terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cadarço

Só consegui olhar o jornal à noite, quando ele quase já não fazia mais sentido: a manchete dizia que a linha do horizonte era, agora, de repente e sem retorno, um polígono azul de infinitos lados. Decidi caminhar em vez de dormir; encontrei um bando de jovens pescadores prontos para o que parecia ser uma espécie de luau na Praia de Dodii e me juntei a eles, gritando urras de esperança incosequente. Conheci vários embaixadores dos mundos simples e inofensivos, cada um com pelo menos trezentas condecorações em forma de calos que contavam a história da existência humana. Naquela madrugada achei também uma garota que me avisou sobre meus cadarços – e, para resumir, basta dizer que no fim acabei esquecendo de amarrá-los.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Amendoaux

Uma escuedra de vinte e poucos anos com sorriso de pérola logo apareceu e nos ofereceu um flyer trabalhoso de ler, "para a Rave das Quinhentas Vidas, meninos". Ela ficou mais um pouco ali com o ombro encostado ao meu - só para associar seu cheiro jovem à imagem daquela festa na qual eu depositava um interesse do tamanho da paixão da Rainha Continental de Beiu pelo relojoeiro da Rua Cometa. De qualquer forma, perguntei-lhe sobre seus sonhos e ela escreveu o telefone no verso do papel. Londo já tinha escorregado para um dos quartos do estabelecimento informal do andar superior, então conversei mais um pouco sobre horizontes e sopas de arroz e despedi-me da linda Ágata, era o nome dela, e voltei para o topo da colina onde os outros caras haviam decidido trocar qualquer novidade pelo cochilo na grama alta. Foi de lá que vi toda a cidade, uma vila com formato de um amendoaux, e sonhei com becos sem saída.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009