- Pode me dizer o que está acontecendo,
Dois?
- Do que você está falando?
Um estava longe de saber ao certo. Afinal, nunca percebera nada realmente estranho em toda sua vida, e portanto não esperava definir o sentimento assim, sem mais nem menos. Observou os outros e constatou que ninguém compartilhava de sua angústia, apesar de
Dois ter se tornado levemente preocupado depois do súbito questionamento.
Três e
Quatro permaneciam em posição padrão, aqueles burocratas com experiência e equilíbrio suficientes para aguentar o peso de muitos 'Por quês' e incontáveis 'Mas es'. Não se deu ao trabalho. Olhou para
Seis, o velho fanfarrão pretenso dono da verdade, que às vezes o era de fato.
- ?
- Somos todos o mesmo. – respondeu o ancião.
- O que isso quer dizer?
- Nada.
- Nada? – insistiu
Um.
- Nada, e mesmo que você ache que você pode fazer alguma diferença, isso não faz a menor diferença, não mesmo.
Dois foi ficando inquieto ao lado de
Um; este percebeu e decidiu aproveitar a oportunidade para puxar assunto.
- Você é feliz?
- Às vezes. Como assim? Você deveria saber essa. – finalizou
Dois, sem convicção.
Todos permaneceram em silêncio por alguns minutos. Mas
Um não estava com a menor paciência para o vazio. Olhou novamente para
Dois, e entendeu que o colega dormia tranquilamente, e sonhava.
Quatro acabou seu expediente ininteligível e pegou no sono. Por consequência,
Seis não teve alternativa a não ser descansar também.
- Ei, garoto! -
Três, por sua vez, mais bravo do que nunca, berrou na direção de
Um. - Volte enquanto pode! As coisas não são como você está imaginando!
Um ficou confuso, mas não respondeu. Em vez disso, viu
Cinco, o desconhecido até então mudo, que apenas sorriu.
E quando
Três viu também o sorriso de
Cinco, calou-se, e isso acordou
Dois, que acordou
Quatro, que acordou
Seis. E todos assistiram à conversa, que foi algo parecido com isto:
- Eu sou você? – perguntou
Um.
- Sim. – respondeu
Cinco.
- Por quê?
- Porque tudo é eco.
- Inclusive isso?
- Inclusive isso. (?)
- Quem disse?
- Você.
- Eu posso mudar o mundo?
- Não, mas eu posso.
- E o que eu posso fazer então?
- Qualquer coisa, jovem. Qualquer coisa.
O dado girou, e girou, e girou.