sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A alma das coisas

Restos de cascas de cebola descansaram em cima da toalha esticada exatamente no meio do campo de futebol, também um aquecedor elétrico, assim como aquela meia dúzia de guardanapos e o pessoal levemente inconsciente da sua própria felicidade. Se fosse um filme, seria a panorâmica inicial. Se fosse um jogo, seriam os dois últimos segundos do primeiro tempo. Se fosse uma prova, seria a pergunta sobre um noticiário ligado por acaso na noite de pôquer. Se fosse uma ave, estaria planando. Se fosse um terminal de ônibus, seria a fila de embarque. Se fosse um churrasco, seria o cheiro no ar. Se fosse um ukelele, seria um mergulho no mar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Centena

O Conselheiro Kokoa já tinha mencionado aquilo. Eram chamados “A Centena”, e iam de cidade em cidade de forma incógnita, nômades de origem desconhecida e de estratégias incríveis. Um velho podia chegar a uma espelunca e pedir um vinho Alcatenei, uma marca inexistente, como pensaria o próprio barman. No dia seguinte, viria um empresário de terno e gravata no mesmo local para encomendar cem garrafas do Alcatenei 1998 para a festa de final de ano da empresa. E na mesma semana um funcionário rouco das Vinhas São Marcos do Joá ligaria para oferecer a safra ao proprietário do bar, que compraria, felizasso, litros e litros de suco de uva aguado, porém de boa coloração. Ou talvez aparecesse na praça central uma grande e barulhenta manifestação pela libertação de Gustava, a maior sensação do axé-metal, que teria sido presa por comportamento inadequado em público. Era até capaz do chefe de polícia entrar em desespero por não fazer ideia de onde estava a dita cuja, porque na Cadeia Municipal não tinha diabo de Gustava nenhuma. Mas eis que na Festa dos Balões, de forma espetacular e sem o prévio conhecimento dos organizadores, a estrela subiria aos palcos, para delírio da multidão e de toda a imprensa. Se fosse ano de eleição é possível que Gustava conseguisse o recorde de vereadora mais votada da região. E provavelmente “A Centena” seguiria então para a próxima cidade.

Raízes

Faz aí um pedido. Não é possível que as cercas de fazenda, o mirante, os minerais, os corações humanos interligados em música pela força enigmática do mínimo denominador comum que é a sobrevivência da Vida como Instituição não sejam capazes de resolver qualquer coisa que seja – qualquer – nessa bendita Terra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Às Sete

Fui buscá-la em casa. Parei meu carro de barulhos simpáticos e amparado pela lua cheia. Tinha pensado um monte antes de levar um buquê – resolvi em vez disso dar um colar. Não sei como, ela gostou pra caramba, e me tascou um beijo meio apressado. Melhor assim, a noite começa quando a gente está perfumado de esperança. Quis tirar uma foto antes de seguir para a festa, então segurei sua cintura e entreguei a camera ao porteiro. A fotografia esperada não existe, o cara acabou apertando o zoom sem querer, e tudo o que saiu enquadrado foi o meu sorriso com o canto da boca. Os porteiros são os melhores fotógrafos.

Sequência

O dia vai correndo o seu caminho normal, chato, comum. Passa um mendigo, uma velhinha sorri sozinha no banco do ônibus. Você se perde na sua própria cidade. Uns quarenta e oito pássaros levantam voo com um barulho de freada, uma coisa banal como o doce de laranja da vizinha esfriando na janela da cozinha. A placa de Pare quebrou. Ninguém se importa, os carros param assim mesmo. Os turistas fotografam, riem e eles mesmos não se levam a sério – o contrário seria ridículo. “Licença”, alguém pede, é bem um insulto desmedido. As pedras sem forma são chutadas para longe, um lata cai do terceiro andar (a tinta verde escorre pela calçada). O coelho tenta entender o sentido da vida de dentro da sua gaiola na loja de animaizinhos, mas está tudo ok porque há movimento e as coisas têm um mecanismo. Você repara, são já seis horas da tarde, todos se dão por vencidos, acionam o automático. No meio disso tudo, tem um mísero instante (recorrente) que pode ser quase ignorado e tantas vezes o é, só que desta vez você prestou atenção. É a sensação de descobrir alguma coisa. Descobrir o quê? Não dá pra saber, é rápido demais. O jeito é esperar a próxima vez.