sábado, 29 de outubro de 2011

Mesa

- Vem ao concerto hoje?
- Estou na mesa do Sr. Alado.
- Eu também tenho uma mesa.
- É no setor amarelo?
- Azul.
- Entendi.
- É por causa da perspectiva. Gosto de ter uma visão mais ampla. Mas podemos nos ver depois, se você quiser. Conheço um barzinho de jazz muito bom na Teixeira.
- Você tem uma mesa lá?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Nova Iorque

Caminhei até a parede de tijolos e me encostei com um dos pés enquanto as pessoas procuravam a escada do metrô. Peguei o celular e ouvi sua voz apenas saída da cama, quase senti o perfume que eu tinha dado de presente. Na meia hora seguinte, dei quinze voltas no quarteirão, fingindo um tempo de percurso, e ela abriu a porta para mim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Shine on you

Valioso é descobrir que o tesouro mesmo é o mapa (que nem existe), porque o que eu tenho usado para me guiar aqui é um diamante que brilha às vezes, dependendo das circunstâncias, uma dinâmica misteriosa que codifica as respostas todas ao dizê-las da forma mais direta possível.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Burburinho

Chega a ser atordoante andar no meio da multidão reconhecendo a presença de tantos momentos em um mesmo local, todos simultâneos, todos absolutos, e não estou falando só do que é visto dos olhos ou da altura de cada um, mas também do choque entre os contextos. Ninguém usa a mesma língua. É por isso que o mundo gira, ele é reconstruído cotidianamente através de microscópicos desentendimentos muito maneiros.

domingo, 16 de outubro de 2011

Galera

Fazia algum tempo que não entrava lá para rever todo o pessoal e contar um pouco de besteiras no balcão da irresponsabilidade confortável. Porque sempre que passava depois do trabalho, estavam fazendo uma festa. Eu podia entrar se tivesse convite. Era só fazer uma ligação, tipo dois minutos, e pronto, rapidinho me deixavam entrar. Nunca quis. Mas dessa vez achei que podia mudar o meu humor, que andava bastante sacal há um tempo – eu merecia um descanso de mim mesmo. Mal ultrapassei o segurança, encontrei dois amigos da época da faculdade. Depois uma conhecida do banco, um vizinho de apartamento, o motorista do ônibus, a velhinha da livraria, um domador de bestas, o roadie do show de sexta-feira dos Napoleones, a groupie-chefe dos Napoleones, os Napoleones, uma mulher vestida de Rainha Elisabeth II. Um homem vestido de Rainha Elisabeth II. A noiva do Chuck, o irmão gêmeo do Charles Bronson, trinta e cinco casais felizes da Ilha de Portaganmad, a Chiquinha e seus bisnetos, o sócio-proprietário do Hotel Califórnia, três modelos de lingerie. Isso tudo antes das onze. De manhã, fui embora sem cumprimentar ninguém.

Competição

A rota, aquela em específico, consistia em atravessar o percalço dos feridos com tamanha elegância que, inclusive nas épocas de colheita e essas coisas, as pessoas comuns parassem para observar e aplaudir, trazendo água gelada em garrafas térmicas (era permitido pelo regulamento). Funcionou. Os próprios competidores se transformavam em torcedores quando iam percebendo o seu lugar. O líder da prova deixava o vice ultrapassá-lo sem medo; o vice, por sua vez, parava para descansar. Teve até o juiz, o senhor respeitável sentado na cadeirinha alta na metade do percurso, que se empolgou ao anunciar que ele mesmo daria seu troféu da época da universidade para aquele que chegasse em último. Alguém trouxe uma garrafa de champanhe e todo mundo esqueceu do placar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Elo

Uma semana daquelas, que valia por todo um ano, prometia uma noite calma. O problema foi quando atravessou a estrada um cachaceiro que carregava uns livros nas duas mãos, e de dentro deles caíam folhas de papel, todas brilhantes no escuro intercidades. Não deu tempo de perguntar, ele correu para atingir o combo dos tropeços. Peguei uma das folhas para saber do que se tratava e li um monte de frases aparentemente soltas: “O erro dos mamutes se mostrou incrivelmente acertado.” “Lá adiante, uma geringonça mágica sincronizante.” “E tinha.” “Rumores confirmavam o artigo de Amelinda.” “PAUL RODGERS ESTREIA HOJE” “Como se vê, uma uva vale mais do que o caroço.” “Rápido, temos que tirar logo as camadas...” “Fumaça!”

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cidade

De cima da colina o andarilho viu a cidade. Que não era um feito típico humano, ela era só parte da natureza em geral. Era produto de séculos de amadurecimento orgânico, celular, competitivo, o próprio cerne do universo em um espetáculo imparcial. Os pombos voam nas praças à cata de migalhas, isso é uma cena que podia ser vista há milhões de anos, com outros atores e outros cenários.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Basta

Basta um instrumento musical suíço que soa na praça, com duas ou três pessoas em volta, a capa dele aberta na espera de algumas moedas, não muitas, em um fim de tarde mais consciente que o normal. Basta um pneu furado quando se menos espera, no meio do caminho. Hoje eu vi três inícios de filmes completamente diferentes entre si, só o começo mesmo, mas lembrei de uma sensação boa que tinha esquecido já. Perdi umas coisas e achei outras. Basta, acho.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Realidade

Feita uma pintura em óleo sobre tela, o artista disse que eles podiam sair da pose. Aí o rei beijou a cortesã, amarrou o barco de volta, lavou os cavalos, comeu um dos peixes com limão e depois ligou para o suporte técnico.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lista

- Comprar pão
- Comprar 200g de queijo prato
- Colocar o lixo para fora
- Voar sobre campos cultivados, usando alguma espécie de avião bimotor
- Lavar roupa de cama (com amaciante)
- Comprar um chaveiro
- Fazer uma viagem desde a África até arquipélago de Fiji em um cargueiro
- Aprender a tocar clarinete
- Cozinhar frutos do mar
- Ouvir “Everybody thinks it's their turn”
- Comprar novas caixas de som pequenas
- Mergulhar no rio de madrugada e abrir os olhos debaixo d'água
- Terminar de ler “Le Città Imaginarie”
- Dormir na praia
- Conversar
- Criar um personagem chamado “Tristão”
- Olhar para o céu e saber o que fazer
- Decidir a minha vida inteira
- Deixar a vida me surpreender
- Trocar todas as moedas por notas no supermercado

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Maturidade

A fronteira máxima estava para ser ultrapassada, todos os veteranos sabiam disso porque o sol não era mais o mesmo – antes, derretia o cansaço sob a pele; agora era suave como um enigma velho demais. Dentro de poucos minutos os sonhos mudariam para sempre, porque teriam sua vez. E assim foi, quando as árvores balançaram seus sinais de sucesso, as gaivotas voaram em formação característica, os cavalos se acalmaram e uma música distante e emocionante foi ouvida no mais lento fade in de todos os tempos.

Lugar preferido

Ela me levou até o lugar preferido dela. Era um barranco de terra vermelha depois do subúrbio, acima do ferro-velho. Perguntei por que gostava dali, e ela disse que “porque as pessoas não têm expectativas em barrancos com vista para ferros-velhos”, e eu gostei da resposta, apesar de ter sim expectativas com relação a ela. E ela sabia disso (e também tinha expectativas). Além do mais, nem reparei o ferro-velho – vi o horizonte de montanhas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Inspiração

Tinha que estudar, tinha que trabalhar, que ler, que fazer uma porrada de coisas. Mas parei um instante na beira da calçada, num cruzamento entre a Praça do Lugar-Comum e a Via Expressa da Novidade Dissimulada (veloc. Máx. 0.5km\h com seis faixas de pedestres) e fiquei ouvindo o imigrante que tocava um trombone de estanho porque, sem no entanto executar nenhuma música em especial, apenas improvisava em cima de notas soltas – e era uma escala própria e inventada sem o menor respaldo de ninguém. Escolhi um lado e andei nonstop até anoitecer na mesma direção... No final, vi uma casa com as janelas quebradas, sem luzes, um palácio de ervas daninhas. Depois virei e voltei. Foi só quando tomei um banho, coloquei a roupa para lavar e fiz um macarrão com atum é que entendi que tem vezes em que um dia é, digamos, apenas um dia mesmo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Balão

O balão se prepara para sobrevoar os sonhos quase acordados, nessa manhã em que o ontem e o amanhã estão ainda misturados e é comum não se saber nem quem se é direito, porque não se é ninguém a não ser um pouco de ar frio de repente em contato com o ar quente de antes.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Afinação

As notícias no radinho a pilha pendurado na parede eram cronometradas para durar vinte segundos cada uma, contando com uma eventual entrevista da autoridade blabablá, e assim ele sabia que depois da notícia tal era já hora de jogar as moedas no prato e levantar. Em seguida ia para a loja de instrumentos musicais que só abria pouco antes das três, e admirava o Mag Kapa XI, um piano de cauda que podia muito bem ser tocado por Deus junto com a orquestra do Juízo Final – ele era propriedade de um Nobre que precisara empenhá-lo para recuperar uma bandeira num território de cerca de dez metros quadrados entre a Bélgica e a Holanda. O Sr. Remo esperava o dono da loja ir para o pavimento superior e aí afinava o piano em apenas dois minutos com precisão milimétrica, e eram os dois melhores minutos.

O baú vazio

Mesmo que oportunidades douradas fossem achadas dentro de um baú mágico nas profundezas do vulcão mais selvagem, depois da passagem ilesa pelo tigre guardador e as flechas automáticas de mira precisa, e da trabalhosa retirada de um caminhão de terra pesada, mesmo assim haveria quem preferisse então escondê-las de todo mundo, inclusive de si mesmo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Projeção

Por outro lado foi engraçado porque a própria multidão criava o grandecíssimo espetáculo. Eram milhares de indivíduos espremidos entre cotovelos para assistir ao desenrolar dos fatos, aqueles que, conforme se especulava em importantes círculos, poderiam até mesmo provocar um efeito assombroso na História dos Fatos. Após horas de espera, o líder apareceu. Vinha caminhando pela principal via, iluminado por holofotes. Qualquer um que estivesse presente esqueceria por um instante suas preocupações com a bagunça na garagem (e contas feitas de cabeça enquanto se conversa sobre qualquer outra coisa) para participar do momento inédito. Mas não aconteceu bem assim. A desilusão coletiva foi ouvida, ninguém esperava que a figura que eles seguiam há tanto tempo fosse exatamente igual a eles, com as mesmas babaquices intrínsecas e movimentos afirmativos de cabeça, e até um pequeno remendo na camisa: uma voz humana.

Na mesma página

- Mas quando podemos ir, você sabe?
- Agora... Assim que você quiser. (Silêncio) Na verdade, eu preciso olhar a previsão do tempo.
- Não vai chover.
- Eu tenho uma impressão boa da nova vizinhança, sabe?
- É, tem aquela velhinha que elogiou o meu vestido. E um buldogue na casa da frente.
- Desde a primeira vez que estive lá que eu percebi como a grama tem um verde especial.
- Foi o que te convenceu, não foi? (Risos)
- Acha que dá tempo de comprar um cortador de grama?
- Hum. Sempre dá tempo.
- A gente passa no supermercado no caminho. A barraca já está montada, o saco de dormir eu levei ontem, avisei o corretor...
- Eu estou levando um cobertor extra pra gente.
- Digo mais: tenho certeza de que em menos de um ano começamos a construir a casa.

domingo, 2 de outubro de 2011

O lado bom da inércia

Vou falar agora sobre uma hora do dia que é umas das minhas preferidas. Eu sento à mesa para escrever e ainda tem um sol lá fora, nem percebo e dali a pouco não enxergo mais o teclado. Fiz café e quando vou beber outro gole, está frio. Mas o sistema randômico musical acertou dessa vez e o pensamento tem uma trilha sonora de confiança. Não, eu não quero acender a luz, quero só ver o quanto os azuis aguentam, sou o espectador das transições; não tenho sono, não tenho fome, não faço planos, não tenho medo (nem ansiedade), simplesmente porque tudo muda a olhos vistos, sem truques.

sábado, 1 de outubro de 2011

Dois dias

Depois foi maneiro chegar lá sozinho, pela segunda vez. Foi assustador, na verdade. Tinha uma névoa meio que dando um ar sinistro à cidade em plena meia-noite e meia, mas eu sabia que era assim apenas àquela hora, ao amanhecer tudo seria diferente. Ainda errei a rua e por um momento achei que tinham me enganado, acabei na minúscula Travessa Figueiroa, quando o albergue era na Avenida Figueiroa, mas por fim subi para o quarto surpreendente de paredes de cor de melancia. De manhã, coloquei a música típica no mp3 - primeiro escutei Vinícius e Amália (juntos)- enquanto perambulava pelas ruas estreitas e acolhedoras, comendo doces feitos de ovo e farinha em padarias que chamam os clientes de “freguês”, o dono dava uma lição ao empregado sobre preços, eu escutava aqui e ali as conversas em uma língua musical, engraçada e sem frescuras. O sentido do olfato também acordou pronto para novas temporadas. No primeiro dia rodei todo o centro histórico reparando na verticalidade da cidade, almocei um peixe delicioso e caro com um gole de vinho especial (mas quebrei uma taça, o garçom disse que naquele restaurante não se pede desculpas jamais, só que a conta demorou duas horas para chegar), enquanto assistia ao movimento do rio debaixo da ponte, uma verdadeira visão! Aceitei uma sugestão experiente de alguns dias atrás e atravessei para o outro lado procurando um cochilo na grama. Achei pequenas embarcações com bandeirinhas e universitárias bonitas de aulas recém-iniciadas, um horizonte bucólico sem câmeras fotográficas. No segundo dia coloquei como meta ver o mar, e não apenas vê-lo, mas descobri-lo. Fui andando e andando, só que pro lado errado, quem me falou um pescador que se chamava Ortiz. Como não tinha peixe naquela altura do rio, ele procurava outro local para tentar a sorte. Fomos caminhando e ele me contou sua história. Estava desempregado há um tempo já, pescava por hobby usando vara e anzol emprestados. Só que o dono do equipamento morreu e ele herdou tudo e resolveu tirar uma licença (acho que seis pratas por ano) – aí começou a fazer aquilo regularmente. Disse que conseguia até vinte peixes por semana, os quais deixava no congelador para alimentar a família. Ele falava: “Um gajo continua procurando trabalho todo dia.” Dizia sempre “Um gajo” em vez de “Eu”. Perguntei se ele ia sempre até a repartição de auxílio, ele respondeu que entrava pela internet do filho contador. Mostrou-me duas vezes onde morava com o indicador apontado para o outro lado do rio. Era a personificação da desprentensão, um descritor não pode pedir mais do que isso: acima do peso, jaqueta e calça jeans, um boné escondendo a careca, maneiras tímidas e simples. Desligou o radinho quando me encontrou, para economizar a bateria, “Isso aqui é só pra distrair”. Ele me contou que tinha uma máquina de derreter chumbo em casa (um alquimista moderno), para fazer o anzol, acho. De fato abaixou para pegar uma pecinha nos trilhos por onde seguíamos, me disse que elas se soltavam de automóveis – e sorriu. Fomos ultrapassados pelo bonde, enquanto eu ouvia histórias de enchentes e contava como era o lugar de onde eu vinha. Deixei-o em determinado ponto do rio, e segui por mais quase uma hora pelas margens. Foi um bocado de passos antes de atingir o objetivo e a fome começou a apertar, passei antes por um observatório de aves, tirei várias fotos, contemplei as águas com a ajuda do Neil Diamond. Aí depois de um farol, cheguei numa praiazinha cheia de pedras redondas (peguei uma de cada cor) e de clima cinza que, com a exceção de um pescador distante, estava completamente vazia. Tinha até um banheiro nos fundos do Beach Bar abandonado, onde eu dei uma mijada providencial e tirei uma foto do meu rosto no espelho. Daí desci para a areia e descalcei o tênis, molhei os pés pedindo as bênçãos salgadas e geladas, depois joguei água na cabeça também. Foi excelente. Em seguida comecei o trajeto de volta (esqueci de dizer que a minha mochila estava completamente cheia de uma semana de andança) e no caminho encontrei o Ortiz de novo, mas ele atravessava a rua e não me viu, ocupado com a descoberta e negociação de uma barra de chumbo por ali. De volta ao centro, comi um brioche com um suco de laranja de verdade, andei até o metrô me perdendo várias vezes, até chegar na estação mais verde do mundo, com um casal calmo e uma dois executivos espanhois. Peguei o avião e li metade de um livro, o ônibus no aeroporto, a bicicleta na estação, minha cama com a desarrumação de uma semana atrás.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A alma das coisas

Restos de cascas de cebola descansaram em cima da toalha esticada exatamente no meio do campo de futebol, também um aquecedor elétrico, assim como aquela meia dúzia de guardanapos e o pessoal levemente inconsciente da sua própria felicidade. Se fosse um filme, seria a panorâmica inicial. Se fosse um jogo, seriam os dois últimos segundos do primeiro tempo. Se fosse uma prova, seria a pergunta sobre um noticiário ligado por acaso na noite de pôquer. Se fosse uma ave, estaria planando. Se fosse um terminal de ônibus, seria a fila de embarque. Se fosse um churrasco, seria o cheiro no ar. Se fosse um ukelele, seria um mergulho no mar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Centena

O Conselheiro Kokoa já tinha mencionado aquilo. Eram chamados “A Centena”, e iam de cidade em cidade de forma incógnita, nômades de origem desconhecida e de estratégias incríveis. Um velho podia chegar a uma espelunca e pedir um vinho Alcatenei, uma marca inexistente, como pensaria o próprio barman. No dia seguinte, viria um empresário de terno e gravata no mesmo local para encomendar cem garrafas do Alcatenei 1998 para a festa de final de ano da empresa. E na mesma semana um funcionário rouco das Vinhas São Marcos do Joá ligaria para oferecer a safra ao proprietário do bar, que compraria, felizasso, litros e litros de suco de uva aguado, porém de boa coloração. Ou talvez aparecesse na praça central uma grande e barulhenta manifestação pela libertação de Gustava, a maior sensação do axé-metal, que teria sido presa por comportamento inadequado em público. Era até capaz do chefe de polícia entrar em desespero por não fazer ideia de onde estava a dita cuja, porque na Cadeia Municipal não tinha diabo de Gustava nenhuma. Mas eis que na Festa dos Balões, de forma espetacular e sem o prévio conhecimento dos organizadores, a estrela subiria aos palcos, para delírio da multidão e de toda a imprensa. Se fosse ano de eleição é possível que Gustava conseguisse o recorde de vereadora mais votada da região. E provavelmente “A Centena” seguiria então para a próxima cidade.

Raízes

Faz aí um pedido. Não é possível que as cercas de fazenda, o mirante, os minerais, os corações humanos interligados em música pela força enigmática do mínimo denominador comum que é a sobrevivência da Vida como Instituição não sejam capazes de resolver qualquer coisa que seja – qualquer – nessa bendita Terra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Às Sete

Fui buscá-la em casa. Parei meu carro de barulhos simpáticos e amparado pela lua cheia. Tinha pensado um monte antes de levar um buquê – resolvi em vez disso dar um colar. Não sei como, ela gostou pra caramba, e me tascou um beijo meio apressado. Melhor assim, a noite começa quando a gente está perfumado de esperança. Quis tirar uma foto antes de seguir para a festa, então segurei sua cintura e entreguei a camera ao porteiro. A fotografia esperada não existe, o cara acabou apertando o zoom sem querer, e tudo o que saiu enquadrado foi o meu sorriso com o canto da boca. Os porteiros são os melhores fotógrafos.

Sequência

O dia vai correndo o seu caminho normal, chato, comum. Passa um mendigo, uma velhinha sorri sozinha no banco do ônibus. Você se perde na sua própria cidade. Uns quarenta e oito pássaros levantam voo com um barulho de freada, uma coisa banal como o doce de laranja da vizinha esfriando na janela da cozinha. A placa de Pare quebrou. Ninguém se importa, os carros param assim mesmo. Os turistas fotografam, riem e eles mesmos não se levam a sério – o contrário seria ridículo. “Licença”, alguém pede, é bem um insulto desmedido. As pedras sem forma são chutadas para longe, um lata cai do terceiro andar (a tinta verde escorre pela calçada). O coelho tenta entender o sentido da vida de dentro da sua gaiola na loja de animaizinhos, mas está tudo ok porque há movimento e as coisas têm um mecanismo. Você repara, são já seis horas da tarde, todos se dão por vencidos, acionam o automático. No meio disso tudo, tem um mísero instante (recorrente) que pode ser quase ignorado e tantas vezes o é, só que desta vez você prestou atenção. É a sensação de descobrir alguma coisa. Descobrir o quê? Não dá pra saber, é rápido demais. O jeito é esperar a próxima vez.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Long Play

Corríamos todos juntos em cima do grande LP veloz, éramos quarenta, cada um com a sua história particular metade sóbria metade luminosa, procurávamos apenas um ponto de descanso (mas só quando chegasse a hora). A agulha riscante não ameaçava ninguém, era só questão de desviar no momento oportuno. Sei que os speakers davam sentido à corrida, porque não saíamos do lugar, e o ritmo suficientemente cativante alimentava nossa identidade de tijolos fortes prontos para qualquer vento. E em algumas pequenas canções eu pensava inclusive que não precisava de mais nada além daquele exercício contínuo. A perfeição dos sulcos trabalhados de forma enigmática por alguma indústria impessoal tinha um quê de grandiosidade inédita, todo mundo percebia isso na época. Um disco opaco genial no espaço autoflutuante das diferentes proporções do entendimento humano de si mesmo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Horta

Na manhã seguinte eu acordei sem saber direito onde estava, mas fui lembrado pelos raios de sol que entravam em diagonal pela janela. Saí por ali mesmo, porque fazia um calor de verão absurdo e confortante, enrolado no lençol branco. Uns porcos, e talvez umas galinhas também, todos me deram bom dia e não estavam de brincadeira. A grama pode ser bem macia às vezes, e mesmo as pedrinhas que se fazem sentir embaixo da sola ainda não acordada dos seus pés têm o poder de te mostrar o gosto da vida quando você deixa. Além de um varal com umas poucas roupas penduradas, a promessa de uma horta com alfaces suculentos e prontos era tudo o que se via nesses primeiros segundos de caminhada. Fui contornando a casa, que afinal tinha a sua estrutura reforçada com grandes vigas de madeira que eu não tinha reparado antes, sempre andando por uma calçadinha simpática – o habitat das formigas caseiras do planeta Terra. A porta da frente estava aberta, e a cerca também. É bem a hora em que se percebe, mas sem indignação, a tirania sacana dos relógios e a eventual diferença de segundos e minutos para frente ou para trás que não significa absolutamente nada quando se adentra no reino das possibilidades do presente ou da onipresente sensação de um dia de cada vez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pepitas

Não era a primeira vez que seguia a pé no acostamento, só que ali eu estava sem um mísero certavo, sem mochila e com a camisa rasgada. Não havia muito o que fazer a respeito. Cortinas de ar quente abriam e fechavam à minha volta, enquanto Mercedes voavam em dimensões sobressalentes e quase extraterrestres e um pássaro assistia a tudo sem piscar. Eu não queria pedia carona porque não estava com a menor vontade de falar com ninguém, mas a verdade é que não fazia nenhuma questão de chegar a algum lugar tão cedo. Porém quis o destino e a natureza labiríntica das coisas que eu encontrasse um ponto de ônibus interestadual, com uma bela cadeira de plástico laranja brilhante e vazia. Encostei ali um instante e só depois percebi a presença de um camarada de boné que fumava um cigarro e levava o próximo preso na parte de cima da orelha. Era questão de tempo para ele puxar assunto, me perguntou sobre o resultado do jogo. “3 a 1”, inventei, e ele pareceu satisfeito, riu um pouco e disse que já esperava. Logo me vi conversando com entusiasmo sobre um jogo que não fazia ideia do que era, e até nos desentendemos um pouco, porque afinal o Dante era mesmo uma lesma e o técnico Almeidinha não tinha culhões para fazer valer sua opinião. Nos despedimos e ele pegou o expresso para São Vicente junto com todos os outros. Catei umas pedrinhas por ali pensando que se vivesse no século XVII elas podiam muito bem ser pepitas de ouro.

Dois meses

Morar em uma carroça velha não é para qualquer um. Daí eu disse isso, e ela respondeu com um movimento lento de cabeça. Eu tinha trazido uma dúzia de ovos para o jantar e a lua estava precisa na metade, uma noite comum na estrada, clara e azul. Ouvi um uivo nas montanhas e coloquei a cabeça para fora para tentar ver alguma coisa, mas as árvores retorcidas apenas balançaram um pouco com a brisa independente. Duas horas depois resolvi catar umas frutas, achei uns maracujás e um poço, e voltei com o cantil cheio. Ela olhou com um certo desdém, mudando as estações do rádio sem prestar atenção. Lavei os pés e deitei na parte de cima, onde na semana anterior eu tinha amarrado um colchão de borracha, e bebi minha água ao ar livre. Tinha uma nuvem só, que fez todo o percurso desde o longínquo até o ponto em cima de mim, depois voltou, em seguida foi para a esquerda e sumiu nas montanhas. Aí reapareceu depois de um tempo quando eu já tinha esquecido dela, um pouco maior, parecia. Foi dividida em duas por alguma força supernatural e cada metade foi para um horizonte, deixando tudo completamente à mercê do brilho polido do satélite. Ela estava cozinhando alguma coisa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Sesta

E então eu saí do restaurante depois de uma bisteca gigante e e me apoiei no carro meio distraído, mas na verdade eu estava pensando no futuro e como eu faria para atravessar o Deserto do Caos Tedioso e chegar até uma espécie de paraíso, onde a minha próxima parada devia estar esperando com um sabor incrivelmente doce e um perfume só oferecido aos que passam por experiências sem precedentes nem planejamentos ostensivos. Mal reparei quando a garçonete assoviou, porque ela precisou gritar “Ei!” em seguida. Ela correu até onde eu estava e passou seu telefone numa espécie de papel de garotas e disse que tinha recusado antes porque o irmão dela, que também trabalhava ali, tinha dado uma baita duma surra no último camarada que ousara tentar alguma gracinha, mas que ela tinha gostado da minha história sobre a ponte que nunca foi construída. Era um número de celular e tinha o prefixo de Marloque São João, a cidade pela qual eu tinha acabado de passar na 112, cheia de chaminés e pássaros sem personalidade em revoada. Ela esperou que eu guardasse o papel no bolso para voltar para dentro, não sem antes me mandar um sorriso tão tranquilo quanto roceiro, e eu sorri de volta, porque a vida funciona assim. Era meio-dia e eu deitei no banco de trás do carro.