivo, o próprio cerne do universo em um espetáculo imparcial. Os pombos voam nas praças à cata de migalhas, isso é uma cena que podia ser vista há milhões de anos, com outros atores e outros cenários.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Basta

Basta um instrumento musical suíço que soa na praça, com duas ou três pessoas em volta, a capa dele aberta na espera de algumas moedas, não muitas, em um fim de tarde mais consciente que o normal. Basta um pneu furado quando se menos espera, no meio do caminho. Hoje eu vi três inícios de filmes completamente diferentes entre si, só o começo mesmo, mas lembrei de uma sensação boa que tinha esquecido já. Perdi umas coisas e achei outras. Basta, acho.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Realidade

Feita uma pintura em óleo sobre tela, o artista disse que eles podiam sair da pose. Aí o rei beijou a cortesã, amarrou o barco de volta, lavou os cavalos, comeu um dos peixes com limão e depois ligou para o suporte técnico.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lista

- Comprar pão
- Comprar 200g de queijo prato
- Colocar o lixo para fora
- Voar sobre campos cultivados, usando alguma espécie de avião bimotor
- Lavar roupa de cama (com amaciante)
- Comprar um chaveiro
- Fazer uma viagem desde a África até arquipélago de Fiji em um cargueiro
- Aprender a tocar clarinete
- Cozinhar frutos do mar
- Ouvir “Everybody thinks it's their turn”
- Comprar novas caixas de som pequenas
- Mergulhar no rio de madrugada e abrir os olhos debaixo d'água
- Terminar de ler “Le Città Imaginarie”
- Dormir na praia
- Conversar
- Criar um personagem chamado “Tristão”
- Olhar para o céu e saber o que fazer
- Decidir a minha vida inteira
- Deixar a vida me surpreender
- Trocar todas as moedas por notas no supermercado

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Maturidade

A fronteira máxima estava para ser ultrapassada, todos os veteranos sabiam disso porque o sol não era mais o mesmo – antes, derretia o cansaço sob a pele; agora era suave como um enigma velho demais. Dentro de poucos minutos os sonhos mudariam para sempre, porque teriam sua vez. E assim foi, quando as árvores balançaram seus sinais de sucesso, as gaivotas voaram em formação característica, os cavalos se acalmaram e uma música distante e emocionante foi ouvida no mais lento fade in de todos os tempos.

Lugar preferido

Ela me levou até o lugar preferido dela. Era um barranco de terra vermelha depois do subúrbio, acima do ferro-velho. Perguntei por que gostava dali, e ela disse que “porque as pessoas não têm expectativas em barrancos com vista para ferros-velhos”, e eu gostei da resposta, apesar de ter sim expectativas com relação a ela. E ela sabia disso (e também tinha expectativas). Além do mais, nem reparei o ferro-velho – vi o horizonte de montanhas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Inspiração

Tinha que estudar, tinha que trabalhar, que ler, que fazer uma porrada de coisas. Mas parei um instante na beira da calçada, num cruzamento entre a Praça do Lugar-Comum e a Via Expressa da Novidade Dissimulada (veloc. Máx. 0.5km\h com seis faixas de pedestres) e fiquei ouvindo o imigrante que tocava um trombone de estanho porque, sem no entanto executar nenhuma música em especial, apenas improvisava em cima de notas soltas – e era uma escala própria e inventada sem o menor respaldo de ninguém. Escolhi um lado e andei nonstop até anoitecer na mesma direção... No final, vi uma casa com as janelas quebradas, sem luzes, um palácio de ervas daninhas. Depois virei e voltei. Foi só quando tomei um banho, coloquei a roupa para lavar e fiz um macarrão com atum é que entendi que tem vezes em que um dia é, digamos, apenas um dia mesmo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Balão

O balão se prepara para sobrevoar os sonhos quase acordados, nessa manhã em que o ontem e o amanhã estão ainda misturados e é comum não se saber nem quem se é direito, porque não se é ninguém a não ser um pouco de ar frio de repente em contato com o ar quente de antes.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Afinação

As notícias no radinho a pilha pendurado na parede eram cronometradas para durar vinte segundos cada uma, contando com uma eventual entrevista da autoridade blabablá, e assim ele sabia que depois da notícia tal era já hora de jogar as moedas no prato e levantar. Em seguida ia para a loja de instrumentos musicais que só abria pouco antes das três, e admirava o Mag Kapa XI, um piano de cauda que podia muito bem ser tocado por Deus junto com a orquestra do Juízo Final – ele era propriedade de um Nobre que precisara empenhá-lo para recuperar uma bandeira num território de cerca de dez metros quadrados entre a Bélgica e a Holanda. O Sr. Remo esperava o dono da loja ir para o pavimento superior e aí afinava o piano em apenas dois minutos com precisão milimétrica, e eram os dois melhores minutos.

O baú vazio

Mesmo que oportunidades douradas fossem achadas dentro de um baú mágico nas profundezas do vulcão mais selvagem, depois da passagem ilesa pelo tigre guardador e as flechas automáticas de mira precisa, e da trabalhosa retirada de um caminhão de terra pesada, mesmo assim haveria quem preferisse então escondê-las de todo mundo, inclusive de si mesmo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Projeção

Por outro lado foi engraçado porque a própria multidão criava o grandecíssimo espetáculo. Eram milhares de indivíduos espremidos entre cotovelos para assistir ao desenrolar dos fatos, aqueles que, conforme se especulava em importantes círculos, poderiam até mesmo provocar um efeito assombroso na História dos Fatos. Após horas de espera, o líder apareceu. Vinha caminhando pela principal via, iluminado por holofotes. Qualquer um que estivesse presente esqueceria por um instante suas preocupações com a bagunça na garagem (e contas feitas de cabeça enquanto se conversa sobre qualquer outra coisa) para participar do momento inédito. Mas não aconteceu bem assim. A desilusão coletiva foi ouvida, ninguém esperava que a figura que eles seguiam há tanto tempo fosse exatamente igual a eles, com as mesmas babaquices intrínsecas e movimentos afirmativos de cabeça, e até um pequeno remendo na camisa: uma voz humana.

Na mesma página

- Mas quando podemos ir, você sabe?
- Agora... Assim que você quiser. (Silêncio) Na verdade, eu preciso olhar a previsão do tempo.
- Não vai chover.
- Eu tenho uma impressão boa da nova vizinhança, sabe?
- É, tem aquela velhinha que elogiou o meu vestido. E um buldogue na casa da frente.
- Desde a primeira vez que estive lá que eu percebi como a grama tem um verde especial.
- Foi o que te convenceu, não foi? (Risos)
- Acha que dá tempo de comprar um cortador de grama?
- Hum. Sempre dá tempo.
- A gente passa no supermercado no caminho. A barraca já está montada, o saco de dormir eu levei ontem, avisei o corretor...
- Eu estou levando um cobertor extra pra gente.
- Digo mais: tenho certeza de que em menos de um ano começamos a construir a casa.

domingo, 2 de outubro de 2011

O lado bom da inércia

Vou falar agora sobre uma hora do dia que é umas das minhas preferidas. Eu sento à mesa para escrever e ainda tem um sol lá fora, nem percebo e dali a pouco não enxergo mais o teclado. Fiz café e quando vou beber outro gole, está frio. Mas o sistema randômico musical acertou dessa vez e o pensamento tem uma trilha sonora de confiança. Não, eu não quero acender a luz, quero só ver o quanto os azuis aguentam, sou o espectador das transições; não tenho sono, não tenho fome, não faço planos, não tenho medo (nem ansiedade), simplesmente porque tudo muda a olhos vistos, sem truques.

sábado, 1 de outubro de 2011

Dois dias

Depois foi maneiro chegar lá sozinho, pela segunda vez. Foi assustador, na verdade. Tinha uma névoa meio que dando um ar sinistro à cidade em plena meia-noite e meia, mas eu sabia que era assim apenas àquela hora, ao amanhecer tudo seria diferente. Ainda errei a rua e por um momento achei que tinham me enganado, acabei na minúscula Travessa Figueiroa, quando o albergue era na Avenida Figueiroa, mas por fim subi para o quarto surpreendente de paredes de cor de melancia. De manhã, coloquei a música típica no mp3 - primeiro escutei Vinícius e Amália (juntos)- enquanto perambulava pelas ruas estreitas e acolhedoras, comendo doces feitos de ovo e farinha em padarias que chamam os clientes de “freguês”, o dono dava uma lição ao empregado sobre preços, eu escutava aqui e ali as conversas em uma língua musical, engraçada e sem frescuras. O sentido do olfato também acordou pronto para novas temporadas. No primeiro dia rodei todo o centro histórico reparando na verticalidade da cidade, almocei um peixe delicioso e caro com um gole de vinho especial (mas quebrei uma taça, o garçom disse que naquele restaurante não se pede desculpas jamais, só que a conta demorou duas horas para chegar), enquanto assistia ao movimento do rio debaixo da ponte, uma verdadeira visão! Aceitei uma sugestão experiente de alguns dias atrás e atravessei para o outro lado procurando um cochilo na grama. Achei pequenas embarcações com bandeirinhas e universitárias bonitas de aulas recém-iniciadas, um horizonte bucólico sem câmeras fotográficas. No segundo dia coloquei como meta ver o mar, e não apenas vê-lo, mas descobri-lo. Fui andando e andando, só que pro lado errado, quem me falou um pescador que se chamava Ortiz. Como não tinha peixe naquela altura do rio, ele procurava outro local para tentar a sorte. Fomos caminhando e ele me contou sua história. Estava desempregado há um tempo já, pescava por hobby usando vara e anzol emprestados. Só que o dono do equipamento morreu e ele herdou tudo e resolveu tirar uma licença (acho que seis pratas por ano) – aí começou a fazer aquilo regularmente. Disse que conseguia até vinte peixes por semana, os quais deixava no congelador para alimentar a família. Ele falava: “Um gajo continua procurando trabalho todo dia.” Dizia sempre “Um gajo” em vez de “Eu”. Perguntei se ele ia sempre até a repartição de auxílio, ele respondeu que entrava pela internet do filho contador. Mostrou-me duas vezes onde morava com o indicador apontado para o outro lado do rio. Era a personificação da desprentensão, um descritor não pode pedir mais do que isso: acima do peso, jaqueta e calça jeans, um boné escondendo a careca, maneiras tímidas e simples. Desligou o radinho quando me encontrou, para economizar a bateria, “Isso aqui é só pra distrair”. Ele me contou que tinha uma máquina de derreter chumbo em casa (um alquimista moderno), para fazer o anzol, acho. De fato abaixou para pegar uma pecinha nos trilhos por onde seguíamos, me disse que elas se soltavam de automóveis – e sorriu. Fomos ultrapassados pelo bonde, enquanto eu ouvia histórias de enchentes e contava como era o lugar de onde eu vinha. Deixei-o em determinado ponto do rio, e segui por mais quase uma hora pelas margens. Foi um bocado de passos antes de atingir o objetivo e a fome começou a apertar, passei antes por um observatório de aves, tirei várias fotos, contemplei as águas com a ajuda do Neil Diamond. Aí depois de um farol, cheguei numa praiazinha cheia de pedras redondas (peguei uma de cada cor) e de clima cinza que, com a exceção de um pescador distante, estava completamente vazia. Tinha até um banheiro nos fundos do Beach Bar abandonado, onde eu dei uma mijada providencial e tirei uma foto do meu rosto no espelho. Daí desci para a areia e descalcei o tênis, molhei os pés pedindo as bênçãos salgadas e geladas, depois joguei água na cabeça também. Foi excelente. Em seguida comecei o trajeto de volta (esqueci de dizer que a minha mochila estava completamente cheia de uma semana de andança) e no caminho encontrei o Ortiz de novo, mas ele atravessava a rua e não me viu, ocupado com a descoberta e negociação de uma barra de chumbo por ali. De volta ao centro, comi um brioche com um suco de laranja de verdade, andei até o metrô me perdendo várias vezes, até chegar na estação mais verde do mundo, com um casal calmo e uma dois executivos espanhois. Peguei o avião e li metade de um livro, o ônibus no aeroporto, a bicicleta na estação, minha cama com a desarrumação de uma semana atrás.