quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Objetivo

Apenas segui automático o velho Londo até o bairro indígena, onde botecos com mulheres espantosas e mágicas e garrafas esverdeadas contendo um milhão de coisas diferentes brilhavam como filtros de bondosas câmeras super-8.

- Uma copo d'água com meio limão espremido. - pedi ao primeiro hai escuedra que vi passar. Ele não respondeu, acho que não trabalhava ali.

- Diga homem, você realmente acha que chegaremos a algum lugar vagando por aí como um bando de ursos desdentados, reunidos por nada além de covardia e o acostamento dessa estrada besta? - e virou seu rosto imutável, Londo, o profeta do próprio passado, cheio de mágoas que só faziam sentido porque estavam sendo metodicamente amontoadas. Debruçados sobre o balcão, ouvimos um piano sendo afinado na loja em frente.

- Sei para onde vou, mas não aonde vou chegar.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A sutil diferença entre as telas e as janelas

Sei que no começo ela passava de bike, e usava jeans e o casaco de moletom com um capuz guardando os cachos negros. Não sabia a cor dos olhos. Da minha janela no sobrado, eu acordava com ela, e sua volta coincidia com o fim do meu expediente. E setembro é o fim do inverno, foi quando a notei pela primeira vez. Fazia arquitetura, soube quando um dia passou a vir com um esquadro gigante de madeira amarrado no quadro da bicicleta, olhos seguros em aproveitar o passeio, que não era passeio, era só um caminho, mas por que não? Construindo suas geometrias onde quer que fosse. Todos os dias, eu acordava, fazia meu trabalho doído e crânio-muscular sozinho no quarto, naquela vida que eu mesmo tinha escolhido – e que era boa, mas cansativa (como qualquer outra, nem mais, nem menos) -, criava universos paralelos e conhecia a humanidade através do método ingênuo da análise combinatória de sensações, que era o único à mão. Mas ela também sabia bem o que querer da vida. Era firme nas pedaladas. Só que tinha medo de cachorros, e desviava exagerada quando um boxer se aproximava na rua. Seu nome era Érica, no conto da fazenda; Teresa, na poesia sobre o bar da juventude. Letícia, no recém-iniciado e já-encalhado romance de Angra dos Reis. Um dia achei que precisava de um método diferente, porque os nomes já se repetiam sutilmente - não só os dela, mas os meus também. Tomei coragem.
- Precisa de ajuda?
- Meu pneu.
- Guentaí, tenho um estepe, acho.
Fui lá dentro e voltei.
- Obrigada...
- ...Regente. – completei, enquanto segurava a bike com uma mão só.
- Prazer. Teresa.
Do bar da juventude.
- Já tinha te visto debruçado na sua janela, sabia?
- É? - Gostei disso.
- Aham. Sempre com esse olhar perdido, como agora.
- Só se acha quem se perde. Pronto.
- Você não faz nada o dia inteiro?
- No dias bons, escalo montanhas e fecho acordos de paz. Mas hoje, até agora, nadica de nada.
Ela riu, sem entender.
- Eu escrevo. A janela ali é da minha oficina.
- E escreve sobre o quê?
- Coisas.
Mas ela já subia na bike e arrumava seu esquadro gigante, e impulsionava o pedal com o pé esquerdo.
- Obrigada, escritor. Passo aqui na volta.
- Um café mais tarde? – lancei, com um sorriso esperto.
- Aham. Preto.
Da cor dos cachos. E dos olhos também, agora eu sabia. Subi e retomei feliz o romance de Angra dos Reis.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tem sempre um mais insignificante

Não sei precisar bem o momento em que estacionei o fusca no canto da praça e gritei um grito que veio da canela, como aqueles porrões que você dá na quina de uma mesa sacana. Não era um grito de dor, mas de vazio, de saco cheio da mesmice, do saco cheio de vazio. Alguém me ouviu, um Lomax-antje, aquelas critaturas meio cotonete meio humanas. Veio em minha direção na esperança de que eu pudesse tê-lo visto. Mas não o vi. Em vez disso segui meu caminho, após me recobrar daquele momento de desabafo puramente matemático. Foi a vez do Lomax-antje de gritar, mas eu não ouvi bulhufas. Quem ouviu foi Maer Kinócio Blu, o tio do Homem-Biscoito-Bono. Não sei o que ele fez a respeito.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Árvore da Vida

Quando cheguei, a maior parte do pessoal dormia de novo. Um ou outro podia estar apenas de olhos fechados, não sei, abraçado a uma garota cheia de sorrisos satisfeitos. Vi a fogueira no fim, que faiscava um pouco, aquele ritmo de quem degusta uma sabedoria pacífica – o cheiro me lembrou demais umas felicidades minhas aí. “Será que é esse o paraíso?” Porque me senti tão bem que todos os nervos pareciam penteados, cada fio de cabelo acariciou a brisa quase em câmera lenta, talvez ainda mais natural que isso. É como eu sempre digo, não existe nada separado, porque logo em seguida a garota ao meu lado se espreguiçou e prestou atenção nas mesmas coisas que eu, tentando se acostumar com sua paz de espírito (algo tão raro como trinta sorvetes de melancia em cima da mesa da cozinha, ela me disse, sem uma palavra sequer). Sorri, porque naquele momento estávamos diante da própria Árvore da Vida. E a noite não caía, quando na realidade se equilibrava majestosamente sobre um par de cores dissonantes e cheias de personalidade, mas ao mesmo tempo singelas pra caramba. Fiquei imaginando que momentos como esse servem pra lembrar a gente que tudo isso existe por um motivo apenas, e é apenas porque soa bem pacas ao longo da teoria das supercordas que formam o universo e tudo mais.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Espelho

No quilômetro 27 me surpreendi com uma imagem de mim mesmo cobrando pedágio no posto de autorização. A irritação foi grande, principalmente com o preço – não lembro exatamente quanto, mas com toda certeza um trocado quebrado e imobilizante. O que veio foi meu grito no megafone: “Ei, não posso passar hoje. Estamos fechados.”

- Como assim? – tentei, desesperado.
- Quer que eu repita?
- Mas eu tenho hora marcada...
- Não posso fazer nada.

Eu sabia que não ia aceitar aquela situação assim, na bobeira. Desci do posto e fui conversar comigo. De qualquer forma, pelo menos sabia o que fazer, mesmo que isso significasse não fazer nada. Meu chefe tinha se mandado há duas horas. Ele mesmo não conseguira impedir a si mesmo quando necessário, e por isso eu o respeitava imensamente. “Regente,”, ele dizia, da sua mesa, sério à beça, compenetrado, “um dia vai chegar a sua vez e você vai ver do que estou falando”. Não imaginava que seria assim, contudo. Eu estava cada vez mais impaciente no meio da estrada, com uma mochila de 75 litros pesando baldes e pronta para desabar no asfalto, um calor de assar as meias, se eu as usasse. O sol se punha, a fome batia.

- Posso usar a força se precisar.
- Vou ter que passar por cima de mim. – Concluí.