domingo, 14 de abril de 2013

Momentum

Meu primeiro impulso foi querer pegar a estrada de novo. Porém, de alguma maneira, eu sabia que algo importante estava para acontecer, e que se eu me movesse rápido demais perderia o relâmpago. Além do que, a pintura se mantinha igual à de tempos atrás, o estilo seguia inconfundível, a moldura (ou melhor ainda) – só que eu era mais eu mesmo, bem mais. E da parede do museu virei para o despenhadeiro de mentira, onde pode ser fácil cair quando não se tem nada a perder. Não era o caso. O despertador tocou e eu tinha sonhado um momento que já existia entre as nuvens da tempestade.

sábado, 13 de abril de 2013

O Mestre do Farol

“Onde você vai, Lince?”, inquietaram-se meus novos amigos. Não respondi. Eles voltaram às piadas sobre elefantes bêbados enquanto eu me distanciava no descampado. O lance é que eu tinha visto um farol na praia algumas horas antes, e me perguntara quem seria o encarregado do posto. Não foi difícil achar o som do mar, menos ainda o próprio farol. Descalço na areia branca, reflexo da lua crescente, fui deixando pegadas propositais para saber por onde voltar. Um portão de madeira se semidesintegrou quando o toquei. Abriu caminho para os degraus e para algo que, intuí, poderia trazer algumas das respostas que eu procurava nos dois últimos anos. No fim da escadaria vi uma sala ampla com 360º de janelas à disposição, uma mesa de jantar, uma poltrona, o farol ligado e nem uma viva alma para controlá-lo. Esperava encontrar alguém tipo um caquético sábio de barbas alvas. O Mestre do Farol ou algo assim, a escrever notas de epifania. Era o mínimo (mas não). Sentei-me na poltrona para observar o movimento automático do facho de luz, realmente admirável em termos de alcance. Em seguida peguei meu caderno e registrei o momento. Quando me preparava para voltar, ouvi um barulho, o que queria dizer que tinha alguém subindo as escadas. O Mestre? Um garoto uns dez anos mais novo do que eu apareceu na entrada da sala – ele e sua expressão interrogativa.
- Venho de longe e tenho uma questão.
- Para mim? – Perguntei surpreso.
- Sim.
- É... Ok, diga.
A pergunta dele era sua própria resposta, e ele não se havia dado conta.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A solidão da paisagem perfeita


Lá pelos idos da fronteira, antes do idioma trocar, achei um lugar para o descanso que eu vinha planejando. Uma cidadezinha de indivíduos estranhamente indiferentes à minha câmera fotográfica, melhor assim. A placa equivalente a “pensão” apareceu.

- Um quarto sem pernoite, por favor.

Só fui perceber o tesouro escondido no quarto passados dois minutos, já deitado. A janela. A vista perfeita de duas montanhas que se juntavam – casal em reaproximação milenar imperceptível, ao longo de toda a Era do Silêncio. A cachoeira que criava uma graciosa nuvem de gotículas flutuantes, livres, mas confortáveis no existir coletivo. O rio que descia em perspectiva até mim, até o observador. O paradoxo do narrador-personagem. E sim, também elas, as árvores de quinhentos anos. Tentei enquadrar, enchi o cartão de memória com fotos que pareciam estar de sacanagem comigo, tamanha a mesmice e a falta de fidelidade. Incontáveis cliques depois, me restou deitar novamente na cama. Formatei a câmera e contemplei afinal aquela paisagem inexplicavelmente invisível a olhos eletrônicos. Uma fotografia pessoal e intransferível.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Duas estrofes

Duas chances, diz o poeta contente com sua canção. “Talvez você... Tenha duas chances.” Então paro de prestar atenção e imagino logo a mureta na beira do caminho (o próprio caminho), o portão, uma festa, o eco simples e sincero,  a questão fundamental resolvida, componho com as brasas da refeição ao ar livre, umas conversas maneiras de guitarra havaiana, acrescento o cheiro da noite. Penso que as coisas podem ser melhores do que são, do que foram e do que serão. Penso. Nem sei se adianta muito. No entanto, a meia página escrita um dia pode ser uma foto, quiçá mais até: uma história – a história. Duas chances, diz o poeta. Duas estrofes. Parece impossível, eu rebato. É a segunda vez que eu ouço isso, ele completa.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Arrivederci

Boa parte da outra noite eu passei nadando. Contagem em segundos. Debaixo de um exagerilhão de pontos luminosos, olhos dos deuses mais antigos que o próprio sistema, que a origem, que a paz. Se eu pensasse assim, dava uma certa tranquilidade... Afinal, quem era eu para me preocupar com qualquer coisa que fosse, certo? Mas as estrelas tinham reflexo – da mesma forma que meus pensamentos se projetavam para muito além da linha deitada, sempre fugidia. O mar uma vez foi promessa, depois era pressa (na maior parte do tempo); eu me contentava com o fato de a água gelada conseguir pentear os nervos em modo contínuo. E a ilha que alguns profetas em slow motion anunciaram, essa nunca veio. Ou então fui eu que acabei achando antes a tal correnteza inevitável que de um jeito ou de outro me acharia por si só. Em meio a águas inofensivas como suor, profundas como lágrimas. Hoje ao recapitular posso ver que foi mesmo apenas uma corrente (no momento, confesso, parecia desprovida de elos quaisquer) e respirar aliviado, confiança na correção monetária, belo bônus da aposentadoria. Cheguei na praia junto com o amanhecer: o déjà vu do fim de um oceano no nosso planeta circular. Haveria um caminho mais rápido? É provável. Deitei com o rosto para cima, as ondas disseram arrivederci e eu apaguei.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Fluxo

Geralmente é bem assim mesmo, bem mais simples quando as palavras significam na mosca aquilo que se quer que signifiquem. Não é todo dia que as palavras fluem, alguns podem reclamar. Não é todo dia que se vai ao rio beber água corrente, apesar de podermos ouvir seu som incessante, principalmente à noite. Não é todo dia porque não se quer que seja, oras. Tem gente que vai ao rio beber água todos os dias.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Um presente

Ao ouvir as batidas na madeira, ela era a última pessoa que esperava encontrar do lado de fora, no calor úmido, doce e escuro. Trazia um ensopado ou algo assim, segurava a panela de barro com um pano cheio de padrões que eu já havia visto. O aroma era delicioso, mas não sei dizer com certeza se era do ensopado. "Um presente", insinuou (com subtexto gaiato), e debruçou-se na janela como que esperando alguma coisa acontecer: um fenômeno da natureza, sei lá. "Quem é você, de verdade?"

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Verão

Uma semana depois da enchente e eu ainda não tinha procurado saber o horário do barco que me levaria pra casa. Pura inércia. No entanto as coisas não estavam tão ruins: pela primeira vez na vida possuía um lugar só pra mim. Meus velhos amigos em outro continente, em afazeres correntes, provavelmente nem mesmo imaginavam que eu fosse voltar. Claro que dessa forma teria que continuar a acordar antes do sol para pegar minha parte de arroz no mercado, uma hora e quinze com passos médios. Seria obrigado a drenar o pequeno rio que cavava o fosso ao redor da varanda, limpar diariamente duas vezes o assoalho para que ele se parecesse um pouquinho menos com o quintal, expulsar as galinhas sem noção na hora do jantar, e "Ca muishc losdena, ig Lince", berrava Don Herbertic quando precisava de uma força na colheita, passando de bicicleta. Eu nunca soube o que isso queria dizer no literal. Chuva de verão no início da noite. A gente desiste de beber a vida inteira de um gole, consegue viver um momento de cada vez e acaba ganhando um monte de vidas em uma só.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Resto de sobremesa

De noite na ponta aquela da praia, na beira de um oceano superdosado e inédito em cores potenciais, supertonado de doses semiletais de vida impossível, eu pensei um detalhe. No restaurante bem escolhido pela fome incorporada - a paz então existe? É um estômago cheio - outro detalhe. No círculo móvel da praça, detalhes percebidos dia após dia, um cartaz sem importância absoluta, mas a relativa resposta para uma tarde de insucessos em sequência. A cama de casal, os sapatos limpos pela escova de dentes velha, o diário de uma jovem tristemente perdido nas camadas de um apartamento sem memória (e um livro de direito administrativo em português de Portugal, e uma raposa empalhada): apenas vírgulas, no máximo metáforas sem muita substância. É um riso aqui, um sorriso lá. Detalhes, meros, quando isolados. Mas a história existe pra quem quiser agora, suficiente alguém que conte e alguém pra ouvir, um incrível passatempo, por assim dizer, que faz toda a diferença quando tudo quer ir (embora).

domingo, 25 de novembro de 2012

Voltas

A corrida começou assim – e assim se manteve por longas voltas. Que tudo pudesse fazer sentido, por um momento no tempo que fosse. Porém, pensando bem, era precisamente quando o tempo perdia o sentido que tudo funcionava. A ideia então foi emparelhar com o momento, sem ultrapassá-lo entretanto, sim, o sentido que se virasse por sua conta para nos alcançar.

sábado, 24 de novembro de 2012

Banquinho

Eu fui vê-la se apresentar algumas vezes, às quintas. Chegava e ficava lá atrás, junto com a poeira das garrafas de vinho da melhor qualidade. Esperando. Eu esperei um bocado. Se fosse um dia bom, ela sairia pelas cortinas com seu vestido azul, um sorriso de garota tímida, o banquinho alto numa das mãos, o violão na outra. Apreciava especialmente o fato dela trazer seu próprio banquinho ajustável. Ela fazia um cover de uma música chamada “Because of You” do Gene Clark com bastante propriedade, vocês poderiam até procurar no YouTube e ver que é uma canção de 1975, é engraçado porque nenhum de nós dois pensava em nascer ainda nessa época. O que eu sei é que ela cantava aquela música olhando pra mim, sorriso tímido desmentindo e mentindo descaradamente o que diziam seus olhos, sotaque espanhol nas entrelinhas. Ela cantava outras coisas também, mas essa era pessoal. “So close your eyes and pick a place to fly away”, e eu seguia sua sugestão. Valeu a pena ter esperado, mas gostaria de ter tido tempo para conhecê-la melhor, uns meses mais pelo menos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma das saudades

Uma das saudades que vem é como aquela foto que se perdeu porque tinha que se perder, a melhor delas. Estava no velho HD externo, uma DSC456, uma JPG003, blabla, sei lá, procurei mais um pouco mas não adiantou. Uma das saudades que vem é aquele passeio depois da aula, longa caminhada que podia ser feita de ônibus mas a gente decidiu ir a pé. A tarde de ócio jovem, as conversas que não levam a lugar algum, nunca. Ela vem e fica. Saudade, saudade, eu falo a palavra até esvaziar, vazar bastante o seu peso, então o que ocorre é que acaba inundando toda a cidade, a rua por onde a gente andava lá no canto da memória, a rua por onde eu vou agora. Se pelo menos eu pudesse achar a foto... Acho que vou ter que me contentar em fazer um desenho com palavras por aqui.

Contracapa

É justo dizer que tudo funciona inacreditavelmente melhor do que se imagina pelo menos de vez em quando: basta para a gente se sentir um pouco mais satisfeito com as nossas intenções e tudo isso. Um desses parágrafos que lemos na contracapa antes de comprar o livro e que nos surpreende quando o reencontramos, já envolvidos pela história. Veja para começar o Dom, aí deitado sem camisa no chão de poeira sem dar a mínima para as formigas, mas falando baixo umas palavras legais e sonhadoras para a noiva dele, adormecida faz uma boa meia hora (enquanto a fogueira vai alto em faíscas bonitas e deixa tudo com um cheiro de quintal, um alívio considerável na desolação que é a praia de hoje). Claro que alguém traz um violão e dedilha canções igualmente aconchegantes que evoluirão em algum ponto também para roncos sinfônicos de todo o pessoal, pois o ciclo é esse, só que antes disso, porém, eu vou me certificar de que as luzes se esquentem no céu mais uma vez, respirar fundo e fazer meus pedidos, meus agradecimentos, meus poemas sem sentido, os que sobram; a água do mar vai se aproximar e perguntar se pode participar da reunião agora divertida, mas vai se dar conta de que é um episódio bastante humano e se retirar respeitosamente. Talvez a Flor me olhe com seu código para que a barraca debaixo da palmeira se feche por uns momentos, ninguém vai se importar, tenho certeza. É justo dizer, um desses parágrafos que não estão na contracapa à toa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cinco luas

Ontem na volta eu fui andando pela rua com as mãos no bolso da aceitação incondicional para com tudo o que tinha acontecido e viria a acontecer dali pra frente, ao longo da avenida rolante. Alguma coisa acionou a chave, foi um processo exaustivo e intermitente e eu estava consciente de que não havia terminado ainda. Deixei todo o falatório para trás, sem me despedir, os ecos corriam latindo atrás das minhas rodas – e a lua sorriu de novo pela quarta ou quinta vez, baitas dentes desconcertados que me haviam recebido e cresciam e se preparavam para me levar até a porta do avião dentro de poucas semanas. As primeiras luzes de Natal deste ano não foram as da árvore robótica do banco, mas as da pequena janela do segundo andar da padaria no meu caminho: nada além de uns vagalumes um tanto bêbados e sem experiência. Só que eu reparei nisso, só que eu me sentiria bem-vindo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Desconhecido

O Desconhecido, esse cara babaca que nos pede dez reais pra comprar pão e em seguida cai no chão em lágrimas, querendo apenas (e vá...) um pouco de companhia e um par de ouvidos para suas lamúrias incessantes, mais, mais, a insatisfação da limonada perdida na geladeira. Ele tem um chapéu azul escuro como que da cor do céu de suas vidas seguintes acumuladas em reflexões sem a menor importância, mas isso é mero detalhe, mero cavalheirismo espasmódico da parte dele. Ele se curva com o chapéu na mão: o gesto outra vez é de pedido, de submissão interesseira, meu bom homem. “Demando o que é seu, o que não é meu, o que não é nosso e nem de ninguém, o que é irreal com gosto de carniça.” O cachorro dele é velho, cheio de tiques nervosos e puro osso, a ponto de confundir-se e morder seu próprio calcanhar na hora do desjejum. O relógio dele é sério, mostra a pobre balança desregulada, tá, tá, não quero ouvir mais nada, some daqui. Chove. O Desconhecido desce as escadas, olha de soslaio e se perde em lembranças da época em que era Conhecido, isso em terras outras – soam diálogos bem marcados pela rítmica de uma geração que sabia se divertir –, um grandíssimo desperdício em forma de descontinuidade. Ou de inconformismo. (E ainda assim), ainda assim ele escolheu seu caminho e merece todo o meu pesar, ou a minha admiração, ou os dois juntos, tiro eu o meu próprio chapéu azul para pedir-lhe umas moedas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Vai

- Exemplos, eu quero exemplos.
- Por exemplo, quando você tenta algo só pela sensação da coisa. Como caminhar a noite inteira, passar a noite inteira caminhando.
- Mas por quê? Tem gente que gosta de passar a noite em claro, não tem nada de novo nisso.
- Essas pessoas têm insônia, ou então precisam estudar, ou estão fazendo coisas tão divertidas que acabam perdendo o sono. Trabalhando. Estão esperando alguém, nervosas. Ou estão viajando de trem, ou de avião, lugares onde se dorme mal. Têm medo de dormir e ter pesadelos, pensam demais.
- Você está querendo dizer que um sujeito se proporia andar a noite inteira por aí, assim, sem motivo?
- Uma decisão, sabe? O cansaço poderia justificar tudo, ou tudo poderia terminar como começou: com outra decisão.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Coelhos

Ainda que a chuva de coelhos não desse sinais de trégua, e por mais que os guarda-chuvas estivessem disponíveis em quantidades bastante razoáveis, mesmo assim eu não quis sair de debaixo da marquise. A colina toda espelhava o cinza do céu, e todos aqueles coelhos caíam como se corressem na vertical - quando tocavam o solo, simplesmente mudavam de direção - e a linha do horizonte para eles fazia então tanto sentido quanto o nascer do sol para um girassol recém-nascido. Assim foi todo o dia, assim seria toda a noite. Mas mesmo que eu tivesse tentado, não sei se compreenderia como tantas unidades conseguiam ser tão independentes, tão microcósmicas, quando na verdade aquilo tudo era apenas uma onda. E se nenhum dos coelhos tinha noção disso, não seria eu que iria contar pra eles. Os trovões foram ficando mais fortes, pois lembro de ter me perguntado como seriam as nuvens de coelhos e o que estariam fazendo no céu enquanto esperavam a hora de cair. Olhei para cima, bem a tempo de evitar que um deles aterrizasse na minha cara. Por puro malabarismo impressionista, este fizera sua trajetória de descida na diagonal, ricocheteando em seus colegas e afirmando que a vida segue seu rumo, Lince, e o rumo é você quem dita, digo, mas quem tem que dizer isso é você, portanto retiro o que disse.

O último fim

Lily voltou. Tinha uma pinta nova do lado do nariz. Já não era a mesma, claro. Eu menos. Nos encontramos em um desses bares sem propósito nenhum a não ser finalizar histórias decadentes, um desses lugares indecentes sem uma única estúpida fonte direta de luz branca. O barman popeye comia ovos e bebia rum puro, na fanfarronagem. Provavelmente instigava o próximo cliente a dizer ou a pensar qualquer coisa ofensiva, olhou para mim mas eu não era seu público-alvo. Ela entrou pela porta uns vinte ou vinte e cinco minutos depois do combinado. Apenas outro camarada no balcão, e sem embargo foi sentar-se ao lado dele, enquanto a música parava para os anúncios das eleições. E ela achou que fosse criar um efeito dançante em seu desfile gelado, pois nem isso. Daí chamei o barman e lhe ordenei que trouxesse um pedaço de torta. Perguntou se era para viagem. Para viagem, sim, que seja! Lily trocou uma ideia com o outro cara, que era um pobre bêbado sem a menor condição de ajudá-la em seu plano infantil, então ela desistiu.
- Olá, Lince.
Arqueei as sobrancelhas.
- Não vai dizer nada? – Ela bufou um pouco.
- Quer um pedaço de torta?
- Não, obrigada.
- Como vai o Woody?
- Não o vejo há meses.
Falávamos em espanhol, isso começou a me irritar. Decidi ficar calado. O barman veio com a torta embalada como a cara dele, a música recomeçou e ela tocou meu ombro de leve.
- Vamos ao cinema?
Fomos ao cinema. Eu já tinha visto o filme, mas ele me pareceu absurdamente pior dessa vez.

Escadas

Então eu descobri que por mais altos que sejam, todos os prédios têm escadas, mas poucos indivíduos as utilizam, a não ser aqueles que vão para o segundo ou terceiro andar, e ainda assim, chutando o ar e usando o combustível altamente poluente da impaciência aditivada, como que para punir os próprios elevadores e as pessoas que os esperam calmamente. Mesmo correndo o risco de encontrar os raivosos no início do edifício, e mesmo tendo que ir diariamente para o último andar, preferia os degraus. Depois de alguns lances de escadas, o caminho ficava tão barulhento quanto um lago congelado às cinco e meia da manhã.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Truque

Queria aprender a fazer aquilo. Ele tirou o coelho da cartola e o bicho correu por entre as pessoas curiosas, trinta ou quarenta faces desarmadas pela diversão. O truque da fonte da juventude, que funcionava sobretudo com o próprio mágico.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Paralelo Railway Blues

Porque o trem ia até bem lento. Ia beirando o rio às vezes, quase tão rente que dava pra sentir o cheiro d’água, ouvir as pedras vivas de movimento. A gente dormia um pouco e depois acordava, cada um viajava em seus respectivos sonhos, num silêncio que parecia domar o tempo. Mas o tempo não era fácil. A paisagem na janela nunca seguiu padrões ou respeitou o que eu esperava, quem era eu afinal para decidir por onde o trem passava – ele percorria espaços definidos por pessoas que já se tinham ido há décadas. No outro vagão, o jovem esfarrapado dedilhou seu violão esgulhepado todo cheio de si. Um som meio calmo para sua idade, que me lembrou de mim mesmo e das possibilidades (as velhas inquietações me dizendo para onde ir). E o trem ia ultrapassando vales tristonhos, raios horizontais de sol, subia montanhas e três oitavas no piano, só pra me fazer recuperar as ideias que me acompanhavam desde a estação de embarque: o pessoal todo reunido, o adeus no portão de entrada. Só pra anunciar a próxima parada, a próxima despedida.

domingo, 11 de novembro de 2012

Macia

Abracei-a de leve, contando as gotas de chuva na calçada, marcando o ritmo assim. Eu não a conhecia pra valer, nem ela a mim. O que tinha passado entre nós não era nada de maluco ou uma porrada no coração, muito menos o que eu imaginei que seria quando a vi pela primeira vez. Mas dividir aquele momento, não sei, sim que era importante e disso eu sabia. Soube na hora. Tem aquelas pistas que você não consegue perceber sozinho, tem outras que são mais elefantes alpinistas do que propriamente pistas. Ela me deu um beijo na bochecha para depois se encaixar no meu ombro, quente. Macia.
- E aonde você quer chegar com essas andanças? – Ela pensou.
- Talvez eu tenha acabado de chegar, e você também. – Eu pensei.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cochilo

Lá vão os pés suspensos sobre o sofá da sala – na pequena noite madura, um tchau na memória e quase nos sonhos, mas... E mesmo ele, o senhor bonzão com o controle de seus passos, com a cabeça erguida ao atravessar o cruzamento antes da massa (era o primeiro, e tanto o estudante quanto a madame o seguiam como que puxados por cordas), mesmo ele tinha que dormir. “Vá para o seu próprio ninho composto de suor e erros e tudo o que eu nem sei o nome ainda, vá se aconchegar aí, no conforto dos mantras em nuvens de eletricidade e abacaxi, tiras de Páscoa no topo do Lago Titicaca, tudo misturado. Perca-se na sua própria voz, tenha medo do próprio medo até as últimas consequências e atire-se para dentro de si mesmo. Vire do avesso para mergulhar num mundo de simples desfoques (pois o foco total e extremo é bastante incômodo), de lâmpadas quentes e contraluzes, de camisas de botões e fotos antigas, de um eu que tu decides, já saberás quando chegares.” Pode ser que ele só saiba que é feliz assim, sem se ligar muito. Tanto faz, porque a felicidade não é canção, é trilha sonora. Não é o título do filme, é a sensação que fica quando enfim as luzes se acendem e se vai embora.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Grafite

Tintas aguadas serviram por muito tempo, eu que o diga. A parede fechada com grafite podia ser chamada de estilosa, os jornais lhe concederam um prêmio e eu até comprei a ideia perante a rua, porém no fundo sabia que não passava de puro lixo. E era o meu muro, por tudo quanto é sagrado! Ok que ficava do lado de fora, que nem era obrigatório eu olhar para ele se eu não quisesse, mas quando eu chegava de viagem... Um domingo eu saí com meu balde e o pigmento feito em laboratório – o laboratório de guerra – para começar uma revolução. Cada passante chorava um pouco, as crianças riam e os velhos praguejavam. Meus vizinhos mais humildes criticaram o que podiam em entrelinhas e à distância e uma semana depois os grafites voltaram dobrados. Não tive outra alternativa a não ser alugar um trator e derrubar o muro. Pus abaixo a casa também, para aproveitar a diária do trator. Ouvi uma salva de palmas e logo percebi que era eu mesmo e eu só. Mas quem sabe o eco não fosse eco, e houvesse mais gente em algum lugar.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fábrica

Se bem que aquele foi o único bloqueio de escrita que me deixou feliz. A história é boa, escuta só. Chegara em Marloque São João fazia pouco e ninguém queria me dar trabalho. Eles não tinham culpa afinal, a cidade era pequena. A única fonte de empregos, a fábrica de papel, não recebia currículos porque os empregos todos eram hereditários, desde o gerente até o operário – uma espécie de lei trabalhista informal que facilitava a vida do Capitalista porque os pais ensinavam os filhos e ele não precisava gastar com qualificação de mão de obra, nem os pais com orientação vocacional. Enfim, foi isso que me disse a filha da estagiária, que estava em treinamento. Quando saí pelos fundos, dei de cara com um container semiaberto. Parecia um descuido, então eu peguei um montão de sobras de papel defeituoso (furinhos imperceptíveis, riscos imperceptíveis, descolorações imperceptíveis) e voltei para o quarto do hotel. A princípio a ideia era passar o dia escrevendo, mas comecei a ficar entediado com todo aquele branco em excesso e fiz um aviãozinho de papel. Era um Supermarine Spitfire Mk XI. Daí saí para testá-lo na praça, naquele dia nublado sem brisa. Não me incomodei com a presença das velhinhas em seus trajes vermelhos, nem com seus olhares ameaçadores: o Spitfire seguiu viagem como se fosse operado por controle remoto, percorrendo um semicírculo perfeito e pousando em uma das árvores do outro lado da rua. Um bando de moleques se aproximou. Chegaram gritando e batendo palmas, e eu me senti como um dos Pioneiros.
- Como o senhor se chama? – Perguntou um moleque de olhos cor de laranja.
- Lince Paralelo.
- O senhor é que fez aquilo?
- Sim, fui eu.
- O que é? – Perguntou outro, com um boné de hélice em cima.
- É um Spitfire.
- Como o senhor construiu ele?
- Ora, com papel. É só o que vocês têm por aqui, não é? – Comecei a pensar que as velhinhas me olhavam ainda mais ameaçadoras. O moleque de olhos laranja voltou a falar:
- O que é papel?
- Como assim? Papel? É o que bota comida na sua mesa, garoto. É a razão do seu velho levantar às quatro da manhã todos os dias e ir para aquela fábrica horrível perto do rio.
Os pirralhos me olhavam como se eu fosse um extraterrestre.
- O senhor deve ter-se enganado. A Fábrica não faz esse tal de papel coisa nenhuma. – Afirmou um outro, de camisa listrada.
- O que ela faz então?
- É tipo um mercado. – Disse um dos grandões sabichões, talvez o mais velho, mas nunca se pode ter certeza com garotos dessa idade – Você sabe o que é um mercado?
- Claro que sei o que é um mercado. Aquilo não é um mercado.
- É sim. Meu pai vai lá todo dia vender o tempo dele. O Sr. Juan compra o tempo dos nossos pais por um bom preço. Quer dizer, depende da época do ano. Às vezes os preços caem e todo mundo começa a falar de crise.
- E como funciona isso? – Perguntei, só que já começara a entender.
- Você não aprendeu na escola? – Quis saber o do boné. – Todo mundo nasce com uma quantidade de tempo, só que ninguém sabe quanto é, assim, certo. Aí quem tem mais dinheiro pode comprar o dos outros.
- E vale a pena vender?
- Ué. É a única coisa que as pessoas têm para vender, e elas precisam do dinheiro pra comer. E para comprar coisas e tal.
- Mas de onde esse Sr. Juan tira tanto dinheiro então?
- Não sei, mas acho que deve ter vendido muito do tempo dele. E agora precisa comprar o tempo dos outros pra se garantir.
- É, mas isso não faz muito sentido... – Disse o dos olhos laranja.
Cocei a cabeça e fui pegar meu aviãozinho na árvore. As senhoras estavam conversando com um policial.
- Gostariam de aprender a fazer um desses? – Eu disse, ao voltar com o Spitfire na mão.
- Sim! – Gritaram os moleques.
Então eu tirei uns papeis da minha mochila e sentei no chão, e eles também. Resolvi fazer um N2758E, aquele que eu aprendera com o velho Richard. Os moleques prestavam máxima atenção a cada movimento, a cada dobra, comentando entre si em estilo partida de futebol. Quando terminei, berraram de alegria no meu ouvido. Todos queriam voar primeiro, mas o olhos laranjas estava quieto demais desde a conversa anterior, então eu estendi o papel dobrado na direção dele.
- Mas eu não sei pilotar.
- Claro que sabe.
Ele jogou o aviãozinho, e de repente vi nos olhos laranjas que algo profundo tinha mudado em sua maneira de ver as coisas. As senhoras e o policial já não podiam fazer mais nada: ele estava livre, para sempre.

Cozinhar

Os convidados foram partindo por volta das tantas. O furo na camisa deve ter denunciado a minha situação, porque os anfitriões perguntaram se eu não gostaria de passar a noite por ali. De qualquer jeito meu ônibus só sairia de manhã, argumentaram. Então me deram um colchão de algum material surpreendentemente macio e eu apaguei. Quando voltei de um sonho em que disputava a corrida de aviões da Red Bull, já era dia total. Havia barulho na cozinha. O Arqui saíra para o trabalho uma hora antes mais ou menos e sua mulher cozinhava alguma coisa com cheiro doce.
- Tá com fome?
- Gostaria de comer um bode inteiro.
O que na verdade era mentira: eu queria comer o que a Gabriela estava fazendo, o que quer que fosse. Não era uma coisa só, eram sete (eu fui contando). Um purê de batatas com amêndoas, arroz branco, feijão preto, espaguete à carbonara, carne assada ao molho de mostarda e mel, quiche de queijo, bolo de chocolate. Um verdadeiro banquete, simples e incrível. O Arqui não voltaria para almoçar, e eu me perguntei para quem seria tudo aquilo tudo. Perguntei para ela também.
- Para quem é isso tudo?
- Você sabe que eu estou desempregada não é, Lince?
Tinham comentado isso na festa, eu sabia. Mas antes de continuar eu preciso acrescentar aqui uma coisa, não sei bem por quê: a Gabriela era o tipo de garota que todo cara espera encontrar na vida, mesmo que não saiba ou não pense muito sobre isso. Eu não sou um tipo invejoso, simplesmente não faz parte da minha personalidade (além disso, a minha Gabriela apareceria alguns anos depois) – só estou dizendo que era bom de olhar aquela figura feminina de avental, uma pequena indomável e cheia de energia. Ela era cozinheira, na verdade chef de cozinha. Estava desempregada há três meses e fazia bicos em recepções aqui, casamentos ali etc e tal. Realmente tinha talento, eu comprovara na noite anterior.
- Uma parte é pra mim e pro Arquimedes, ele adora carne assada. E pra você claro!
Uma parte, eu pensei, mas nem deu tempo de arriscar uma suposição, porque ela foi contando que precisava fazê-lo todos os dias, isto é, cozinhar, para não perder a prática, e não necessariamente pelo resultado, pelo utilitarismo da coisa, da comida como produto, mas pelo ato de cozinhar em si, e tampouco somente para manter-se em forma, mas porque sim. Era uma função vital para ela.
- Talvez tão importante quanto comer.
- E o que você faz com o que sobra, todo dia?
- Há! Se tem uma coisa que não sobra nesse mundo, é comida caseira boa. Basta achar um jeito de levá-la até as pessoas.
E então olhei para ela ainda mais impressionado. Tinha preparado todos aqueles pratos simultâneos enquanto conversava comigo, regava as plantas e lavava a louça. Quando sentamos para almoçar, a cozinha cheirava a flores. Comi devagar, mastigando e saboreando aquela filosofia de vida, pensativo – enquanto meu ônibus deixava a rodoviária, do outro lado da cidade.

domingo, 4 de novembro de 2012

Perdido na estrada

Havia muitos quilômetros que a paisagem permanecia igual. Nunca fui de reclamar da linha do horizonte – para mim ela era contrapeso, parâmetro de medidas eventual –, mas pouco a pouco foi se tornando tão claustrofóbica quanto o elevador do prédio na empresa durante o feriado prolongado. Era uma amplidão pesada. Virei para trás e foi como se não houvesse virado, pois se via a mesma coisa. Virei de novo, mas logo fiquei na dúvida de quantas vezes tinha virado e acabei virando outra vez. Bateu a fome, as bússolas já não existiam e percebi que contava basicamente com a poderosa sensação de não ter nada a perder.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A estrada perdida

Uma noite mal dormida ao acaso, uma manhã de feriado. Troca a coberta de lã pela janela da varanda, debruça no parapeito. Esfrega os olhos enquanto descobre um dia de inverno com um sol morno e úmido que nem roupas recém-saídas da máquina de lavar. O vento é pouco, mas o suficiente para mexer seu cabelo de cachos bagunçados pelo travesseiro, o bastante para limpar os dias da semana anterior, trazer a vida de volta, inteira, de um golpe só. Ninguém por perto. Respira fundo o ar gelado e limpo de um futuro inexplorado, passa a mão no rosto mas não boceja, porque está meio em transe. Porque na verdade ele sempre soube que queria a multidão, um lugar na multidão. Não que fosse melhor do que ninguém, mas é só que de alguma maneira ele possuía uma posição de responsabilidade na grande rede invisível de conexões, como o marinheiro que grita terra à vista. Era seu papel gritar terra à vista. Ele podia muito bem ignorar tudo isso, voltar para a cama e dormir mais um pouco. Acordar às três da tarde e decidir que iria dar uma volta, isso estaria bem. À noite, encontraria seus amigos na esquina, esperando por ele em uma das mesinhas, nas cinco cadeiras. No dia seguinte, o trabalho e oito horas pesadas se passariam com o barulho de mil carroças, mas de noite ele chegaria ao quarto para abraçar sua mulher e sonhar sonhos fortes demais para uma vida descansada. O homem sabe que isso é bem uma possibilidade. Mas o que fazer com a criança que chorava em filmes que nem eram de chorar, mas que faziam sentido e isso era emocionante e simplesmente bonito como a luz do luar? O que fazer com o bebê que tinha medo dos noticiários de TV porque davam a impressão de que o mundo estava por acabar? – E o mundo era importante demais. O garoto e seu caminho, a iluminação e o espio entre as cortinas, à procura da verdade. Um dia ele vira uma pessoa comum num palco e quando tocaram sua música ela era real. A verdade estava lá, com seus gritos e assovios, e barulhos eufóricos. O que fazer com tudo isso? Um livro depois outro, uma sede insaciável por histórias humanas, por vidas, por vidas paralelas, sucessivas, infinitas. O livro que terminava e então ele não conseguia dormir aquela noite porque não seguiria compartilhando a vida dos personagens. Saudade dos personagens. O que fazer com sentimentos reais de vidas imaginadas, com todas as ideias que apareciam sem serem convidadas, com todas as palavras que jorravam quando se abriam os portões do abstrato e da lembrança conjugados, com todo o potencial cutucado por cada música aparentemente randômica? Talvez fosse apenas medo da morte. Talvez fosse o sentido da vida. Não era possível que não houvesse algo que ele pudesse fazer. Um lugar para todos, não é o que dizem? Vamos lá, sigamos nossas ideias mais internas, mais impedidas pela insegurança de um mundo que já existia muito antes que a gente aparecesse por aqui. É achar agulha no palheiro, sussurram. Mas acontece o seguinte, a coisa realmente importante é que cada um tem um ponto de vista e isso é a própria base da apreciação. O sujeito que percebe. O resto é só história, não é a coisa em si. Não que história não seja essencial, mas seus expertos devem saber disso: é história, não é real. A verdade existe somente a partir do momento em que alguém observa e sente. Ele sabia disso, porque sentia. E sabia além disso que poderia criar essa sensação nas outras pessoas. Já o tinha feito antes. Ninguém gosta de desperdício, pelo menos a natureza não. Então ele caminhou de volta e tomou uma ducha fria, olhos fechados e concentrados na melodia de uma música que não saía da sua cabeça, porque ele tinha sonhado com ela, e era uma música que não se lembrava de ter ouvido antes, mas que era a mais familiar de todas. Ele começou a assoviar baixinho. Vestiu-se e comeu seu pão torrado usual, mas dessa vez ele não foi encontrar os amigos. É estranho quando acontece algo assim, quando se tenta algo diferente, um clique, uma semente, uma pergunta sem resposta consciente, uma vontade de seguir sem modelo nem tremedeira. O artista não teria mais medo de criar, não veria isso como um problema entre ele e o mundo, nem precisaria desviar seus sonhos só porque outros foram por um caminho tal. O mundo nunca é o mesmo, nem as pessoas. Tudo é novo, agora. Agora.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Invitación

Ela me convidou para entrar. Seu apartamento ficava naquela rua tranquila. Subimos pelas escadas, pois não havia elevador, e nem tampouco luz, mas ninguém tropeçou. Sabíamos perfeitamente aonde estávamos indo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Aposta

Quartas de pôquer, mas dessa vez ninguém apareceu. Woody tinha voltado para seu país, o velho saudosista, o jovem piadista. Londo desviara seu caminho – chegaria no mês seguinte, cheio de cicatrizes e com o cabelo raspado. E obviamente o emprego do Nelson pagava bem demais para que ele desistisse de novo. Assim mesmo, fui até a mesa da praça onde costumávamos nos reunir, com copos e palavras antigas, recordações calmas. Foi a primeira vez que reparei nos detalhes do velho tampo de pedra e na quantidade de rabiscos sobrepostos. Pude discernir algumas frases além dos usuais palavrões (benditas sejam as válvulas de escape) e que eram: “Vamos todos pelo mesmo caminho!”, “A realidade é um cristal” e “Índios são o futuro”. Fiz as apostas do dia, sem direito a blefe.

sábado, 27 de outubro de 2012

A descoberta da não-partitura na mesa cheia de papéis

A partir daquele momento tudo mudou. Sabia que passos tomar, o que queria e o que não, até o sabor das refeições tomou outro rumo. Um fraseio de sax delineou a garota da loja de departamentos, um cachorro fugiu do dono, o metrô chegou na hora exata em que eu desci para a plataforma. Uma partitura em escala macro regia cada mover, cada sentir, e não havia autor prévio para os papéis, era eu mesmo que ia tomando notas enquanto executava a canção. Eu já esperava isso há tempos, cara. A partir daquele momento, eu sabia que o caos também seguia uma lógica, mas pouco me importava qual era.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Risadas do Chaves/Chapolin

Desse grupo eu gostava bastante. Estávamos ali pelas mais diferentes razões, mas no final das contas todos tínhamos fome e sede, e não só de comida e bebida, mas de vida. Por isso achei legal a ideia que alguém teve de alugar a picape e cair na estrada mais uma vez. Foi uma decisão consciente: havia entre essas pessoas a espécie de ambiente que permite que alguém conte mil piadas por dia, pois ao compartir a mesma mitologia, os contextos coincidiam quase que totalmente e uma só palavra bastava para acionar todo o repertório. Uma dessas galeras que fazem sentido como se fossem recorded in front of a live audience.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Foto

Os roadies já corriam há meia hora pelo palco e eu comia um sanduíche perto da mesa de mixagem. Apesar de toda a ansiedade no ar - um bocado injustificada, já que o público consistia de somente um casal de velhinhos - a noite passava com uma energia agradável. O guitarrista seguia entretido na afinação perfeccionista de seu dó maior, enquanto a cantora pigarreava e relembrava suas backing vocals de todos os pontos de entrecorte, um dicionário de gestos repassado em detalhes. Parecia algo histórico, mas não estaria nos livros. Pelo menos não nos livros de História. O Jacques perguntou: “Ei Lince, vai um copo d’água?” E eu nem o vi porque ele já sumia pelas coxias com uma grande caixa de papelão cheia de cabos. A plateia de velhinhos (sempre os mesmos dois) batia o pé ao som de cada teste do baterista, estavam maravilhados. Lily tirou umas fotos abstratas disso. Eu tirei uma foto dela tirando fotos, uma recordação que levei comigo quando parti no dia seguinte.

domingo, 21 de outubro de 2012

Cinema

Faltavam agora apenas uns bons minutos tranquilos para a projeção monumental do grande filme ao ar livre. “Hotel Embaixador”, dizia a placa na proa do nosso barquinho, e podia até ser considerado um iate dependendo do ponto de vista, olhando com os olhos semicerrados da boa vontade. O cara do bar tinha mencionado três estrelas, alguém disse, e, se bem que eu sabia mais ou menos onde estávamos nos metendo, sorri quieto quando passou um casal de baratas. Tudo bem comigo, eu e meu caderno, minha câmera fotográfica com uma tele respeitável, e as garotas que gesticulavam animadas com a aventura. E sempre pensei que o cheiro do mar traz o melhor de tudo, às vezes faz mesmo a gente pensar que tudo é melhor do que é (o que normalmente é o caso). Cheiro de lua, o ar molhado, o poder dos acontecimentos salgados de suor e suspense. As luzes já tingiam ambos céu e oceano no horizonte, já atingiam nossos olhos e almas presentes no instante e a vida prometia mais uma vez recomeçar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Gurgentof

Um feriado em que não havia ninguém na universidade, mas eu vi isto no mural: “Gurgentof, o Átomo-Monstro, nasceu de uma conjunção momentânea mas não tão espontânea de dois universos distintos e opostos, um universo-fêmea e outro macho, que resolveram ir contra tudo e contra todos para encontrar o amor. Até hoje ninguém sabe exatamente como começou, ninguém exceto talvez o Fet-univers-tut-erm, que é um universo mudo e portanto detentor único dos mais obscuros detalhes. Mas de qualquer forma, o fato é que eles conseguiram enganar seus contextos e suas respectivas leis físicas, fugiram para um Oix distante e se fundiram em um só. Uma grande explosão teve seu ápice, e logo em seguida ali estava ele: Gurgentof. Sozinho em uma vastidão considerável de vazios, esperando seu objetivo, que viria com a invenção do tempo em algum momento.”

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sem calendário nem despertador

Acordamos em um quarto sem relógios. Lily já estava desperta, deitada com os pés virados para mim enquanto lia uma revista em quadrinhos. Que noite, eu exclamei, com um quê tônico, ao que ela respondeu com um olhar muito profundo, mas do que eu esperava, na verdade. Pôs um dos pés de leve sobre o meu rosto, mexendo no meu nariz de forma petulante. Ri alto. Não sabia nem um pouco aonde iríamos afinal com aquilo, mas me sentia satisfeito com as decisões das semanas anteriores, ou o que eu agora preferia chamar de “decisões do corpo”, que me faziam sentir bem e então só podiam ser interpretadas como acertos. Pelo menos no curto prazo. Aliás, não queria saber nada de prazos, e tenho certeza de que ela também não.

domingo, 14 de outubro de 2012

Verdade

Vejo a verdade enquanto dirijo, ela joga o vento dos meus sonhos antigos para dentro do carro pela janela. A música era real, o que houve com ela? Os filmes eram verdadeiros, o que foi feito deles? As conversas tinham choro e riso, nunca mais. Ouço piadas. Sarcasmo. Voz irônica. Todos os condimentos da falta de sentido crônica esparramados sobre uma vida cheia de marasmo. Tudo bem, caso não fosse só. Um desenho animado e um seriado contavam histórias com começo e fim, pois bem. E tudo que me mostram agora são críticas estranhas e autodestrutivas, que não deixam as ideias chegarem à praia e botarem seus ovos – tampouco teriam um parque natural para protegê-las ali. Os cabelos foram cortados, alguns, mas isso nem importa. Há coisas novas, sabe? Preciso chegar até elas, e a única maneira é seguindo as pistas da alma, a única parte de nós que não aceita as brincadeiras intelectuais dos jogos absurdamente comuns. Tão comuns que as pessoas não te deixam escapar assim, de repente. A VERDADE EXISTE. Existe em fotogramas instantâneos do dia a dia, na chuva de dois segundos, no peixe escapando do anzol, na sopa morna do saboreio, na cadeira velha quente de sol. Existe sim porque eu a vi (no videoclipe no YouTube). Nem tudo é besteira, nem tudo é só leveza irresponsável, e eu me comprometo aqui em responder pelas coisas em que acredito neste preciso momento.

sábado, 13 de outubro de 2012

Crista da Onda

"Qual a ideia, Lince?" E assim vamos seguindo, aí mesmo, aí pela calçada infinita da Via Láctea, onde todos nós somos o centro, o umbigo da existência em múltiplas projeções quânticas. Hoje é um dia especial? Sim, mas não somente porque há perguntas claras, mas principalmente porque a batida do coração - tão real - é ouvida de vez em quando entre uma reclamação e um suspiro-bocejo inconsciente. Só vamos saber quão especial daqui a uns anos, quando tudo mudar, quando a menor e mais inútil das células do nosso sistema já estiver em outra fase e vier a nostalgia e a saudade™, ambas partes do mesmo trem: a primeira olhando para trás, a segunda para frente, para uma resposta contundente só que temporária a tudo aquilo que tínhamos em mente num princípio que só então conheceremos muito bem.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Jornal do Dia Seguinte

Que então a Seção de Cartas do Leitor guardasse sua opinião para si mesma, pois aquilo não tinha acontecido nunca, não daquele jeito. E como lidar com algo realmente inédito, se o próprio ineditismo era de uma repetição incrível? Se o próprio ato de inovar era uma terrível pretensão?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Fogaréu Independente

Woody me apresentou à sua irmã, que era dois anos mais nova do que ele e não se parecia em nada com o irmão, a não ser pelo leve sotaque gringo e as sardas no rosto. Uma belezinha, cheia de graça para cima de mim. Ela chegou às oito, tinha combinado de nos encontrar na rodoviária. Fomos todos ao Café 32 em seguida, magros e sem um tostão. No dia anterior a garçonete, uma senhora simpática que era também a proprietária e inventava nomes sem sentido para os sanduíches (O “Ideias Velozes Bem-Sucedidas”, ou o “Fogaréu Independente”), tinha me convidado para voltar e tomar um lanche grátis porque queria ditar um e-mail para seu marido na Eslováquia. Eu comecei minha tarefa e Lily (a irmã do Woody) ficou me devorando com os olhos enquanto seu sanduíche não chegava. Eu já imaginava uma maneira de me livrar do Woody por aquela noite, afinal eu também tinha fome. Não faço ideia do que realmente escrevi quando a senhora me ditou suas palavras de saudade.

sábado, 6 de outubro de 2012

Assunto

Woody e Jacques iam na frente, discutiam filosofia em espanhol e se perdiam mais e mais em seus buracos negros cerebrais. A esse ponto já não podia ouvi-los, quase ganhavam um quilômetro em cima de mim (eu também participara da conversa em algum momento, mas eles queriam um duelo) e, imperceptivelmente, me deixei aproximar pelo casal de andarilhos que viajava com a gente o tempo todo em silêncio. A garota, bonita, despenteados cabelos longos de simplesmente nunca cortar, óculos redondos; o rapaz, cachecol listrado, bochechas rosadas, um dos braços invariavelmente ao redor da garota. Tinham decidido se unir à nossa caminhada há poucas horas, como quem vê um aglomerado de gente na praça, escuta uns sons de cornetas e quer saber do que se trata. Era um daqueles primeiros dias em que me permiti não pensar sobre a vida. Eu andava ao lado deles agora, e em determinado momento parei para assistir a uma ventania repentina, forte. Soltei uma gargalhada. Eles também. Já não lembro mais sobre o que discutiam Woody e Jacques, mas sei exatamente do que o casal e eu ríamos: de nada.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Destino

DOM: Ela parece estar cansada.

LINCE: Como você sabe?

DOM: Tá indo muito devagar.

FLOR: Talvez esteja só aproveitando a caminhada. Eu mesma fiquei com um pouco de vontade de fazer igual. Toda essa tarde e esse vento.

DOM: Por mim a gente parava um pouco, relaxava, não tem ninguém nos esperando em lugar nenhum.

LINCE: Vou encostar.

FLOR: Ali, perto daquela árvore, Lince. Tem uma sombra perfeita. Ei, garota! Ei!

DOM: Espera um pouco! Quer uma carona? Para onde você vai?

PILAR: Cinco Montes, minha tia mora lá. Decidi ir a pé para economizar.

LINCE: Temos um lugar sobrando.

FLOR: Você não tá com pressa, né?

LINCE: Achei essa lata de figos. Dom, toma aqui a chave, esqueci a toalha no porta-malas. Aproveita para aumentar um pouquinho o som também, essa música é boa.

FLOR: Uma laranjeira!

PILAR: E vocês, para onde vão?

LINCE: Cinco Montes, a tia de uma amiga mora lá.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Lar

Encontrei uma cerca, e ela continuava por metros, muitos metros, metros que se pretendiam quilômetros. Além dela, o carpete devorado pelas vaquinhas em câmera lenta. Uma cerca de madeira bruta, construída com suficiente arte e engenho, acompanhando sem diferença aclives e declives porque, pensei, as linhas retas perfeitas só existem dentro da mente humana. Cara, mas o cheiro de milho foi forte demais pra mim, tive que apoiar todo o meu peso em um só ponto e pular para dentro. Uma das vacas se virou sem me julgar: minha maior ousadia dos últimos dias... Muito silêncio naqueles tempos, o bom e velho. Caminhei sem pressa pelo pasto, o sol não se pusera ainda mas já pendia cansado, então trocamos olhares alaranjados de confiança e cada um seguiu para o seu lado. Subi uma pequena colina para entender que a propriedade rodeava uma pequena casa onde pessoas de alma leve provavelmente cozinhavam alguma coisa com milho e manteiga e muito provavelment e não esperavam convidados, e mais provavelmente ainda não faziam ideia de que eu trocaria todas as minhas histórias por um prato generoso. Conforme me aproximei, pude sentir a brisa que varria todo o pasto, a boa-noite geral e sutil dos séculos inevitavelmente dando lugar às coisas inéditas, porque elas existiam, afinal. Há! Por isso, parei ali um momento e soube que alguém pintaria aquele quadro em 360 graus. Talvez até eu mesmo, quem sabe, Lince Paralelo, quem sabe, um dia, no futuro próximo circular. A casa foi ficando maior, uma porta que parecia exageradamente convidativa, mas por que não? Ninguém atendia. A televisão na sala murmurava coisas velhas sobre a Segunda Guerra Mundial. Uma cadeira de balanço ali fora me convenceu - logo o aroma de milho me fechou os olhos enquanto eu balançava o peso instável da minha existência, e quando os últimos raios do sol já se haviam recolhido e eu percebi que tinha cochilado, talvez segundos, talvez minutos (um segundo?), me senti revigorado como se voltasse de uma sucessão de gargalhadas espontâneas. A Segunda Guerra continuava desenrolando os barulhinhos tranquilos de um conto quase mitológico e a manteiga já impregnara minha roupa. Fiz meu caminho de volta. A estrada me esperava para continuar, pois o lado de lá da cerca ainda não tinha terminado comigo e agora tudo estava bem.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Artista

Interromperam o meu fluxo de pensamentos aleatórios. Foi o primeiro pensamento não aleatório que me veio. Um tipo meio cigano, óculos que pareciam de cangaceiro, ou como eu imagino serem óculos de cangaceiro, e depois a careca parcial escondida com um pano listrado vermelho-branco que retorcia o cabelo restante comprido em três divisórias: deu um pulo teatral para o meu lado, no meio do vagão do metrô, entre duas estações um pouquinho mais distantes. Já o tinha feito muitas vezes e o timing era sua segunda pele. Metade dança, metade tentativa de se equilibrar. Os outros evitaram o pedido de atenção subentendido, apesar de terem buscado minha reação imediatamente, eu, quem sabe o representante supremo dos expectadores babacas – era o que esperavam de mim. E é verdade que minha reação foi basicamente parar de viajar no MP3 confortável para saber o que viria daquele homem e seu patético acordeão, só que de uma maneira que o fiz como um desafio a todos os presentes. Não tirei os fones, no entanto, e então só eu soube do meu plano. O cigano tocou uma melodia tão patética quanto possível. Sorria tão palhaçosamente quanto possível. Mais ninguém se dignou a enxergá-lo, simplesmente porque teriam que enxergar também a própria necessidade patética do ser humano de ser enxergado. O que eu fiz só era permitido às crianças, e essas sim o fitavam com afiadas bolas de gude, eram três e estavam sentadas perto da porta. Mais do que previsível, o rosto da mãe se empenharia em disfarçar tudo com uma atenção exagerada ao desenho do mapa da linha de metrô. Quando a música acelerou, ele virou para as crianças, enfeitando sua performance com caretas patéticas. A mãe sorriu e beijou a filha num gesto de proteção. Bocejou. Fiquei pensando se o cigano estaria acostumado a ser ignorado, ou se sabiamente sabia que o ato de ignorar deixava sua exposição ainda mais evidente, pelo absurdo da coisa toda. Ali estava um sujeito que propunha um enigma, esse sim. Ou seria ele apenas um pobre romântico em busca da validação das massas, pessoa por pessoa, nem que isso levasse toda a sua energia pelo rio subterrâneo da metrópole? Sei lá. Só sei que no final ele juntou as palmas das mãos, pateticamente, agradeceu com os olhos fechados para frente e para trás - desceu uma estação antes de mim - e o MP3 voltou para os meus ouvidos no fade-in ilusório. Senti a nuvem de alívio no vagão. Pensava nisso ainda quando subi as escadas da estação e vi de novo aquela cara patética com óculos de cangaceiro estampada no primeiro outdoor: ingressos a partir de trezentas pratas.

sábado, 18 de agosto de 2012

Decisão

Não soube de imediato que ela iria mexer comigo nesse nível tal, mas aos poucos foi ficando claro – e claro, eu já tinha idade suficiente para saber o que aquilo queria dizer. Foi uma semana antes, as previsões apontavam na receita do sol o uso da panela de pressão, o meio-dia ansioso surpreendendo bocejos por toda parte, eu vi um homem e seu bode tropeçarem no meio-fio um após o outro e as gaivotas sorrirem sarcásticas entre si num céu de photoshop iniciante. Ela jogou limpo o tempo todo. Seus pais não estavam de acordo, caramba. Lince, nada disso vai funcionar se você não vier comigo e arranjar um trabalho de freelancer ou sei lá como se chama. A universidade era muito mais do que um colete salva-vidas para ela: vi em seus olhos, melosos, ensebados; não, só melosos mesmo, uma vida inteira pela frente, porém já uma fração passada – a fração jovem dos comerciais – deixava as marcas no tapete vermelho sem fotógrafos para entrar num salão onde os coquetéis viriam aos montes, os convidados que em vez de vestirem roupas formais e usarem bigodes finos jogariam pôquer em pé, em grupos de três, talvez quatro ou cinco, mas haveria também quem dissesse que o que estava em funcionamento era um sistema geral e interligado de apostas. Enrolei a ponta do cabelo dela enquanto a olhava. Enquanto ela falava. Ela me olhava regularmente também, mas eu não passava de um mero obstáculo em sua corrida de palavras, seus saltos ginásticos entre pontos de exclamação, sua camiseta com um barquinho estilizado. Sempre tive vontade de ter um barco, mas nunca mexi um neurônio nessa direção. Ou talvez não. Que barco o quê, com mil pergaminhos de inutilidade! Mas e se eu fosse mesmo junto com ela? Daí seríamos felizes para sempre ou então eu teria que voltar atrás, pois se fosse na semana seguinte, então aí estaria uma semana perdida da minha vida. E se fosse justamente a última semana da minha vida? Isso era um argumento contra ou a favor? Mas Lince, não tem nada aqui para a gente, já passou, já foi. O problema agora é geográfico. Ao menos do ponto de vista dela. Eu mesmo não tinha um ponto de vista comprometido, só conseguia olhar para os seus olhos, e então para o barquinho. Um barquinho à deriva, sem forças para se firmar na correnteza, conseguir a simples centralização em uma camiseta sob um sol escaldante. Estava inclinado também, como se afundasse imperceptivelmente. Nos sentamos em cadeiras de ferro à beira do chafariz. As pessoas olhavam sem interesse para sua face rosada que eu conhecera jogando uma partida de vôlei especial em um lugar especial e nunca ninguém saberia que ela era capaz de empalidecer como queijo minas em dias de tristeza ou frio, e de amorenar como biscoitos de aveia nas nossas praias mais frequentes. Parou de falar e eu nem notei. Ela não esperava que eu me desse conta, não o fez calculadamente, apenas cessou como se lhe tivessem puxado a tomada. Seus olhos encontravam agora a minha camiseta. Tinha sido um presente seu, era azul e tinha uma estrela no meio, amarela. Eu adorava aquela camiseta e nós brigávamos a cada vez que íamos a algum lugar especial porque eu nunca a tirava. Nada disso. Era uma camiseta especial, oras. E então. Então o quê, Lince, ela resmungou. Começamos a rir e depois o sorriso foi murchando até virar uma seriedade de bom-senso que falava quase tudo. Eu sabia o que tinha que fazer. Só eu, as pessoas que passavam, não.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Fusível

Uma limpeza completa era feita na piscina a cada duas semanas. A última tinha sido no dia anterior, alguém me disse em algum momento, ou então entreouvi uma conversa a respeito. Havia aquelas luzezinhas brancas por todo o quintal, trilhões delas, em volta das árvores, na caixa d'água, nas telhas e nos dois portões de madeira. Um belo contraste com a noite sem lua. A anfitriã saiu de dentro da casa com uma bandeja cheia de bolinhos de arroz, e todos olharam de imediato, como leões de documentário. Tenho que acrescentar aqui que três horas tinham se passado sem que nenhuma comida desse o ar da graça, e supostamente tínhamos todos sido convidados para um jantar dançante. Todos já tínhamos dançado. A trilha sonora se repetia em espiral (algumas músicas-chave eram mais frequentes que outras) e um dos convidados pegou no sono, se aproveitando do fato de que ninguém dava a mínima. Eu dançava com uma moça cujos pais tinham uma casa de penhores e queriam que ela perpetuasse a tradição familiar, mas não, ela tinha fugido de casa aos dezoito anos para trabalhar como estagiária em uma empresa do ramo alimentício. Sei disso porque ela me contou sua vida inteira durante a segunda ou terceira vez que tocaram “Let's Stay Home Tonight”, e depois o assunto acabou e ficamos calados pisoteando nossos pés. Mas aí, como eu ia dizendo, a anfitriã chegou com os bolinhos de arroz. Particularmente, posso dizer que até então nunca tinha provado na minha vida inteira um único bolinho de arroz. E era provável que a maioria das pessoas na festa nem soubesse que aqueles eram bolinhos de arroz, apesar de que sabiam com toda certeza possível que eram bolinhos - porque tinham formato de bolinhos, e cheiravam a bolinhos, e tinham aquela cor específica que os bolinhos têm. Eu sabia sobre a parte do arroz porque claro que o meu par de dança, do ramo alimentício, conhecia tudo sobre bolinhos de arroz, e sobre todos os bolinhos em geral (e também sobre os tipos de arroz), de modo que eu também acabei ficando de posse dessa informação privilegiada. A música acabou de repente, mas as pessoas continuaram dançando sem se darem conta disso, sempre de olho no trajeto da bandeja. A anfitriã virou pescoços por todo o gramado, e os bolinhos foram deixados na pequena mesa de toalha branca ao lado de um cortador de grama de última geração. Depois que todo mundo dançou uns dois minutos ao som de grilos e cigarras e do ruído constante do aquecedor da piscina, a anfitriã gritou algo para o filho adolescente sobre recolocar o CD com a seleção musical feita pelo famoso DJ do Suriname. Ela entrou em casa e todos ouvimos seus berros roucos indiscerníves, e os guinchos de uma guitarra sendo ligada no amplificador lá dentro. Nada disso importava, porque havia bolinhos de arroz, todos pensamos. Minha executiva do ramo alimentício se virou para mim com um olhar cúmplice. Parecia estar bolando algum plano em que eu faria a parte suja. O casal ao nosso lado mudou o ritmo para um passo de tango, e foi se encaminhando bem devagar para perto da mesa, só que eles olhavam para o lado oposto (seus rostos estavam colados). O cara que roncava acordou. Do outro lado da piscina, o grupo de jovens empresários já não se concentrava mais nas pernas da esposa do vereador. Os bolinhos deviam estar bem quentes, soltavam um vapor incrível em uma diagonal que cruzava o belo céu da noite. Minha executiva do ramo alimentício me puxou com os dois passos para lá, um passo para cá, três passos para lá, meio passo para cá etc, etc. O tipo de garota que sabe exatamente o que quer. A esposa do vereador cochichou alguma coisa no ouvido do marido, que soltou uma risadinha sacana e lambeu os beiços em singela discrição. A guitarra aumentou de volume, os berros também. “Let's Stay Home Tonight” entrou em fade in. Um senhor e uma senhora que juntos somavam pelo menos cento e cinquenta anos começaram a brigar bem baixinho, enquanto lançavam olhadelas de desespero para os bolinhos de arroz. Ninguém se atrevia a ser o primeiro. Quando o vereador se levantou, o fotógrafo deu um passo à frente, as duas amigas com roupas combinando desencostaram do muro. Mas o vereador desviou covardemente e foi fingir acender um cigarro, e todo mundo desistiu. Os dançarinos de tango contornavam a mesa ad nauseam, sem saber o que fazer, às vezes tropeçando no cabo de energia do cortador de grama de última geração. Alguns momentos depois éramos nós quem estávamos dançando bem próximos da bandeja, e a minha garota me fuzilava com suas pupilas dilatadas, mas a situação merecia todo cuidado. Havia no máximo quinze bolinhos dispostos em uma pirâmide perfeita. Olhei em volta: os cerca de trinta e cinco convidados fiscalizavam cada um dos meus movimentos. Comecei a pensar que um final feliz era impossível, era uma simples questão matemática. A anfitriã e o seu filho duelavam lá dentro com o CD surinameso e a guitarra respectivamente, em um conflito histórico sem precedentes. O cara que estivera dormindo se levantou, e as atenções se voltaram para ele. Era agora ou nunca. Abaixei para amarrar o sapato, e então liguei o cortador de grama de última geração na potência máxima. É engraçado como o cérebro age nessas horas. De alguma forma eu sabia que um fusível em algum lugar estava apenas esperando o seu momento: o aquecedor da piscina, as trilhões de luzezinhas, o aparelho de som com o CD surinameso em caixas de som espalhadas pela varanda, a guitarra, e agora o cortador de grama de última geração. Meti uns bolinhos no bolso, puxei a garota do ramo alimentício pelo braço e corremos no escuro total para um dos portões de madeira, enquanto em vez da décima segunda execução de “Let's Stay Home Tonight” ouvíamos a sinfonia mal mixada de centenas de grunhidos animalescos e xingamentos, berros e ameaças, sons de objetos voando pelos ares e convidados caindo dentro d'água. Acho que daquela vez não esperaram as usuais duas semanas para limpar a piscina de novo.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Depois de tudo aquilo, só me restou esperar que tudo se acalmasse, a poeira baixasse, e foi isso que eu fiz. Foi bem mais rápido do que eu supunha. A chuva ajudou, é claro. Logo, todos fugiram aterrorizados por medo de água (que na verdade era só medo de perder tempo, a médio prazo por resfriado, ou a curto prazo por ter que tomar um outro banho e colocar a roupa para lavar – era só isso) e a praça se tornou uma reserva protegida, com o mais provocante silêncio que eu jamais havia percebido. Só então me dei conta de que fazia uma quantidade incrível de tempo desde que ficara sozinho pela última vez. Sozinho mesmo, sem internet, sem pessoas passando aqui ou acolá, na janela ou no horizonte, sem o telefone tocando, sem televisão ou fones de ouvido, luzes se acendendo no quinto andar do prédio em frente, vizinhos arrastando móveis, pássaros cantarolando ou vendedores ambulantes em seus ofícios. Fazia uma eternidade! Assim, senti que poderia recomeçar dez, cem, mil vezes, tudo era possível contanto que eu esperasse novamente o silêncio, que sempre viria mais cedo ou mais tarde, em qualquer ocasião.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Gasolina

Sei que o pessoal todo só estava decidindo o que fazer com as suas próprias vidas, mas eu não podia aguentar mais toda aquela baboseira. A semana toda se passara assim. Um louco, um desesperado, um neutro metido a especialista, uma obcecada por cálculos. A cada pisada no acelerador, a cada bifurcação na rua, todos apresentavam suas versões para a sensatez, só que nada se parecia com uma solução imparcial. Não sei como eu tinha entrado nessa confusão, não conseguia imaginar um desvio tão grande quando eles foram aparecendo na estrada, um a um. Pelo mapa era possível ver um desenho de casco de tartaruga, em vez da bela linha reta que eu idealizara. Em vez de diversão e tranquilidade, eu tinha gasolina agora. Gasolina.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Café

O cara cismou que tinha um emprego para mim. Não sei se ele me viu ajudando o gerente com a porta da loja de conveniência do posto, acho que sim. Daí me deu uma carona no 4X4 com sua garota sardenta e simpática. A cidade ficava a menos de cinquenta quilômetros dali, e fazia um belo dia de nuvens brancas inertes. Assim que chegamos, vi que seu empreendimento não passava de uma banca de café de 3X3, onde só cabiam duas pessoas. Em pé. Mas eu seria o único empregado, e como havia um tempo já que a minhas cinco moedas de emergência tinham se reduzido a uma só, resolvi aceitar. Na quarta semana, o suprimento de café foi chegando ao fim. Uns guardas apareceram e perguntaram algo sobre licenças, e eu apenas disse que o cara viria no final de semana. Pura invenção, eu não tinha notícias dele desde o primeiro dia. Tinha me dito que me pagaria no fim do mês, somando todas as horas e mais uma bonificação por desempenho. Vendi tudo antes de sexta-feira, mas ninguém veio repor o café. Precisei dizer aos clientes que não tinha mais, e era só. No dia seguinte, mesmo sem ter nada para fazer, fui até lá, por causa de uma gracinha que vinha sempre depois da academia. Dei uma varrida, peguei meu salário no caixa, fechei tudo e fomos tomar um café.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Enfeites

Apesar de fevereiro, havia enfeites de Natal, uns papais noeis, o que interpretei como um indício de que quando as pessoas enfim encontravam suas bondades inesperadas em algum lugar, queriam prolongar aquilo ao máximo. A desculpa podia até ser o esquecimento, mas todo mundo sabe que ninguém nunca esquece nada.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A ética e o cansaço

Hortêncio Gimo veio nos receber na porta da espelunca com um sorriso. Ele era um velho amigo de infância, não o via há pelo menos uma década. Não estava tão mal, apenas a barba exibia pinceladas de cinza na altura das costeletas, e uma barriga de chope se pronunciava sob a camisa de botões. Almoçamos todos juntos na copa. A moça recém-contratada preparara um cozido de galinha e um café bem forte, tudo muito bom e caprichado. Peguei as chaves do 202 na recepção e subi. Dali a poucos minutos o telefone tocou: Hortêncio Gimo perguntava se eu tinha interesse em uma viagem de pesca com os camaradas do golfe, mas eu não sabia nem pescar nem jogar golfe. Fui, de qualquer forma. Um ruivo mal-encarado que pescava com arpões se aproximou do meu canto do barco.
- Quanto tempo você fica por aqui?
- Uma semana. Uma semana e meia.
- Ganhei dois campeonatos de pesca no ano passado.
- Sério? Que ótimo.
- Venci o Iuri Pé-de-Pato por cinco pontos no municipal. E teve o regional também. Para dizer a verdade, no regional fiquei em terceiro. Mas fui o mais aplaudido.
- Sei. Como vocês contam os pontos?
- Peso.
Ele se afastou. Não passaram nem dois minutos, um velho que devia ter bem uns noventa anos veio falar comigo.
- Olhe, não acredite em uma palavra do que diz esse pilantra.
- Que pilantra?
- Esse que veio falar com você agora há pouco, o ruivo.
- Entendi.
- Na verdade ele mal consegue pescar e fica contando suas lorotas o dia inteiro. Deixamos que venha só porque o irmão dele é o dono do barco.
O velho piscou um dos olhos, pegou a rede que estava ao meu lado e foi ajeitar os pesos de chumbo ou qualquer coisa parecida. O ruivo resolveu voltar.
- O que o Jamau queria?
- Nada, só pegar a rede dele.
- É bom você não confiar naquele sujeito. Não há uma palavra que saia da boca dele que seja verdadeira. É um mentiroso compulsivo.
- Entendi.
No final da tarde Hortêncio Gimo me perguntou se estava tudo bem. O barco balançava muito, fora isso tudo em ordem. Voltei para o hotel sem pescar nada, o que não me surpreendeu nem um pouco.
- Os caras são engraçados, não são? – quis saber Gimo antes de me entregar as chaves, depois do jantar.
- Sim, foi legal.
- Só espero que o Fernão e o velho Jamau não tenham te incomodado muito. Os dois são mentirosos profissionais.
- No final das contas acho que eles foram bastante sinceros. Acho que tenho esse efeito nas pessoas.
Subi e tomei um banho, pronto para dormir o dia seguinte inteiro. Antes de me deitar, olhei no espelho e vi algo. Tinha nascido um pêlo branco na minha barba.

Trajeto

A luz me fez abrir os olhos, e lá pelas sete o silêncio reinava no ônibus. Eu podia ouvir apenas o ronco do Londo e vê-lo quase caindo da sua poltrona, uns três lugares na minha frente. Devia faltar ainda uma boa hora para a próxima parada, e um pouco menos para os mais apressadinhos começarem a mexer nas sacolas com biscoitos e balas de hortelã. A estrada era boa. Da janela eu via todos aqueles carros nos ultrapassando como besouros seguindo instintos primitivos. Senti um peso no lado direito do corpo: a morena de cabelos curtos descansava sua cabeça no meu ombro. De repente ela pareceu em paz. Tinha passado a noite inteira se revirando de um lado para o outro, me acordando e me deixando louco, sempre que eu conseguia começar a sonhar com alguma coisa. Aquilo não me deixou constrangido. Pelo contrário, me fez pensar na intimidade espontânea que pode surgir entre duas pessoas que simplesmente compartilham o mesmo trajeto no espaço. Logo ela acordaria, pediria desculpas, e seguiríamos nossos caminhos pré-determinados.

Mercearia

Quem sabe aquela fosse a última mercearia da cidade grande, de todas as cidades grandes. Quando ouvi o pequeno rádio colocado no chão, quis diminuir o passo, porque também o sol rabiscava uns tons meio sossegados na calçada à minha frente. As paredes ou eram azuis, ou verdes. Não tinha ninguém ali. A música continuou. Era uma cançãozinha de uns cem anos atrás que me fez ver que para viver basta estar de vez em quando bem atento, mesmo que com o mecanismo ultrapassado e lento do canto da alma. Era o que a letra não dizia. A melodia se emendou numa outra sem que eu percebesse e, caramba, logo soava desconhecida, o solo do naipe do foco de uma câmera cinematográfica decidida, que me deixou apenas a alternativa de descobrir como rimar o vento com a minha própria transpiração.

sábado, 29 de outubro de 2011

Mesa

- Vem ao concerto hoje?
- Estou na mesa do Sr. Alado.
- Eu também tenho uma mesa.
- É no setor amarelo?
- Azul.
- Entendi.
- É por causa da perspectiva. Gosto de ter uma visão mais ampla. Mas podemos nos ver depois, se você quiser. Conheço um barzinho de jazz muito bom na Teixeira.
- Você tem uma mesa lá?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Nova Iorque

Caminhei até a parede de tijolos e me encostei com um dos pés enquanto as pessoas procuravam a escada do metrô. Peguei o celular e ouvi sua voz apenas saída da cama, quase senti o perfume que eu tinha dado de presente. Na meia hora seguinte, dei quinze voltas no quarteirão, fingindo um tempo de percurso, e ela abriu a porta para mim.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Shine on you

Valioso é descobrir que o tesouro mesmo é o mapa (que nem existe), porque o que eu tenho usado para me guiar aqui é um diamante que brilha às vezes, dependendo das circunstâncias, uma dinâmica misteriosa que codifica as respostas todas ao dizê-las da forma mais direta possível.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Burburinho

Chega a ser atordoante andar no meio da multidão reconhecendo a presença de tantos momentos em um mesmo local, todos simultâneos, todos absolutos, e não estou falando só do que é visto dos olhos ou da altura de cada um, mas também do choque entre os contextos. Ninguém usa a mesma língua. É por isso que o mundo gira, ele é reconstruído cotidianamente através de microscópicos desentendimentos muito maneiros.

domingo, 16 de outubro de 2011

Galera

Fazia algum tempo que não entrava lá para rever todo o pessoal e contar um pouco de besteiras no balcão da irresponsabilidade confortável. Porque sempre que passava depois do trabalho, estavam fazendo uma festa. Eu podia entrar se tivesse convite. Era só fazer uma ligação, tipo dois minutos, e pronto, rapidinho me deixavam entrar. Nunca quis. Mas dessa vez achei que podia mudar o meu humor, que andava bastante sacal há um tempo – eu merecia um descanso de mim mesmo. Mal ultrapassei o segurança, encontrei dois amigos da época da faculdade. Depois uma conhecida do banco, um vizinho de apartamento, o motorista do ônibus, a velhinha da livraria, um domador de bestas, o roadie do show de sexta-feira dos Napoleones, a groupie-chefe dos Napoleones, os Napoleones, uma mulher vestida de Rainha Elisabeth II. Um homem vestido de Rainha Elisabeth II. A noiva do Chuck, o irmão gêmeo do Charles Bronson, trinta e cinco casais felizes da Ilha de Portaganmad, a Chiquinha e seus bisnetos, o sócio-proprietário do Hotel Califórnia, três modelos de lingerie. Isso tudo antes das onze. De manhã, fui embora sem cumprimentar ninguém.

Competição

A rota, aquela em específico, consistia em atravessar o percalço dos feridos com tamanha elegância que, inclusive nas épocas de colheita e essas coisas, as pessoas comuns parassem para observar e aplaudir, trazendo água gelada em garrafas térmicas (era permitido pelo regulamento). Funcionou. Os próprios competidores se transformavam em torcedores quando iam percebendo o seu lugar. O líder da prova deixava o vice ultrapassá-lo sem medo; o vice, por sua vez, parava para descansar. Teve até o juiz, o senhor respeitável sentado na cadeirinha alta na metade do percurso, que se empolgou ao anunciar que ele mesmo daria seu troféu da época da universidade para aquele que chegasse em último. Alguém trouxe uma garrafa de champanhe e todo mundo esqueceu do placar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Elo

Uma semana daquelas, que valia por todo um ano, prometia uma noite calma. O problema foi quando atravessou a estrada um cachaceiro que carregava uns livros nas duas mãos, e de dentro deles caíam folhas de papel, todas brilhantes no escuro intercidades. Não deu tempo de perguntar, ele correu para atingir o combo dos tropeços. Peguei uma das folhas para saber do que se tratava e li um monte de frases aparentemente soltas: “O erro dos mamutes se mostrou incrivelmente acertado.” “Lá adiante, uma geringonça mágica sincronizante.” “E tinha.” “Rumores confirmavam o artigo de Amelinda.” “PAUL RODGERS ESTREIA HOJE” “Como se vê, uma uva vale mais do que o caroço.” “Rápido, temos que tirar logo as camadas...” “Fumaça!”

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cidade

De cima da colina o andarilho viu a cidade. Que não era um feito típico humano, ela era só parte da natureza em geral. Era produto de séculos de amadurecimento orgânico, celular, competitivo, o próprio cerne do universo em um espetáculo imparcial. Os pombos voam nas praças à cata de migalhas, isso é uma cena que podia ser vista há milhões de anos, com outros atores e outros cenários.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Basta

Basta um instrumento musical suíço que soa na praça, com duas ou três pessoas em volta, a capa dele aberta na espera de algumas moedas, não muitas, em um fim de tarde mais consciente que o normal. Basta um pneu furado quando se menos espera, no meio do caminho. Hoje eu vi três inícios de filmes completamente diferentes entre si, só o começo mesmo, mas lembrei de uma sensação boa que tinha esquecido já. Perdi umas coisas e achei outras. Basta, acho.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Realidade

Feita uma pintura em óleo sobre tela, o artista disse que eles podiam sair da pose. Aí o rei beijou a cortesã, amarrou o barco de volta, lavou os cavalos, comeu um dos peixes com limão e depois ligou para o suporte técnico.

domingo, 9 de outubro de 2011

Lista

- Comprar pão
- Comprar 200g de queijo prato
- Colocar o lixo para fora
- Voar sobre campos cultivados, usando alguma espécie de avião bimotor
- Lavar roupa de cama (com amaciante)
- Comprar um chaveiro
- Fazer uma viagem desde a África até arquipélago de Fiji em um cargueiro
- Aprender a tocar clarinete
- Cozinhar frutos do mar
- Ouvir “Everybody thinks it's their turn”
- Comprar novas caixas de som pequenas
- Mergulhar no rio de madrugada e abrir os olhos debaixo d'água
- Terminar de ler “Le Città Imaginarie”
- Dormir na praia
- Conversar
- Criar um personagem chamado “Tristão”
- Olhar para o céu e saber o que fazer
- Decidir a minha vida inteira
- Deixar a vida me surpreender
- Trocar todas as moedas por notas no supermercado

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Maturidade

A fronteira máxima estava para ser ultrapassada, todos os veteranos sabiam disso porque o sol não era mais o mesmo – antes, derretia o cansaço sob a pele; agora era suave como um enigma velho demais. Dentro de poucos minutos os sonhos mudariam para sempre, porque teriam sua vez. E assim foi, quando as árvores balançaram seus sinais de sucesso, as gaivotas voaram em formação característica, os cavalos se acalmaram e uma música distante e emocionante foi ouvida no mais lento fade in de todos os tempos.

Lugar preferido

Ela me levou até o lugar preferido dela. Era um barranco de terra vermelha depois do subúrbio, acima do ferro-velho. Perguntei por que gostava dali, e ela disse que “porque as pessoas não têm expectativas em barrancos com vista para ferros-velhos”, e eu gostei da resposta, apesar de ter sim expectativas com relação a ela. E ela sabia disso (e também tinha expectativas). Além do mais, nem reparei o ferro-velho – vi o horizonte de montanhas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Inspiração

Tinha que estudar, tinha que trabalhar, que ler, que fazer uma porrada de coisas. Mas parei um instante na beira da calçada, num cruzamento entre a Praça do Lugar-Comum e a Via Expressa da Novidade Dissimulada (veloc. Máx. 0.5km\h com seis faixas de pedestres) e fiquei ouvindo o imigrante que tocava um trombone de estanho porque, sem no entanto executar nenhuma música em especial, apenas improvisava em cima de notas soltas – e era uma escala própria e inventada sem o menor respaldo de ninguém. Escolhi um lado e andei nonstop até anoitecer na mesma direção... No final, vi uma casa com as janelas quebradas, sem luzes, um palácio de ervas daninhas. Depois virei e voltei. Foi só quando tomei um banho, coloquei a roupa para lavar e fiz um macarrão com atum é que entendi que tem vezes em que um dia é, digamos, apenas um dia mesmo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Balão

O balão se prepara para sobrevoar os sonhos quase acordados, nessa manhã em que o ontem e o amanhã estão ainda misturados e é comum não se saber nem quem se é direito, porque não se é ninguém a não ser um pouco de ar frio de repente em contato com o ar quente de antes.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Afinação

As notícias no radinho a pilha pendurado na parede eram cronometradas para durar vinte segundos cada uma, contando com uma eventual entrevista da autoridade blabablá, e assim ele sabia que depois da notícia tal era já hora de jogar as moedas no prato e levantar. Em seguida ia para a loja de instrumentos musicais que só abria pouco antes das três, e admirava o Mag Kapa XI, um piano de cauda que podia muito bem ser tocado por Deus junto com a orquestra do Juízo Final – ele era propriedade de um Nobre que precisara empenhá-lo para recuperar uma bandeira num território de cerca de dez metros quadrados entre a Bélgica e a Holanda. O Sr. Remo esperava o dono da loja ir para o pavimento superior e aí afinava o piano em apenas dois minutos com precisão milimétrica, e eram os dois melhores minutos.

O baú vazio

Mesmo que oportunidades douradas fossem achadas dentro de um baú mágico nas profundezas do vulcão mais selvagem, depois da passagem ilesa pelo tigre guardador e as flechas automáticas de mira precisa, e da trabalhosa retirada de um caminhão de terra pesada, mesmo assim haveria quem preferisse então escondê-las de todo mundo, inclusive de si mesmo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Projeção

Por outro lado foi engraçado porque a própria multidão criava o grandecíssimo espetáculo. Eram milhares de indivíduos espremidos entre cotovelos para assistir ao desenrolar dos fatos, aqueles que, conforme se especulava em importantes círculos, poderiam até mesmo provocar um efeito assombroso na História dos Fatos. Após horas de espera, o líder apareceu. Vinha caminhando pela principal via, iluminado por holofotes. Qualquer um que estivesse presente esqueceria por um instante suas preocupações com a bagunça na garagem (e contas feitas de cabeça enquanto se conversa sobre qualquer outra coisa) para participar do momento inédito. Mas não aconteceu bem assim. A desilusão coletiva foi ouvida, ninguém esperava que a figura que eles seguiam há tanto tempo fosse exatamente igual a eles, com as mesmas babaquices intrínsecas e movimentos afirmativos de cabeça, e até um pequeno remendo na camisa: uma voz humana.

Na mesma página

- Mas quando podemos ir, você sabe?
- Agora... Assim que você quiser. (Silêncio) Na verdade, eu preciso olhar a previsão do tempo.
- Não vai chover.
- Eu tenho uma impressão boa da nova vizinhança, sabe?
- É, tem aquela velhinha que elogiou o meu vestido. E um buldogue na casa da frente.
- Desde a primeira vez que estive lá que eu percebi como a grama tem um verde especial.
- Foi o que te convenceu, não foi? (Risos)
- Acha que dá tempo de comprar um cortador de grama?
- Hum. Sempre dá tempo.
- A gente passa no supermercado no caminho. A barraca já está montada, o saco de dormir eu levei ontem, avisei o corretor...
- Eu estou levando um cobertor extra pra gente.
- Digo mais: tenho certeza de que em menos de um ano começamos a construir a casa.

domingo, 2 de outubro de 2011

O lado bom da inércia

Vou falar agora sobre uma hora do dia que é umas das minhas preferidas. Eu sento à mesa para escrever e ainda tem um sol lá fora, nem percebo e dali a pouco não enxergo mais o teclado. Fiz café e quando vou beber outro gole, está frio. Mas o sistema randômico musical acertou dessa vez e o pensamento tem uma trilha sonora de confiança. Não, eu não quero acender a luz, quero só ver o quanto os azuis aguentam, sou o espectador das transições; não tenho sono, não tenho fome, não faço planos, não tenho medo (nem ansiedade), simplesmente porque tudo muda a olhos vistos, sem truques.

sábado, 1 de outubro de 2011

Dois dias

Depois foi maneiro chegar lá sozinho, pela segunda vez. Foi assustador, na verdade. Tinha uma névoa meio que dando um ar sinistro à cidade em plena meia-noite e meia, mas eu sabia que era assim apenas àquela hora, ao amanhecer tudo seria diferente. Ainda errei a rua e por um momento achei que tinham me enganado, acabei na minúscula Travessa Figueiroa, quando o albergue era na Avenida Figueiroa, mas por fim subi para o quarto surpreendente de paredes de cor de melancia. De manhã, coloquei a música típica no mp3 - primeiro escutei Vinícius e Amália (juntos)- enquanto perambulava pelas ruas estreitas e acolhedoras, comendo doces feitos de ovo e farinha em padarias que chamam os clientes de “freguês”, o dono dava uma lição ao empregado sobre preços, eu escutava aqui e ali as conversas em uma língua musical, engraçada e sem frescuras. O sentido do olfato também acordou pronto para novas temporadas. No primeiro dia rodei todo o centro histórico reparando na verticalidade da cidade, almocei um peixe delicioso e caro com um gole de vinho especial (mas quebrei uma taça, o garçom disse que naquele restaurante não se pede desculpas jamais, só que a conta demorou duas horas para chegar), enquanto assistia ao movimento do rio debaixo da ponte, uma verdadeira visão! Aceitei uma sugestão experiente de alguns dias atrás e atravessei para o outro lado procurando um cochilo na grama. Achei pequenas embarcações com bandeirinhas e universitárias bonitas de aulas recém-iniciadas, um horizonte bucólico sem câmeras fotográficas. No segundo dia coloquei como meta ver o mar, e não apenas vê-lo, mas descobri-lo. Fui andando e andando, só que pro lado errado, quem me falou um pescador que se chamava Ortiz. Como não tinha peixe naquela altura do rio, ele procurava outro local para tentar a sorte. Fomos caminhando e ele me contou sua história. Estava desempregado há um tempo já, pescava por hobby usando vara e anzol emprestados. Só que o dono do equipamento morreu e ele herdou tudo e resolveu tirar uma licença (acho que seis pratas por ano) – aí começou a fazer aquilo regularmente. Disse que conseguia até vinte peixes por semana, os quais deixava no congelador para alimentar a família. Ele falava: “Um gajo continua procurando trabalho todo dia.” Dizia sempre “Um gajo” em vez de “Eu”. Perguntei se ele ia sempre até a repartição de auxílio, ele respondeu que entrava pela internet do filho contador. Mostrou-me duas vezes onde morava com o indicador apontado para o outro lado do rio. Era a personificação da desprentensão, um descritor não pode pedir mais do que isso: acima do peso, jaqueta e calça jeans, um boné escondendo a careca, maneiras tímidas e simples. Desligou o radinho quando me encontrou, para economizar a bateria, “Isso aqui é só pra distrair”. Ele me contou que tinha uma máquina de derreter chumbo em casa (um alquimista moderno), para fazer o anzol, acho. De fato abaixou para pegar uma pecinha nos trilhos por onde seguíamos, me disse que elas se soltavam de automóveis – e sorriu. Fomos ultrapassados pelo bonde, enquanto eu ouvia histórias de enchentes e contava como era o lugar de onde eu vinha. Deixei-o em determinado ponto do rio, e segui por mais quase uma hora pelas margens. Foi um bocado de passos antes de atingir o objetivo e a fome começou a apertar, passei antes por um observatório de aves, tirei várias fotos, contemplei as águas com a ajuda do Neil Diamond. Aí depois de um farol, cheguei numa praiazinha cheia de pedras redondas (peguei uma de cada cor) e de clima cinza que, com a exceção de um pescador distante, estava completamente vazia. Tinha até um banheiro nos fundos do Beach Bar abandonado, onde eu dei uma mijada providencial e tirei uma foto do meu rosto no espelho. Daí desci para a areia e descalcei o tênis, molhei os pés pedindo as bênçãos salgadas e geladas, depois joguei água na cabeça também. Foi excelente. Em seguida comecei o trajeto de volta (esqueci de dizer que a minha mochila estava completamente cheia de uma semana de andança) e no caminho encontrei o Ortiz de novo, mas ele atravessava a rua e não me viu, ocupado com a descoberta e negociação de uma barra de chumbo por ali. De volta ao centro, comi um brioche com um suco de laranja de verdade, andei até o metrô me perdendo várias vezes, até chegar na estação mais verde do mundo, com um casal calmo e uma dois executivos espanhois. Peguei o avião e li metade de um livro, o ônibus no aeroporto, a bicicleta na estação, minha cama com a desarrumação de uma semana atrás.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A alma das coisas

Restos de cascas de cebola descansaram em cima da toalha esticada exatamente no meio do campo de futebol, também um aquecedor elétrico, assim como aquela meia dúzia de guardanapos e o pessoal levemente inconsciente da sua própria felicidade. Se fosse um filme, seria a panorâmica inicial. Se fosse um jogo, seriam os dois últimos segundos do primeiro tempo. Se fosse uma prova, seria a pergunta sobre um noticiário ligado por acaso na noite de pôquer. Se fosse uma ave, estaria planando. Se fosse um terminal de ônibus, seria a fila de embarque. Se fosse um churrasco, seria o cheiro no ar. Se fosse um ukelele, seria um mergulho no mar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A Centena

O Conselheiro Kokoa já tinha mencionado aquilo. Eram chamados “A Centena”, e iam de cidade em cidade de forma incógnita, nômades de origem desconhecida e de estratégias incríveis. Um velho podia chegar a uma espelunca e pedir um vinho Alcatenei, uma marca inexistente, como pensaria o próprio barman. No dia seguinte, viria um empresário de terno e gravata no mesmo local para encomendar cem garrafas do Alcatenei 1998 para a festa de final de ano da empresa. E na mesma semana um funcionário rouco das Vinhas São Marcos do Joá ligaria para oferecer a safra ao proprietário do bar, que compraria, felizasso, litros e litros de suco de uva aguado, porém de boa coloração. Ou talvez aparecesse na praça central uma grande e barulhenta manifestação pela libertação de Gustava, a maior sensação do axé-metal, que teria sido presa por comportamento inadequado em público. Era até capaz do chefe de polícia entrar em desespero por não fazer ideia de onde estava a dita cuja, porque na Cadeia Municipal não tinha diabo de Gustava nenhuma. Mas eis que na Festa dos Balões, de forma espetacular e sem o prévio conhecimento dos organizadores, a estrela subiria aos palcos, para delírio da multidão e de toda a imprensa. Se fosse ano de eleição é possível que Gustava conseguisse o recorde de vereadora mais votada da região. E provavelmente “A Centena” seguiria então para a próxima cidade.

Raízes

Faz aí um pedido. Não é possível que as cercas de fazenda, o mirante, os minerais, os corações humanos interligados em música pela força enigmática do mínimo denominador comum que é a sobrevivência da Vida como Instituição não sejam capazes de resolver qualquer coisa que seja – qualquer – nessa bendita Terra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Às Sete

Fui buscá-la em casa. Parei meu carro de barulhos simpáticos e amparado pela lua cheia. Tinha pensado um monte antes de levar um buquê – resolvi em vez disso dar um colar. Não sei como, ela gostou pra caramba, e me tascou um beijo meio apressado. Melhor assim, a noite começa quando a gente está perfumado de esperança. Quis tirar uma foto antes de seguir para a festa, então segurei sua cintura e entreguei a camera ao porteiro. A fotografia esperada não existe, o cara acabou apertando o zoom sem querer, e tudo o que saiu enquadrado foi o meu sorriso com o canto da boca. Os porteiros são os melhores fotógrafos.

Sequência

O dia vai correndo o seu caminho normal, chato, comum. Passa um mendigo, uma velhinha sorri sozinha no banco do ônibus. Você se perde na sua própria cidade. Uns quarenta e oito pássaros levantam voo com um barulho de freada, uma coisa banal como o doce de laranja da vizinha esfriando na janela da cozinha. A placa de Pare quebrou. Ninguém se importa, os carros param assim mesmo. Os turistas fotografam, riem e eles mesmos não se levam a sério – o contrário seria ridículo. “Licença”, alguém pede, é bem um insulto desmedido. As pedras sem forma são chutadas para longe, um lata cai do terceiro andar (a tinta verde escorre pela calçada). O coelho tenta entender o sentido da vida de dentro da sua gaiola na loja de animaizinhos, mas está tudo ok porque há movimento e as coisas têm um mecanismo. Você repara, são já seis horas da tarde, todos se dão por vencidos, acionam o automático. No meio disso tudo, tem um mísero instante (recorrente) que pode ser quase ignorado e tantas vezes o é, só que desta vez você prestou atenção. É a sensação de descobrir alguma coisa. Descobrir o quê? Não dá pra saber, é rápido demais. O jeito é esperar a próxima vez.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Long Play

Corríamos todos juntos em cima do grande LP veloz, éramos quarenta, cada um com a sua história particular metade sóbria metade luminosa, procurávamos apenas um ponto de descanso (mas só quando chegasse a hora). A agulha riscante não ameaçava ninguém, era só questão de desviar no momento oportuno. Sei que os speakers davam sentido à corrida, porque não saíamos do lugar, e o ritmo suficientemente cativante alimentava nossa identidade de tijolos fortes prontos para qualquer vento. E em algumas pequenas canções eu pensava inclusive que não precisava de mais nada além daquele exercício contínuo. A perfeição dos sulcos trabalhados de forma enigmática por alguma indústria impessoal tinha um quê de grandiosidade inédita, todo mundo percebia isso na época. Um disco opaco genial no espaço autoflutuante das diferentes proporções do entendimento humano de si mesmo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Horta

Na manhã seguinte eu acordei sem saber direito onde estava, mas fui lembrado pelos raios de sol que entravam em diagonal pela janela. Saí por ali mesmo, porque fazia um calor de verão absurdo e confortante, enrolado no lençol branco. Uns porcos, e talvez umas galinhas também, todos me deram bom dia e não estavam de brincadeira. A grama pode ser bem macia às vezes, e mesmo as pedrinhas que se fazem sentir embaixo da sola ainda não acordada dos seus pés têm o poder de te mostrar o gosto da vida quando você deixa. Além de um varal com umas poucas roupas penduradas, a promessa de uma horta com alfaces suculentos e prontos era tudo o que se via nesses primeiros segundos de caminhada. Fui contornando a casa, que afinal tinha a sua estrutura reforçada com grandes vigas de madeira que eu não tinha reparado antes, sempre andando por uma calçadinha simpática – o habitat das formigas caseiras do planeta Terra. A porta da frente estava aberta, e a cerca também. É bem a hora em que se percebe, mas sem indignação, a tirania sacana dos relógios e a eventual diferença de segundos e minutos para frente ou para trás que não significa absolutamente nada quando se adentra no reino das possibilidades do presente ou da onipresente sensação de um dia de cada vez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pepitas

Não era a primeira vez que seguia a pé no acostamento, só que ali eu estava sem um mísero certavo, sem mochila e com a camisa rasgada. Não havia muito o que fazer a respeito. Cortinas de ar quente abriam e fechavam à minha volta, enquanto Mercedes voavam em dimensões sobressalentes e quase extraterrestres e um pássaro assistia a tudo sem piscar. Eu não queria pedia carona porque não estava com a menor vontade de falar com ninguém, mas a verdade é que não fazia nenhuma questão de chegar a algum lugar tão cedo. Porém quis o destino e a natureza labiríntica das coisas que eu encontrasse um ponto de ônibus interestadual, com uma bela cadeira de plástico laranja brilhante e vazia. Encostei ali um instante e só depois percebi a presença de um camarada de boné que fumava um cigarro e levava o próximo preso na parte de cima da orelha. Era questão de tempo para ele puxar assunto, me perguntou sobre o resultado do jogo. “3 a 1”, inventei, e ele pareceu satisfeito, riu um pouco e disse que já esperava. Logo me vi conversando com entusiasmo sobre um jogo que não fazia ideia do que era, e até nos desentendemos um pouco, porque afinal o Dante era mesmo uma lesma e o técnico Almeidinha não tinha culhões para fazer valer sua opinião. Nos despedimos e ele pegou o expresso para São Vicente junto com todos os outros. Catei umas pedrinhas por ali pensando que se vivesse no século XVII elas podiam muito bem ser pepitas de ouro.

Dois meses

Morar em uma carroça velha não é para qualquer um. Daí eu disse isso, e ela respondeu com um movimento lento de cabeça. Eu tinha trazido uma dúzia de ovos para o jantar e a lua estava precisa na metade, uma noite comum na estrada, clara e azul. Ouvi um uivo nas montanhas e coloquei a cabeça para fora para tentar ver alguma coisa, mas as árvores retorcidas apenas balançaram um pouco com a brisa independente. Duas horas depois resolvi catar umas frutas, achei uns maracujás e um poço, e voltei com o cantil cheio. Ela olhou com um certo desdém, mudando as estações do rádio sem prestar atenção. Lavei os pés e deitei na parte de cima, onde na semana anterior eu tinha amarrado um colchão de borracha, e bebi minha água ao ar livre. Tinha uma nuvem só, que fez todo o percurso desde o longínquo até o ponto em cima de mim, depois voltou, em seguida foi para a esquerda e sumiu nas montanhas. Aí reapareceu depois de um tempo quando eu já tinha esquecido dela, um pouco maior, parecia. Foi dividida em duas por alguma força supernatural e cada metade foi para um horizonte, deixando tudo completamente à mercê do brilho polido do satélite. Ela estava cozinhando alguma coisa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Sesta

E então eu saí do restaurante depois de uma bisteca gigante e e me apoiei no carro meio distraído, mas na verdade eu estava pensando no futuro e como eu faria para atravessar o Deserto do Caos Tedioso e chegar até uma espécie de paraíso, onde a minha próxima parada devia estar esperando com um sabor incrivelmente doce e um perfume só oferecido aos que passam por experiências sem precedentes nem planejamentos ostensivos. Mal reparei quando a garçonete assoviou, porque ela precisou gritar “Ei!” em seguida. Ela correu até onde eu estava e passou seu telefone numa espécie de papel de garotas e disse que tinha recusado antes porque o irmão dela, que também trabalhava ali, tinha dado uma baita duma surra no último camarada que ousara tentar alguma gracinha, mas que ela tinha gostado da minha história sobre a ponte que nunca foi construída. Era um número de celular e tinha o prefixo de Marloque São João, a cidade pela qual eu tinha acabado de passar na 112, cheia de chaminés e pássaros sem personalidade em revoada. Ela esperou que eu guardasse o papel no bolso para voltar para dentro, não sem antes me mandar um sorriso tão tranquilo quanto roceiro, e eu sorri de volta, porque a vida funciona assim. Era meio-dia e eu deitei no banco de trás do carro.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

CAPS LOCK

Não tive tempo de parar, nem de perguntar, só vi e fui entrando. Arbustos amarelos com folhas grandes demais pro padrão de qualquer planeta da minha imaginação (e dos videogames) seguiam paralelos, em contraste com o céu azulzão. Esquerda ou direita? Olhei pra trás antes, mas esqueci se tinha me virado mesmo ou não, então virei de novo. Direita ou esquerda? Esquerda. Daí umas Carmens Mirandas bloquearam minha passagem, mas eu distraí cada uma delas com uma corneta atômica. O chão era feito de palha, por isso não queimava meu pé na quentura do verão. E aí finalmente vi um orelhão em formato de nariz, e na narina desocupada (na outra tinha um médico) liguei para o primeiro número que me veio à cabeça. Jaime, o Triste, atendeu. Ele me contou algo sobre estar preso num labirinto estranho pra caramba, com plantas amarelas e mulheres com frutas na cabeça. Falei que era melhor que ele procurasse um médico, e transferi a ligação pro ramal ao lado.

domingo, 3 de outubro de 2010

100

Não é confortável a sensação de acordar no meio da noite e descobrir que os pássaros já estão cantando, e ainda pior, sem saber quem se é. Eu quase podia entender para onde os pássaros estavam indo – de cá pra lá, isso era certo – mas isso poderia ser o eco, e então, bem ao contrário. Tinham me contado sobre a Era da Brisa, o que ela traria, seus principais motivos. O que esqueceram de falar foi que muito daquilo constituía uma mentira completa (o fim do medo!); Jungle Boats seguiu adiante, mas ainda estava muito longe, muito longe mesmo.

sábado, 2 de outubro de 2010

O acerto de Einstein

No ônibus indo pro trabalho. Esse horário é bom porque tem sempre banco vago na janela, boa oportunidade de ouvir música com fones, sem ter nada que fazer além de olhar o mundo em movimento, um olhar de criança recém-nascida (mesmo que dure por intervalos pouco sustentáveis). Meu ônibus passa em frente a uma obra que não acaba nunca, e que talvez tenha começado junto com o próprio universo. Daí em outro dia, naquele mesmo lugar do trajeto, eu reparo que tem mais uma constante na cena, na calçada que beira o muro pela metade. Um homem com chapéu de palha está parado por ali, oscilando pra frente e pra trás, como uma cadeira de balanço em formato de gente. Antes de registrar qualquer tipo de pensamento a respeito, já é outro dia, o ônibus passa de novo. Da janela procuro e acho o homem-oscilatório, sem qualquer objetivo, nas mesmas coordenadas geográficas, no mesmo ponto do Google Earth. Peso na perna da frente, peso na perna de trás. Ninguém quer ver o cara, só desviar dele - isso todo mundo quer. Mais um dia. Lá está ele. Louco, com seu espaço de loucura confinado entre os passantes? Mendigo, defendendo um território pendular com incrível microssucesso? Mais dias úteis, o homem de chapéu de palha simplesmente não vai. Ele parece querer ir, sim, definitivamente (mas não consegue). O que ele faz na hora de dormir, e como se alimenta? Os operários constroem algo lá trás, só que depois surgem uns engravatados e implodem tudo de novo. Encontro sempre o homem de chapéu de palha em paralelo ao meu ônibus (ele agora é tão familiar a mim quanto o descascado na parede do escritório). Sua falta de sentido parece tão certa... Só que hoje uma passeata política atrasa o trânsito uns vinte minutos, e no local da obra, lá está o homem de chapéu de palha, alguns metros à frente de onde supostamente deveria estar. Oscilação? Passos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Garotas que dançam descalças

Não sou saudosista não – se saudosista significa velho -, mas naqueles tempos uma festa era um capítulo de uma longa história, e daquela vez o prefácio se desenrolou na casa da Didi. A Didi era gostosa pacas. O Pedro já estava de olho nela, não era pro meu bico, mas que ela era gostosa, isso era – dançarina de dança do ventre, saca? Já falei que ela era gostosa? Pois então. Mas sem desgaste, a que era pro meu bico era uma prima da Didi: Luna.
- O Pedro me disse que você é baiana, é verdade?
- Ué, a nossa família toda é da Baaahiia, a Didi também é, mas ela veio aqui pro Rio há mó téempão e já péerdeu o sotaque.
A Luna não tinha péerdiido.
- Tu gosta de lá? – e olhou mais diretamente pra mim.
- Nunca fui.
Ela deu um sorrisinho.
- Que foi? – perguntei, meio fisgado.
- Nada. Vamos dançar?
Bem nessa hora começou a tocar uma espécie de balada apimentada, e ela tinha o cabelo curto e uma pinta no canto da boca, e usava saia. E deu de novo o sorrisinho muitas vezes ainda aquela noite. Sórrisínho de lua, o reflexo.