terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cadarço

Só consegui olhar o jornal à noite, quando ele quase já não fazia mais sentido: a manchete dizia que a linha do horizonte era, agora, de repente e sem retorno, um polígono azul de infinitos lados. Decidi caminhar em vez de dormir; encontrei um bando de jovens pescadores prontos para o que parecia ser uma espécie de luau na Praia de Dodii e me juntei a eles, gritando urras de esperança incosequente. Conheci vários embaixadores dos mundos simples e inofensivos, cada um com pelo menos trezentas condecorações em forma de calos que contavam a história da existência humana. Naquela madrugada achei também uma garota que me avisou sobre meus cadarços – e, para resumir, basta dizer que no fim acabei esquecendo de amarrá-los.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Amendoaux

Uma escuedra de vinte e poucos anos com sorriso de pérola logo apareceu e nos ofereceu um flyer trabalhoso de ler, "para a Rave das Quinhentas Vidas, meninos". Ela ficou mais um pouco ali com o ombro encostado ao meu - só para associar seu cheiro jovem à imagem daquela festa na qual eu depositava um interesse do tamanho da paixão da Rainha Continental de Beiu pelo relojoeiro da Rua Cometa. De qualquer forma, perguntei-lhe sobre seus sonhos e ela escreveu o telefone no verso do papel. Londo já tinha escorregado para um dos quartos do estabelecimento informal do andar superior, então conversei mais um pouco sobre horizontes e sopas de arroz e despedi-me da linda Ágata, era o nome dela, e voltei para o topo da colina onde os outros caras haviam decidido trocar qualquer novidade pelo cochilo na grama alta. Foi de lá que vi toda a cidade, uma vila com formato de um amendoaux, e sonhei com becos sem saída.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

120Km/h

Fiz ligação direta e parti, com o carro sem capota mesmo - e apesar de no início não levar muita fé na história toda, resolvi confiar no motorista e não me arrependi.

domingo, 15 de novembro de 2009

Multiverso

E aí, os pensamentos, tantas nuvens e tantos ares, tantos rios e tantos mares, todos se dispuseram em quebra-cabeças longilíneos e cheios de armadilhas. Nada parecia certo, se visto de perto. Como as ilhas de segredos recém-descobertos, paradas obrigatórias para barcos perdidos de propósito. Os náufragos, estes se escondiam em suas palmeiras, prontos para sumirem de vez. As ondas iam, vinham, voltavam e só.

sábado, 14 de novembro de 2009

1

- Pode me dizer o que está acontecendo, Dois?
- Do que você está falando?

Um
estava longe de saber ao certo. Afinal, nunca percebera nada realmente estranho em toda sua vida, e portanto não esperava definir o sentimento assim, sem mais nem menos. Observou os outros e constatou que ninguém compartilhava de sua angústia, apesar de Dois ter se tornado levemente preocupado depois do súbito questionamento. Três e Quatro permaneciam em posição padrão, aqueles burocratas com experiência e equilíbrio suficientes para aguentar o peso de muitos 'Por quês' e incontáveis 'Mas es'. Não se deu ao trabalho. Olhou para Seis, o velho fanfarrão pretenso dono da verdade, que às vezes o era de fato.

- ?
- Somos todos o mesmo. – respondeu o ancião.
- O que isso quer dizer?
- Nada.
- Nada? – insistiu Um.
- Nada, e mesmo que você ache que você pode fazer alguma diferença, isso não faz a menor diferença, não mesmo.

Dois
foi ficando inquieto ao lado de Um; este percebeu e decidiu aproveitar a oportunidade para puxar assunto.

- Você é feliz?
- Às vezes. Como assim? Você deveria saber essa. – finalizou Dois, sem convicção.

Todos permaneceram em silêncio por alguns minutos. Mas Um não estava com a menor paciência para o vazio. Olhou novamente para Dois, e entendeu que o colega dormia tranquilamente, e sonhava. Quatro acabou seu expediente ininteligível e pegou no sono. Por consequência, Seis não teve alternativa a não ser descansar também.

- Ei, garoto! - Três, por sua vez, mais bravo do que nunca, berrou na direção de Um. - Volte enquanto pode! As coisas não são como você está imaginando!

Um ficou confuso, mas não respondeu. Em vez disso, viu Cinco, o desconhecido até então mudo, que apenas sorriu.

E quando Três viu também o sorriso de Cinco, calou-se, e isso acordou Dois, que acordou Quatro, que acordou Seis. E todos assistiram à conversa, que foi algo parecido com isto:

- Eu sou você? – perguntou Um.
- Sim. – respondeu Cinco.
- Por quê?
- Porque tudo é eco.
- Inclusive isso?
- Inclusive isso. (?)
- Quem disse?
- Você.
- Eu posso mudar o mundo?
- Não, mas eu posso.
- E o que eu posso fazer então?
- Qualquer coisa, jovem. Qualquer coisa.

O dado girou, e girou, e girou.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Albatroz

Do resultado se deduz que albatrozes de verdade dependem menos do ar do que de uns dos outros para voar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Batalha Grande

Enfim, os sete anciãos empunharam suas armas na torre de observação do palácio. Olhando do meu balão, percebi que definitivamente estavam em formação de emergência, os portões não aguentavam mais a pressão da horda de bárbaros. Mas não eram bárbaros comuns, e sim homens vestidos com ternos sujos e gravatas amassadas, alguns seguravam maletas de executivo de onde caíam papeis, e eram milhares.

Sobrevoei por trás para ter uma visão mais estratégica do cenário, mas o balão foi atingido em cheio por um tiro. Fui caindo, caindo, até que resolvi fazer um pouso forçado no monte de feno da fazenda dos arredores.

A vontade de saber sobre a batalha foi bem maior do que o impacto da queda, e quando me dei por conta, já estava guardando o balão na enorme cesta que constituía sua nave – ela tinha uma tampa, que fechei. Um homem com cara de raposa apareceu com uma sacola – não era o dono da fazenda, me assegurou – e me perguntou se eu tinha alguma mercadoria para vender: no início achei que era um ladrão, e, bem, talvez fosse mesmo.

- Tenho apenas este balão.
- Vejo apenas uma cesta.
- Mas tem um balão aqui dentro, pode conferir! - retruquei.
- Não! - gritou o homem. - Como vou saber que você não tem uma armadilha montada dentro?
- Ora, como assim?
- Vamos fazer o seguinte. Troco esta sacola pela sua cesta fechada.
- Mas o que tem aí?
- E você acha que vou dizer? Fechamos negócio ou não?

Eu queria mesmo era ir olhar a batalha de perto, e aquele cara de raposa estava começando a me perturbar.

- Está bem.

O homem pegou a cesta com facilidade e saiu correndo pela fazenda, mas não o vi abri-la, pelo menos até onde consegui enxergar. De dentro da sacola, tirei um belo terno, uma gravata e uma brilhante maleta de executivo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Cair e andar

O bebê na varanda da casa de barro andava, caía e depois levantava, e não tinha medo de cair de novo. Só que caía. E levantava. E não tinha medo de cair de novo. Mas caía. Depois levantava, e andava. E desequilibrava, e sorria. E caía. E não tinha medo de levantar de novo. E sempre sorria, mesmo quando caía, e sempre caía, mesmo quando andava, e por isso mesmo. Mas não apenas isso. Caía, e andava, e por isso seguia. E quando seguia, parava e sorria, mas só por um instante. Depois continuava e caía, mas levantava. E assim ele ia. Caía e andava. Andava e caía. E foi por isso que, a partir de um determinado dia, o bebê nunca mais caiu de novo.

sábado, 7 de novembro de 2009

Dois de ouros

- Você tá brilhando!
- Culpa sua. E minha também, claro.
- E quando foi isso?
- De manhã, quando a gente acordou.
- O sol?
- Acho que o sol aprendeu muito com a gente hoje.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Be-in

No drive-in o casal chegou e assistiu ao filme, que era nada menos do que um clássico. Capô aberto e calor da noite. Tem set mais propício?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chuva de verão

A rua parecia ter virado novamente do avesso - tenho absoluta certeza de que não pedia, mas as pessoas continuavam me jogando moedas de um centavo com sorrisos estampados em suas nucas. Larguei a carroça e fui correndo pela praça como um menino que quer cantar uma velha canção do Leonard Cohen e não tem quem ouça. Começou a chover muito, muito mesmo. Percebi um céu azul e brilhante, só que ninguém reparava no absurdo porque estavam cegos por seus guarda-chuvas. Aí fiquei feliz de repente e todos entenderam isso, e pararam de me jogar o que quer que fosse. A mulher tinha visto de relance o azul refletido nos meus olhos (a chuva também aumentou mais ainda etc). Cheguei em casa dois dias depois, exausto, e reguei uma planta, agradecido.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Escadas

Então eu aprendi que, por mais altos que sejam, todos os prédios têm escadas, mas poucos indivíduos as utilizam, a não ser aqueles que vão para o segundo ou terceiro andar, e ainda assim, chutando o ar e usando o combustível altamente poluente da impaciência aditivada, como que para punir os próprios elevadores e as pessoas que os esperam calmamente. Mesmo correndo o risco de encontrar os raivosos no início do edifício, e mesmo tendo que ir diariamente para o último andar, preferia os degraus. Depois de alguns lances, o caminho era tão barulhento quanto um lago congelado às cinco horas da manhã.

sábado, 31 de outubro de 2009

Capítulo XIX - Automobilismo

O tempo é um carro sem motorista em alta velocidade. Ou você pula dentro e assume o volante, ou ele te atropela na estrada.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Nuvens

Nuvens.

A areia nas costas começou a coçar. Levantei devagar, em velocidade constante. Liberdade? Se é que ela existe, existiu ali, naquele instante, em níveis sinceramente atordoantes. A mente vazia, o peito queimado de sol, os pés descalços. Não sabia nem o meu próprio nome. Não me lembrava nem do meu próprio rosto. Não...

Os músculos me doíam como se tivesse tomado uma surra. Mas não uma surra de alguém. Uma surra do mundo.

Já era depois do meio-dia. Pus-me de pé e olhei em volta. Algo como um deserto marrom se arrastava até o horizonte circular. Andei uns metros, sem sair do lugar, deixando a minha calça jeans cerca de cinco minutos mais velha. Ouvi um zunido que a princípio achei que estivesse vindo de dentro de mim. Mas vinha de lá adiante, o bicho grunhindo fumaça. Um imenso caminhão atravessou a precisa linha entre o esquerdo e o direito. Tinha uma estrada ali.

Corri tanto que me esqueci do que tinha que me lembrar. Só lembrei quando cheguei perto do asfalto. Lembrei que tinha que lembrar, mas tentei e não me lembrei de nada. O caminhão zunia além da vista. A pista, esta voltou ao seu silêncio natural, e eu, igual. O vento arrumou meu cabelo comprido para o sentido do caminhão zunido. Olhei pro lado oposto, em vão, pelo menos até então.

O vento, aliás, foi e voltou pelo deserto, tentando me mostrar alguma coisa invisível. Pelo menos foi a impressão que tive. "Não há declives, não há ação, nem medo, nem passado", pensei. "Só presente, por enquanto. E futuro, espero, no entanto."

Cansei de esperar e fui caminhando pelo acostamento, seguindo o espaço-tempo do caminhão, e deixei pegadas imperceptíveis na terra quente e bruta, quase propositalmente. De vez em quando olhava para trás, só pra não confirmar nada. Tanto chão e tanto céu, para esses dois eu não fazia a menor diferença. Para a estrada, talvez. Por isso continuei fiel a ela, em vez de ir na vertical ou ficar parado. Apesar de tudo, ou de nada, sentia-me bem. O silêncio só incomoda quando não é tão silêncio assim.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Jornada

O timing não podia ser mais perfeito: seis semanas de olhos vermelhos, três dedos de água gelada em um copo de latão, uma tempestade incrível, uma noite tranquila como poucas, uma parede de tijolos, um sol puro de alcançar o pulmão.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Zen

O essencial não é dizer o que quer, mas dizer o que vem.
Porque uma hora vem o que quer, e é o único jeito.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Déjà vu

O grande efeito não foi tampouco repentino. Primeiro apareceram os créditos e a música, depois veio o clímax, depois a crise, a bagunça, e em seguida o meio-de-campo, um ou outro impedido com razão. As coisas foram ficando tão simples que pareciam feitas de gelo. Os personagens não se conheciam de modo algum; os eventos eram óbvios, ingênuos e pertinentes demais. O primeiro ato teve gosto de purê de batata crua. O bandido sumiu como se nunca houvesse existido. O xerife e a princesa se beijaram ao entardecer e se desencontraram. Por fim, o xerife se viu sozinho. E foi aí que tudo começou.

sábado, 17 de outubro de 2009

Fio

Encontrei um camarada gente fina chamado Horácio, que depois de ouvir os cantos tristes das corujas acendeu uma fogueira e preparou seu jantar em uma panela de ferro, enquanto falou: “Tinha aquele fio de náilon que amarrava o parapeito de uma janela no décimo andar de um edifício de escritórios ao dedo polegar de um gárgula pequeno no topo do Museu. O fio não podia ser visto da rua, e ninguém se importava com ele, até porque era um fio inusitado e praticamente invisível mesmo, dezenas de graus abaixo dos cabos de energia elétrica na escala de utilidade geral. Mas teve um dia em que um piano voou de algum ponto e se agarrou no fio, e ficou parado como se fosse ali o seu lugar. Durante um bom tempo as pessoas pararam na rua e olharam para cima, e apontavam, e perguntavam, e imaginavam, e se interessavam: ‘Um piano flutuante!’ Aí o piano se esqueceu do fio e acreditou que realmente flutuava, se encheu tanto de orgulho que ficou pesado demais, se desquilibrou e pousou no asfalto, voltando a ser um piano como outro qualquer. Ninguém se decepcionou de verdade (com a exceção talvez do pequeno gárgula).” Acho que peguei no sono um pouco antes de ouvir o final.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Building Bridges

Muitos momentos são apenas momentos, mas alguns são estrofes, e outros refrões. Músicas tocam por toda parte, e é bem fácil não perceber que várias delas são na verdade apenas uma. Uma canção incrível o bastante para a gente reconhecer mesmo sem ter ouvido antes: um pastel de queijo, uma fotografia, um guarda-sol. O importante é aproveitar as coincidências, porque elas dificilmente acontecem por acaso.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pensamento

- Você está pensando em alguma coisa, não é?
- Sempre estamos pensando em alguma coisa.
- Digo, sobre alguma coisa que eu disse.
- Não.
- Acho que sei no que você está pensando.
- Não, não sabe.
- Então fala.
- Cortes de cabelo e TV a cabo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O papel dentro da garrafa verde nas ondas

“Eu não sei nada. Talvez eu saiba que as coisas flutuam, talvez eu saiba isso. Mas mesmo assim, de que me adianta? Se eu estou aqui quando você está ali, e depois o mundo gira, passa um dia, passa um ano, tudo volta a ser o que era - só que totalmente complicado -, e aí a gente se pergunta, sempre com cara de zebra correndo atrás das grades na velocidade da luz: ‘Ok, mas agora eu posso então?’ A resposta voa, sempre acima das nuvens, sempre planando e se entretendo com as próprias asas. Mas temos que continuar tentando, primeiro porque sim; e claro que também porque, no fim das contas, a conta fecha. Se eu imaginava que o futuro seria o passado que eu não vivi, agora percebo que é um presente que eu preciso viver, e é bom começar então.”

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Dois de Copas

- Quantos tempos existem aqui?
- Apenas dois.
- Por quê?
- Porque somos dois aqui.
- Hum. E se fôssemos mais que dois?
- Daí a coisa seria diferente.
- A coisa é diferente!
- Então fala a verdade.
- A verdade fala por si só.
- Ah, é? E o que ela diz?
- Não faço a menor idéia. O que você acha?
- Sei lá. A verdade é relativa.
- Verdade.
- É.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pássaros

Eu assisti a tudo com uma concentração estranha, porque pela primeira vez um ser que nunca antes tinha sido convidado para a festa se fez em cima da árvore para dar um bom dia aos pássaros. Os pássaros sorriram e responderam que as tentativas são poucas, se é que são apenas tentativas mesmo: "Todas têm um fim, e todas têm um começo. O que vale a pena, o que respira, o que não corre nem pula, tudo serve a um propósito, apenas limitado pelo seu reverso espontâneo."

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Rampa Extenuante

A Rampa Extenuante era um lugar diferente de qualquer outro, principalmente porque durante muito tempo só existiu na cabeça de uma formiga louca. Mas não era só isso. Séculos depois do último descendente da formiga ter sido pisado pelos últimos soldados romanos, o Jovem IV achou por acaso aquilo que parecia ser um quadro em 3D de uma paisagem sem moldura, em tamanho real, com cheiro selvagem e clima impressionante. Não havia jeito do Jovem IV ter chegado ali a não ser sonhando – e foi provavelmente o que aconteceu, apesar de lembrar-se de algo a respeito de um labirinto dentro da faculdade de História. A coisa toda era o seguinte: um pequeno lago salgado azul-caribe (com ondas em redemoinho) que preenchia o topo da colina em formato de vulcão. As ondas quebravam na beira do precipício, mas sempre fazendo curva de modo a desperdiçar o mínimo de água. O sol se punha entre nuvens cinzentas em uma velocidade quase nula (para os padrões de uma formiga – mas não havia nenhuma formiga por perto, então...) e uma prancha de surfe bastante bonita estava à sua disposição. O Jovem IV percebeu que aquela era a Rampa Extenuante de que ninguém nunca havia falado, e como estava sozinho, não aguentou ficar muito tempo por ali.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Estilo

- Que tal uma cabana no meio do mato?
- Sério? Isso não faz muito o seu estilo.
- Mas faz um pouco o seu.
- Acho que você não aguentaria uma semana, não sem o seu pijaminha de pinguim.
- Cala a boca.

sábado, 19 de setembro de 2009

Terça-feira, 22 de julho de 2003

Ligava no pequeno amplificador e ouvia suas cordas acordarem. Na maior parte das vezes deslizava o dedo aleatoriamente pelo braço do contrabaixo, música sem esforço que não saía. Só que de vez em quando, muito de vez em quando, mas muito de vez em quando mesmo, ou às vezes com bastante frequência, duas ou três notas pareciam se encaixar, e traduziam um sentimento para si, sem que precisasse escrever nem falar sozinho. Viajava por minutos a fio, buscando a sintonia do caminho divertido. Quando estava triste, apenas ia esvaziando a mente, com dedilhadas suaves e sem pretensão. Quando queria ter uma ideia, andava casas em sequência para puxar alguma coisa nova daquilo que já era conhecido - do caos da ordem uma pontinha de ordem no caos. O significado das quatro cordas era assim uma tomada de posição substituta.
Às 11:11

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Lavanderia

Ainda chega o dia em que não vou precisar mais ficar assistindo à chuva, porque serei eu mesmo capaz de lavar meu espírito com um belo balde verde e música de compasso lento. Uma tarde inteira de enxágue, mais uma noite em banho-maria, de manhã eu penduro no varal. Daí a previsão do tempo diz que de tarde não vai chover e eu consigo secar tudinho.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Apaixonado

Sabe, para além de cavalos-marinhos gigantes, ou de vacas amarelas, ou das ripas de madeira com bolhas de açúcar, ou até das dezenas de telhas de porcelana uzbeque empilhadas no canto da sala de treinos. Tudo isso significa o que você quiser, basta um pouco de música.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Pra onde?

- Tina.
- O quê?
- E se a gente fosse embora?
- Como assim? Fugir?
- Fugir não. A gente avisa o pessoal, mas sem espaço pra argumentação, tipo decisão já tomada.
- É, não sei. Pra onde?

sábado, 12 de setembro de 2009

Polaris

Jogo dos sete erros

Alfa de Centauro é lar dos grandes toucinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira, perto da formosa seção de achados e perdidos.

Alfa Centauro é o lar dos grandes toicinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira perto da famosa seção de achados ou perdidos.

1) Alfa de Centauro / Alfa Centauro
2) lar / o lar
3) toucinhos / toicinhos
4) prateleira, / prateleira
5) formosa / famosa
6) achados e perdidos / achados ou perdidos
7) Não são sete erros como diz o título, e sim seis: esse é o sétimo erro. Mas se esse é o sétimo erro, então são mesmo sete erros. E se são sete erros mesmo, então o título está certo e isso não é erro coisa nenhuma, oras. Então são apenas seis erros e o título está mesmo errado, o que nos deixa com um total de sete erros, só que etc e tal...

Existe, claro, a hipótese de o lar dos toucinhos eternos ser Polaris, e não Alfa de Centauro.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ache os erros e ganhe uma poesia

Jogo dos sete erros

Alfa de Centauro é lar dos grandes toucinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira, perto da formosa seção de achados e perdidos.

Alfa Centauro é o lar dos grandes toicinhos eternos. Atrás do pote, na última prateleira perto da famosa seção de achados ou perdidos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Restart no more

Resetar é uma coisa instintiva, mas perdem-se todas as referências: são sempre as mesmas vitórias e derrotas confortáveis, no cárcere da infinita primeira fase de RollerCoaster Tycoon. Quanto às migalhas de pão, essas são boas companhias para o início da manhã, e sempre haverá o que fazer enquanto existirem migalhas de pão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Leilão

Procurando o vendedor com um aceno; ele me viu e me gritou um cumprimento tão alto que quase achei que não era comigo, ou que estivesse de brincadeira. Seus olhos esbugalhados mais pareciam um planeta e seu satélite na Galáxia de Tumbexalina, fixos em uma necessidade quase essencial de ganhar papel.

domingo, 30 de agosto de 2009

Lápis

O poeta é complicado porque faz do complicado simples, mesmo sabendo que o simples é complicado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Textura

"Nunca desistir de nenhum intervalo de tempo, por menor que ele seja", pensou o jovem grão de areia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Totem

Existe um momento no dia em que nada parece fazer sentido. É logo depois do almoço, quando você está sentado no topo do moinho, com dez pedras preciosas em volta da cabeça, e, enquanto um pássaro voa dentro do seu dedão do pé, uma mulher cai de cima da fábrica de chinelos sobre você.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Koro

Pesquisando etnocentrismo na biblioteca descobri uma civilização ancestral cujos indivíduos valorizavam muito cada bocejo que davam, pois significava um forte sinal de abundância. Eles terminavam o gesto gritando a expressão de origem desconhecida “Koro” (pronuncia-se Kóro).

domingo, 23 de agosto de 2009

10, 9, 8...

Realmente a respiração é um movimento involuntário até certo ponto, e nada pega fogo se não houver um pouco de ar por perto. Você sabe muito bem que estou até agora esperando o incêndio, então não me decepcione, ok?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Rio de Setembro

Tirei toda a roupa e olhei para o rio, antes de ter certeza de que poderia atravessar sem problemas. Mas quando entrei naquela água tranquila e veloz, cheia de cristais incrivelmente invisíveis, achei que era hora de relaxar, porque a caminhada não passa de uma média aritmética e não seria esse o motivo de um atraso qualquer. Fiquei ali na pedra molhada fundamental onde todos os seres vivos ou brutos já tinham deitado de alguma forma e os sons em Dolby-surround orgânico cuidaram de me providenciar uma total satisfação. Entre os sapos, com sua sabedoria de matéria verde-escura, que vieram e me disseram que atravessar um rio de um lado a outro é um desafio legal, mas que eu considerasse a possibilidade de me deixar levar pela correnteza.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ir e vir

Cheguei na prefeitura por volta das sete e meia, mas não descalcei os sapatos como pedia o aviso. Entrei com toda a lama que trazia da rua, que afinal era a lama dos dignos e era limpa e feliz. A secretária disse que eu podia esperar até o Dia de São Nunca, mas disse isso de uma forma simpática e até dedicada, porque acreditava realmente que esse dia fosse chegar – na realidade acho que tinha a data marcada no calendário em cima de sua mesa lotada de porta-retratos e canetas de todas as cores, um monte de justificativas que ela tinha para sua existência quase duvidosa. Como havia outra alternativa (sempre há), resolvi sair, ir embora – e ao passar pela porta, deixei lá dentro os sapatos, que afinal estavam sujos de indiferença. Saí descalço pela rua, pulando de poça em poça. A ideia é voltar, mas não sei ainda quando.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O mar e os sinos

Eu mesmo me pego terminando um pensamento só para começar outro, em vez de deixar ele seguir seu próprio curso e desaguar no mar. Muitos têm medo do mar. O que se pode fazer neste caso é ouvir os sinos ao meio-dia e imaginar que cada badalada representa um desejo, mas que o conjunto sinfônico é um sonho importante, e aí o que tem o mar a ver com tudo isso? Tem a ver que se dermos importância exagerada aos sinos, não conseguimos ouvir o mar e esquecemos onde ele fica.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Padaria às 5

Dias de fermento e dias de forno. Ornamentos em pias molhadas, esperando o pão que há de vir. E se for assim, quase todos seremos postos em fila, moldando rostos sem expressão. Todos procuramos algo, ou então fugimos até o limite da aparência, para longe de casa. Marte é o nosso planeta.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Herói

É quando vem aquela sensação desagradável de que por falta de experiência de vida somos obrigados a deixar passar oportunidades, mas isso aí é história de quem olha para o passado e confunde oportunidade perdida com o que na realidade era em si a própria experiência de vida. Não tem problema, mesmo os heróis de cem olhos eram obrigados e fechar pelo menos dois para dormir.

domingo, 9 de agosto de 2009

Peso extra

Robustas montanhas do sul de TrenCoeur se alinharam para receber os viajantes que há cento e poucos dias não comiam uma refeição decente, pois tinham que se preocupar 24 horas com os germes de toda uma nação decomposta por anos de descaso. Os quatro andarilhos seguiam um atrás do outro e eram um velho e três jovens, todos com mochilas pequenas e grandes, varas de pescar e toucas de banho, sacos plásticos de toda espécie e coisas que ninguém em sã consciência planejaria levar para a estrada (não sem fazer cerimônia, seguida de aceitação geral, ou de uma maioria respeitável, em suas opiniões), e que agora estavam guardadas e bem guardadas, porque eram relíquias, ou talvez até tesouros se olhadas de perto: vasos de plantas ainda nascendo, sementes de girassol com cheiro de verão, tatuagens e receitas de feijão fradinho supertemperado, entre outros objetos que nenhum deles sequer cogitou devolver para a selva da falta de sentido, mesmo com todo o peso extra em suas costas.

sábado, 8 de agosto de 2009

Perguntas

E pronto, se me perguntassem o quanto eu ainda gostaria de saber o que se passa na cabeça das pessoas, eu diria que muito, mas nem tanto quanto antes. Porque agora a vontade que eu tenho é de interagir e não mais controlar por completo toda a sorte de equipamentos da natureza. Se me perguntassem o que eu vejo; eu diria que enxergo apenas até as minhas pálpebras desfocadas e isso me incomoda um pouco, o bastante para abrir os olhos e tentar imaginar o amarelo e o azul e tentar distingui-los de vez em quando. Se me perguntassem o que ouço – não sei bem o que diria, porque provavelmente ignoraria a pergunta até que me fosse perguntado de outra forma menos clara, ou talvez eu conseguisse responder escrevendo alguns dias depois. Pedreiras caem a todo instante e é isso que me interessa agora, principalmente pelo fato de não estar embaixo delas, mas às vezes estou e é uma baita de uma experiência! E mais: os crocodilos dos programas da Discovery estão totalmente fora de escala e ninguém percebe, a não ser o meu mecanismo de sonhos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Quatro rodas

Às vezes eu acho que pneus que descem a ladeira cantando alto perdem a chance de ficar calados. Ainda bem que não estou na banca do júri.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Criação

O segredo da criação consiste no seguinte aprendizado: errar é fazer par toda vez que o ímpar quer dançar.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Timing

O ônibus demorou quase uma hora, e nesse meio tempo, tive a impressão que queria conversar. Mas ela não disse uma palavra. Quando o veículo chegou, subi e me despedi. Só que era o ônibus dela. Subi no ônibus errado, e era o ônibus dela. Ela perdeu o ônibus!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Futuro

Sonhei ontem que guardiões cujas armaduras eram visivelmente feitas com penas de avestruz tentavam barrar a famosa corrida das emas de meio de verão. Não pareciam estar conseguindo, mas não assisti até o fim.

domingo, 19 de julho de 2009

Revezamento

Corrida de revezamento é difícil demais, mas acho que é a única que existe. E no final vale a pena.

Regras

O Sea of Clouds de repente se erguia em montanhas que duravam apenas dois segundos, mas que mesmo assim impressionavam os olhos, e então afundava em buracos infinitos, cuspindo flocos ingênuos de matéria flutuante. Ondas havaianas enchiam os buracos, pois tudo se mexia mais ou menos assim como umas festas simultâneas e integradas cujas regras eram por completo ignoradas pelos seres conscientes.

sábado, 4 de julho de 2009

Pódio

Terminando aqui, vou jantar numa boa.

Intenção

Foi um leve esbarrão no ombro, mas antes senti o perfume. E não era qualquer perfume, era abril explodindo o meu nariz. Quem foi mesmo que disse que tradicionalmente não são as mulheres que tomam a iniciativa?

Ilusões

Parte de acreditar consiste em saber que a ilusão é parte da verdade.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

10:34

A toalha de mesa não era trocada há dias, e bem se via pela diversidade espantosa de farelos coloridos. Sentei-me ainda com os olhos de sono, chamei a garçonete e pedi uma xícara com café pela metade. Não pensava em pagar, claro. Ok, provavelmente deixasse alguma coisa, talvez meu boné dessa vez.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Relógio de pulso

Um marcador com ponteiros pode até mostrar quando foi e quando será, mas nunca mostrará o que é quando o foi será.

O Paralelepípedo

Humanos podem até criar paralelepípedos. Isso é o que os humanos pensam. Os paralelepípedos, por suas próprias conclusões, acham que pode criar pontes. As pontes acreditam piamente que podem criar caminhos, e os caminhos insistem que criam horizontes. Os horizontes festejam o poder que acham que possuem: o de criar esperança. A esperança cria o cheio a partir do vazio. E o cheio cria o vazio. O vazio, por si só, não cria nada. Só mais vazio. Mas quando o vazio acumula além da conta, o excesso de vazio cria mais vazio, e o vazio fica cheio (de vazio). O cheio, mesmo que de vazio, cria esperança. A esperança passa a criar o horizonte, assim como o horizonte agora cria o caminho. O caminho então se vê no direito de criar uma ponte. E a ponte, para existir, cria paralelepípedos, que antes eram apenas pedras com seis lados. Eis então o grande milagre: o paralelepípedo cria o humano, à sua imagem e semelhança.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Rótulo

Raras vezes o pote teve tantos rótulos sobrepostos.

Origem

No terceiro quilômetro consegui finalmente ouvir o silêncio. De vez em quando passava um ônibus e eu acenava pras velhinhas, feliz de eu mesmo também estar em movimento. Olhei em frente. A linha do horizonte é sempre uma boa perspectiva quando se procura um caminho qualquer, especificamente qualquer um.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Calendário

Cada vez que eu me lembro de como pode ser bom, talvez melhore ainda mais. Você pode até não achar, mas a carta que eu li foi a mesma que eu escrevi. Só mudaram as letras, as palavras e os sentidos. Assisti ao filme, comi um sanduíche, joguei futebol. Dentro de poucos dias, o calor do sol virou um calendário com uma foto sua. Dali para a frente, mudava todo mês. Em dezembro, a foto era uma paisagem plana e divertida, com eco e sem fim.

Saco plástico

Semana passada eu conheci um daqueles sacos plásticos que circulam entre edifícios ou seguem caminhões, ou que, mais raramente, levam a um estalo na imaginação. Ele não respondeu nenhuma das vinte perguntas que eu fiz, simplesmente porque eu não perguntei direito. Segundo ele, claro. Corri na frente e ele sumiu.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Armazém

Um armazém vende latas vazias, fechadas, como se não fossem vazias. Mas o balconista não sabe. Um dia, o cliente exige que o balconista abra uma das latas, porque desconfia. O balconista se recusa e os dois começam a brigar. O cliente pega uma das latas e joga na cabeça do balconista, que começa a gritar. A lata se abre. Não há nada dentro. O balconista pede desculpas, apesar da dor de cabeça. O peso da lata é igual ao de todas as outras. O balconista pesou. “Todas estão vazias?”, pergunta o cliente. “Acho que sim”, responde o balconista. “Vou levar sete”, retrucou o cliente, com grande satisfação.

Manual de Instruções 2.0 (Capa)

A vida é uma só.

domingo, 28 de junho de 2009

Azul Marinho

Um rosto que mergulha em sereno triste, a nuvem azul marinho em sombra. A menina com os olhos brilhantes transcende o abraço subconsciente. O olhar dela é o que me faz chorar por dentro. Não há lágrimas suficientes para igualar aquelas que apenas emolduram as beiradas dos olhos. Rosto bronzeado, um passado tão presente que mal se nota a diferença. Sem licença, é ali mesmo. Se chove, é a gravidade quem manda.

Manual de Instruções

Para entender o que diz o aviso na placa. Vire-a de cabeça para baixo, leia de trás para frente, de cima para baixo, da direita para a esquerda, enquanto assobia o hino da Hungria em fá menor. Depois, assobie em mi menor. Se ainda assim não entendeu, assobie em lá sustenido com sétima.

sábado, 27 de junho de 2009

Descanso no gramado sob a sombra da árvore

Jogaram umas pedrinhas no chão à minha frente, mas nem vi quem eram, ou o que queriam, pois estava absorto demais nos meus pensamentos. Quando finalmente olhei, não tinha mais ninguém lá, e resolvi levantar.

Pedágio

Dois terços das pessoas no mundo nem sequer percebem que a estrada está engarrafada. O terço restante fica buzinando.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Praia

A saia vermelha voltou ao joelho, e o vermelho do tecido, em busca do tido como essencial, apareceu. Fui ao seu encontro, confronto aberto e alma despreparada. A linda menina de olhos azuis se desfez como a fina camada adocicada de seus vinte anos completos. A nuvem choveu umas duas semanas. Em uma manhã seguinte, o lençol e parte do sol se juntavam com uma maçã. E balançavam os pés, o casal, em êxtase total, mesmo assim, se refez e alinhou a vista, sem perceber a pista de alta velocidade.

Oportunidade

O vento foi a melhor tentativa que o ar podia ter feito.

Dez centavos

Onde está a minha moeda de dez centavos? Tenho certeza de que a coloquei no bolso furado da calça jeans de ontem. Tenho tanta certeza que nem chequei se o bolso estava realmente furado. Talvez não estivesse, e aí a moeda ainda estaria lá. Onde está minha calça jeans?

Os Grandes e os Pequenos

Jaime, o Triste, estava me contando a seguinte história: “Colosso e o Gigante de Frestal eram inimigos mortais. Certo dia resolveram finalmente resolver suas diferenças em um jogo de dardos na Grande Parede do Ocidente, onde desenharam um alvo com caneta de CD vermelha. Ao saber do confronto, o representante da União dos Vilarejos Minúsculos conseguiu uma audiência e pediu formalmente que se desenhasse um alvo igual do outro lado da parede, na mesma posição, e que os gigantes se dispusessem em lados opostos, e também que fizessem um buraco no meio do alvo para que, quem acertasse exatamente ali, ferisse mortalmente o outro. Todos aprovaram a ideia e isso foi feito. Colosso quis dar uma de esperto e jogou o dardo com toda força antes que o apito soasse. O Gigante de Frestal também quis dar uma de esperto e fez o mesmo, no mesmo momento. O meio do alvo não foi atingido, mas a Grande Parede foi, e ela ruiu inteira, destruindo os Vilarejos Minúsculos. Os brutamontes riram do acontecido e foram almoçar.”

Faísca

Quem viu a faísca foi você. Eu vi só o reflexo nos seus olhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um, dois, três

Às vezes a carreta passa devagar. É mesmo um dia de cada vez, ela diz. Relembrando os revezes ensimesmados, as pessoas correm três vezes por dia, pelo menos. Correr é chover, melhor molhar do que mendigar pelo pão de amanhã. Mas sempre que o dia acaba, começa o dia de novo, ou quase sempre, ou sempre quase. Só termina quando o começo reclama. E aí, é recomeço.

Trailer

O peixe se viu dentro de um aquário de proporções absurdas.
Sua única referência era uma colher.

Locomotiva

O trem de ontem já partiu. E eu estava nele, mas não estou mais, porque já é hoje, e eu agora estou no trem de hoje. Agora eu sei quem fui. Fui um sujeito que entrou no trem de ontem, e, ainda assim, fui enganado. Ontem ninguém me disse que hoje eu estaria no trem de hoje. Tinham me garantido ontem que hoje eu estaria no trem de amanhã. De qualquer maneira, penso eu, amanhã estarei no trem de amanhã.

Ataque das Raposas

Do alto da montanha, eu vi a sombra do mundo. No fundo do céu, um ponto. O véu de nuvens desenhou um percurso que segui com a respiração calma. Quando voltei a cabeça para cima, o céu estava cinza escuro, e um time de raposas arriscava o primeiro ataque. O dia era um rascunho, pois rascunhos são o início, o real tinha mesmo que ser a noite. Não a noite dos insones, mas o fim de tarde dos esperançosos.