terça-feira, 12 de outubro de 2010

CAPS LOCK

Não tive tempo de parar, nem de perguntar, só vi e fui entrando. Arbustos amarelos com folhas grandes demais pro padrão de qualquer planeta da minha imaginação (e dos videogames) seguiam paralelos, em contraste com o céu azulzão. Esquerda ou direita? Olhei pra trás antes, mas esqueci se tinha me virado mesmo ou não, então virei de novo. Direita ou esquerda? Esquerda. Daí umas Carmens Mirandas bloquearam minha passagem, mas eu distraí cada uma delas com uma corneta atômica. O chão era feito de palha, por isso não queimava meu pé na quentura do verão. E aí finalmente vi um orelhão em formato de nariz, e na narina desocupada (na outra tinha um médico) liguei para o primeiro número que me veio à cabeça. Jaime, o Triste, atendeu. Ele me contou algo sobre estar preso num labirinto estranho pra caramba, com plantas amarelas e mulheres com frutas na cabeça. Falei que era melhor que ele procurasse um médico, e transferi a ligação pro ramal ao lado.

domingo, 3 de outubro de 2010

100

Não é confortável a sensação de acordar no meio da noite e descobrir que os pássaros já estão cantando, e ainda pior, sem saber quem se é. Eu quase podia entender para onde os pássaros estavam indo – de cá pra lá, isso era certo – mas isso poderia ser o eco, e então, bem ao contrário. Tinham me contado sobre a Era da Brisa, o que ela traria, seus principais motivos. O que esqueceram de falar foi que muito daquilo constituía uma mentira completa (o fim do medo!); Jungle Boats seguiu adiante, mas ainda estava muito longe, muito longe mesmo.

sábado, 2 de outubro de 2010

O acerto de Einstein

No ônibus indo pro trabalho. Esse horário é bom porque tem sempre banco vago na janela, boa oportunidade de ouvir música com fones, sem ter nada que fazer além de olhar o mundo em movimento, um olhar de criança recém-nascida (mesmo que dure por intervalos pouco sustentáveis). Meu ônibus passa em frente a uma obra que não acaba nunca, e que talvez tenha começado junto com o próprio universo. Daí em outro dia, naquele mesmo lugar do trajeto, eu reparo que tem mais uma constante na cena, na calçada que beira o muro pela metade. Um homem com chapéu de palha está parado por ali, oscilando pra frente e pra trás, como uma cadeira de balanço em formato de gente. Antes de registrar qualquer tipo de pensamento a respeito, já é outro dia, o ônibus passa de novo. Da janela procuro e acho o homem-oscilatório, sem qualquer objetivo, nas mesmas coordenadas geográficas, no mesmo ponto do Google Earth. Peso na perna da frente, peso na perna de trás. Ninguém quer ver o cara, só desviar dele - isso todo mundo quer. Mais um dia. Lá está ele. Louco, com seu espaço de loucura confinado entre os passantes? Mendigo, defendendo um território pendular com incrível microssucesso? Mais dias úteis, o homem de chapéu de palha simplesmente não vai. Ele parece querer ir, sim, definitivamente (mas não consegue). O que ele faz na hora de dormir, e como se alimenta? Os operários constroem algo lá trás, só que depois surgem uns engravatados e implodem tudo de novo. Encontro sempre o homem de chapéu de palha em paralelo ao meu ônibus (ele agora é tão familiar a mim quanto o descascado na parede do escritório). Sua falta de sentido parece tão certa... Só que hoje uma passeata política atrasa o trânsito uns vinte minutos, e no local da obra, lá está o homem de chapéu de palha, alguns metros à frente de onde supostamente deveria estar. Oscilação? Passos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Garotas que dançam descalças

Não sou saudosista não – se saudosista significa velho -, mas naqueles tempos uma festa era um capítulo de uma longa história, e daquela vez o prefácio se desenrolou na casa da Didi. A Didi era gostosa pacas. O Pedro já estava de olho nela, não era pro meu bico, mas que ela era gostosa, isso era – dançarina de dança do ventre, saca? Já falei que ela era gostosa? Pois então. Mas sem desgaste, a que era pro meu bico era uma prima da Didi: Luna.
- O Pedro me disse que você é baiana, é verdade?
- Ué, a nossa família toda é da Baaahiia, a Didi também é, mas ela veio aqui pro Rio há mó téempão e já péerdeu o sotaque.
A Luna não tinha péerdiido.
- Tu gosta de lá? – e olhou mais diretamente pra mim.
- Nunca fui.
Ela deu um sorrisinho.
- Que foi? – perguntei, meio fisgado.
- Nada. Vamos dançar?
Bem nessa hora começou a tocar uma espécie de balada apimentada, e ela tinha o cabelo curto e uma pinta no canto da boca, e usava saia. E deu de novo o sorrisinho muitas vezes ainda aquela noite. Sórrisínho de lua, o reflexo.