terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pássaros

Eu assisti a tudo com uma concentração estranha, porque pela primeira vez um ser que nunca antes tinha sido convidado para a festa se fez em cima da árvore para dar um bom dia aos pássaros. Os pássaros sorriram e responderam que as tentativas são poucas, se é que são apenas tentativas mesmo: "Todas têm um fim, e todas têm um começo. O que vale a pena, o que respira, o que não corre nem pula, tudo serve a um propósito, apenas limitado pelo seu reverso espontâneo."

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Rampa Extenuante

A Rampa Extenuante era um lugar diferente de qualquer outro, principalmente porque durante muito tempo só existiu na cabeça de uma formiga louca. Mas não era só isso. Séculos depois do último descendente da formiga ter sido pisado pelos últimos soldados romanos, o Jovem IV achou por acaso aquilo que parecia ser um quadro em 3D de uma paisagem sem moldura, em tamanho real, com cheiro selvagem e clima impressionante. Não havia jeito do Jovem IV ter chegado ali a não ser sonhando – e foi provavelmente o que aconteceu, apesar de lembrar-se de algo a respeito de um labirinto dentro da faculdade de História. A coisa toda era o seguinte: um pequeno lago salgado azul-caribe (com ondas em redemoinho) que preenchia o topo da colina em formato de vulcão. As ondas quebravam na beira do precipício, mas sempre fazendo curva de modo a desperdiçar o mínimo de água. O sol se punha entre nuvens cinzentas em uma velocidade quase nula (para os padrões de uma formiga – mas não havia nenhuma formiga por perto, então...) e uma prancha de surfe bastante bonita estava à sua disposição. O Jovem IV percebeu que aquela era a Rampa Extenuante de que ninguém nunca havia falado, e como estava sozinho, não aguentou ficar muito tempo por ali.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Estilo

- Que tal uma cabana no meio do mato?
- Sério? Isso não faz muito o seu estilo.
- Mas faz um pouco o seu.
- Acho que você não aguentaria uma semana, não sem o seu pijaminha de pinguim.
- Cala a boca.

sábado, 19 de setembro de 2009

Terça-feira, 22 de julho de 2003

Ligava no pequeno amplificador e ouvia suas cordas acordarem. Na maior parte das vezes deslizava o dedo aleatoriamente pelo braço do contrabaixo, música sem esforço que não saía. Só que de vez em quando, muito de vez em quando, mas muito de vez em quando mesmo, ou às vezes com bastante frequência, duas ou três notas pareciam se encaixar, e traduziam um sentimento para si, sem que precisasse escrever nem falar sozinho. Viajava por minutos a fio, buscando a sintonia do caminho divertido. Quando estava triste, apenas ia esvaziando a mente, com dedilhadas suaves e sem pretensão. Quando queria ter uma ideia, andava casas em sequência para puxar alguma coisa nova daquilo que já era conhecido - do caos da ordem uma pontinha de ordem no caos. O significado das quatro cordas era assim uma tomada de posição substituta.
Às 11:11

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Lavanderia

Ainda chega o dia em que não vou precisar mais ficar assistindo à chuva, porque serei eu mesmo capaz de lavar meu espírito com um belo balde verde e música de compasso lento. Uma tarde inteira de enxágue, mais uma noite em banho-maria, de manhã eu penduro no varal. Daí a previsão do tempo diz que de tarde não vai chover e eu consigo secar tudinho.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Apaixonado

Sabe, para além de cavalos-marinhos gigantes, ou de vacas amarelas, ou das ripas de madeira com bolhas de açúcar, ou até das dezenas de telhas de porcelana uzbeque empilhadas no canto da sala de treinos. Tudo isso significa o que você quiser, basta um pouco de música.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pra onde?

- Tina.
- O quê?
- E se a gente fosse embora?
- Como assim? Fugir?
- Fugir não. A gente avisa o pessoal, mas sem espaço pra argumentação, tipo decisão já tomada.
- É, não sei. Pra onde?

sábado, 12 de setembro de 2009

Polaris

Jogo dos sete erros

Alfa de Centauro é lar dos grandes toucinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira, perto da formosa seção de achados e perdidos.

Alfa Centauro é o lar dos grandes toicinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira perto da famosa seção de achados ou perdidos.

1) Alfa de Centauro / Alfa Centauro
2) lar / o lar
3) toucinhos / toicinhos
4) prateleira, / prateleira
5) formosa / famosa
6) achados e perdidos / achados ou perdidos
7) Não são sete erros como diz o título, e sim seis: esse é o sétimo erro. Mas se esse é o sétimo erro, então são mesmo sete erros. E se são sete erros mesmo, então o título está certo e isso não é erro coisa nenhuma, oras. Então são apenas seis erros e o título está mesmo errado, o que nos deixa com um total de sete erros, só que etc e tal...

Existe, claro, a hipótese de o lar dos toucinhos eternos ser Polaris, e não Alfa de Centauro.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ache os erros e ganhe uma poesia

Jogo dos sete erros

Alfa de Centauro é lar dos grandes toucinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira, perto da formosa seção de achados e perdidos.

Alfa Centauro é o lar dos grandes toicinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira perto da famosa seção de achados ou perdidos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Restart no more

Resetar é uma coisa instintiva, mas perdem-se todas as referências: são sempre as mesmas vitórias e derrotas confortáveis, no cárcere da infinita primeira fase de RollerCoaster Tycoon. Quanto às migalhas de pão, essas são boas companhias para o início da manhã, e sempre haverá o que fazer enquanto existirem migalhas de pão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Leilão

Procurando o vendedor com um aceno; ele me viu e me gritou um cumprimento tão alto que quase achei que não era comigo, ou que estivesse de brincadeira. Seus olhos esbugalhados mais pareciam um planeta e seu satélite na Galáxia de Tumbexalina, fixos em uma necessidade quase essencial de ganhar papel.