quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Amendoaux

Nos arredores de Amendoaux, onde os rapazes locais ainda provavelmente dormiam seus sonos imprecisos porém merecidos, cheios de tantas aspirações de elevação duradoura e mística, eu e os outros resolvemos finalmente descansar também (a ideia partiu inicialmente do Iuri Alvarez, que conseguiu maioria respeitável), porque era de comum conhecimento o que um dia de folga pode fazer a um homem de consciência limpa. Eu apenas segui automático o velho Londo até o bairro indígena, onde botecos com mulheres espantosas e mágicas e garrafas esverdeadas contendo um milhão de coisas diferentes brilhavam como filtros de bondosas câmeras super-8 sob um mar de olhos sagrados.

- Uma copo d'água com meio limão espremido. - pedi ao primeiro hai escuedra que vi passar. Ele não respondeu, acho que não trabalhava ali.

- Diga homem, você realmente acha que chegaremos a algum lugar vagando por aí como um bando de ursos desdentados, reunidos por nada além de covardia e o acostamento dessa estrada besta? - e virou seu rosto imutável, Londo, o profeta do próprio passado, cheio de mágoas que só faziam sentido porque estavam sendo metodicamente amontoadas. Debruçados sobre o balcão, ouvimos uma pianola sendo afinada na loja de penhores em frente.

- Sei para onde vou, mas não aonde vou chegar.

Uma escuedra de vinte e poucos anos com sorriso de pérola logo apareceu e nos ofereceu um flyer trabalhoso de ler, "para a Rave das Quinhentas Vidas, meninos". Ela ficou mais um pouco ali com o ombro encostado ao meu - só para associar seu cheiro jovem à imagem daquela festa na qual eu depositava um interesse do tamanho da paixão da Rainha Continental de Beiu pelo relojoeiro da Rua Cometa. De qualquer forma, perguntei-lhe sobre seus sonhos e ela escreveu o telefone no verso do papel. Londo já tinha escorregado para um dos quartos do estabelecimento informal do andar superior, então conversei mais um pouco sobre horizontes e sopas de arroz e despedi-me da linda Ágata, era o nome dela, e voltei para o topo da colina onde os outros caras haviam decidido trocar qualquer novidade pelo cochilo na grama alta. Foi de lá que vi toda a cidade, uma vila com formato de um amendoaux, e sonhei com becos sem saída.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pastiche

Hay que engrosar las suelas de los pies, pero sin perder la ternura jamás.

domingo, 29 de novembro de 2009

120Km/h

Fiz ligação direta e parti, com o carro sem capota mesmo - e apesar de no início não levar muita fé na história toda, resolvi confiar no motorista e não me arrependi.

domingo, 15 de novembro de 2009

Multiverso

E aí, os pensamentos, tantas nuvens e tantos ares, tantos rios e tantos mares, todos se dispuseram em quebra-cabeças longilíneos e cheios de armadilhas. Nada parecia certo, se visto de perto. Como as ilhas de segredos recém-descobertos, paradas obrigatórias para barcos perdidos de propósito. Os náufragos, estes se escondiam em suas palmeiras, prontos para sumirem de vez. As ondas iam, vinham, voltavam e só.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1

- Pode me dizer o que está acontecendo, Dois?
- Do que você está falando?

Um
estava longe de saber ao certo. Afinal, nunca percebera nada realmente estranho em toda sua vida, e portanto não esperava definir o sentimento assim, sem mais nem menos. Observou os outros e constatou que ninguém compartilhava de sua angústia, apesar de Dois ter se tornado levemente preocupado depois do súbito questionamento. Três e Quatro permaneciam em posição padrão, aqueles burocratas com experiência e equilíbrio suficientes para aguentar o peso de muitos 'Por quês' e incontáveis 'Mas es'. Não se deu ao trabalho. Olhou para Seis, o velho fanfarrão pretenso dono da verdade, que às vezes o era de fato.

- ?
- Somos todos o mesmo. – respondeu o ancião.
- O que isso quer dizer?
- Nada.
- Nada? – insistiu Um.
- Nada, e mesmo que você ache que você pode fazer alguma diferença, isso não faz a menor diferença, não mesmo.

Dois
foi ficando inquieto ao lado de Um; este percebeu e decidiu aproveitar a oportunidade para puxar assunto.

- Você é feliz?
- Às vezes. Como assim? Você deveria saber essa. – finalizou Dois, sem convicção.

Todos permaneceram em silêncio por alguns minutos. Mas Um não estava com a menor paciência para o vazio. Olhou novamente para Dois, e entendeu que o colega dormia tranquilamente, e sonhava. Quatro acabou seu expediente ininteligível e pegou no sono. Por consequência, Seis não teve alternativa a não ser descansar também.

- Ei, garoto! - Três, por sua vez, mais bravo do que nunca, berrou na direção de Um. - Volte enquanto pode! As coisas não são como você está imaginando!

Um ficou confuso, mas não respondeu. Em vez disso, viu Cinco, o desconhecido até então mudo, que apenas sorriu.

E quando Três viu também o sorriso de Cinco, calou-se, e isso acordou Dois, que acordou Quatro, que acordou Seis. E todos assistiram à conversa, que foi algo parecido com isto:

- Eu sou você? – perguntou Um.
- Sim. – respondeu Cinco.
- Por quê?
- Porque tudo é eco.
- Inclusive isso?
- Inclusive isso. (?)
- Quem disse?
- Você.
- Eu posso mudar o mundo?
- Não, mas eu posso.
- E o que eu posso fazer então?
- Qualquer coisa, jovem. Qualquer coisa.

O dado girou, e girou, e girou.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Albatroz

Do resultado se deduz que albatrozes de verdade dependem menos do ar do que de uns dos outros para voar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Batalha Grande

Enfim, os sete anciãos empunharam suas armas na torre de observação do palácio. Olhando do meu balão, percebi que definitivamente estavam em formação de emergência, os portões não aguentavam mais a pressão da horda de bárbaros. Mas não eram bárbaros comuns, e sim homens vestidos com ternos sujos e gravatas amassadas, alguns seguravam maletas de executivo de onde caíam papeis, e eram milhares.

Sobrevoei por trás para ter uma visão mais estratégica do cenário, mas o balão foi atingido em cheio por um tiro. Fui caindo, caindo, até que resolvi fazer um pouso forçado no monte de feno da fazenda dos arredores.

A vontade de saber sobre a batalha foi bem maior do que o impacto da queda, e quando me dei por conta, já estava guardando o balão na enorme cesta que constituía sua nave – ela tinha uma tampa, que fechei. Um homem com cara de raposa apareceu com uma sacola – não era o dono da fazenda, me assegurou – e me perguntou se eu tinha alguma mercadoria para vender: no início achei que era um ladrão, e, bem, talvez fosse mesmo.

- Tenho apenas este balão.
- Vejo apenas uma cesta.
- Mas tem um balão aqui dentro, pode conferir! - retruquei.
- Não! - gritou o homem. - Como vou saber que você não tem uma armadilha montada dentro?
- Ora, como assim?
- Vamos fazer o seguinte. Troco esta sacola pela sua cesta fechada.
- Mas o que tem aí?
- E você acha que vou dizer? Fechamos negócio ou não?

Eu queria mesmo era ir olhar a batalha de perto, e aquele cara de raposa estava começando a me perturbar.

- Está bem.

O homem pegou a cesta com facilidade e saiu correndo pela fazenda, mas não o vi abri-la, pelo menos até onde consegui enxergar. De dentro da sacola, tirei um belo terno, uma gravata e uma brilhante maleta de executivo.

sábado, 7 de novembro de 2009

Cair e andar

O bebê na varanda da casa de barro andava, caía e depois levantava, e não tinha medo de cair de novo. Só que caía. E levantava. E não tinha medo de cair de novo. Mas caía. Depois levantava, e andava. E desequilibrava, e sorria. E caía. E não tinha medo de levantar de novo. E sempre sorria, mesmo quando caía, e sempre caía, mesmo quando andava, e por isso mesmo. Mas não apenas isso. Caía, e andava, e por isso seguia. E quando seguia, parava e sorria, mas só por um instante. Depois continuava e caía, mas levantava. E assim ele ia. Caía e andava. Andava e caía. E foi por isso que, a partir de um determinado dia, o bebê nunca mais caiu de novo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dois de ouros

- Você tá brilhando!
- Culpa sua. E minha também, claro.
- E quando foi isso?
- De manhã, quando a gente acordou.
- O sol?
- Acho que o sol aprendeu muito com a gente hoje.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Be-in

No drive-in o casal chegou e assistiu ao filme, que era nada menos do que um clássico. Capô aberto e calor da noite. Tem set mais propício?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Chuva de verão

A rua parecia ter virado novamente do avesso - tenho absoluta certeza de que não pedia, mas as pessoas continuavam me jogando moedas de um centavo com sorrisos estampados em suas nucas. Larguei a carroça e fui correndo pela praça como um menino que quer cantar uma velha canção do Leonard Cohen e não tem quem ouça. Começou a chover muito, muito mesmo. Percebi um céu azul e brilhante, só que ninguém reparava no absurdo porque estavam cegos por seus guarda-chuvas. Aí fiquei feliz de repente e todos entenderam isso, e pararam de me jogar o que quer que fosse. A mulher tinha visto de relance o azul refletido nos meus olhos (a chuva também aumentou mais ainda etc). Cheguei em casa dois dias depois, exausto, e reguei uma planta, agradecido.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Escadas

Então eu aprendi que, por mais altos que sejam, todos os prédios têm escadas, mas poucos indivíduos as utilizam, a não ser aqueles que vão para o segundo ou terceiro andar, e ainda assim, chutando o ar e usando o combustível altamente poluente da impaciência aditivada, como que para punir os próprios elevadores e as pessoas que os esperam calmamente. Mesmo correndo o risco de encontrar os raivosos no início do edifício, e mesmo tendo que ir diariamente para o último andar, preferia os degraus. Depois de alguns lances, o caminho era tão barulhento quanto um lago congelado às cinco horas da manhã.

sábado, 31 de outubro de 2009

Capítulo XIX - Automobilismo

O tempo é um carro sem motorista em alta velocidade. Ou você pula dentro e assume o volante, ou ele te atropela na estrada. Mas caso decida dirigir, não esqueça de aproveitar o passeio.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nuvens

Nuvens.

A areia nas costas começou a coçar. Levantei devagar, em velocidade constante. Liberdade? Se é que ela existe, existiu ali, naquele instante, em níveis sinceramente atordoantes. A mente vazia, o peito queimado de sol, os pés descalços. Não sabia nem o meu próprio nome. Não me lembrava nem do meu próprio rosto. Não...

Os músculos me doíam como se tivesse tomado uma surra. Mas não uma surra de alguém. Uma surra do mundo.

Já era depois do meio-dia. Pus-me de pé e olhei em volta. Algo como um deserto marrom se arrastava até o horizonte circular. Andei uns metros, sem sair do lugar, deixando a minha calça jeans cerca de cinco minutos mais velha. Ouvi um zunido que a princípio achei que estivesse vindo de dentro de mim. Mas vinha de lá adiante, o bicho grunhindo fumaça. Um imenso caminhão atravessou a precisa linha entre o esquerdo e o direito. Tinha uma estrada ali.

Corri tanto que me esqueci do que tinha que me lembrar. Só lembrei quando cheguei perto do asfalto. Lembrei que tinha que lembrar, mas tentei e não me lembrei de nada. O caminhão zunia além da vista. A pista, esta voltou ao seu silêncio natural, e eu, igual. O vento arrumou meu cabelo comprido para o sentido do caminhão zunido. Olhei pro lado oposto, em vão, pelo menos até então.

O vento, aliás, foi e voltou pelo deserto, tentando me mostrar alguma coisa invisível. Pelo menos foi a impressão que tive. "Não há declives, não há ação, nem medo, nem passado", pensei. "Só presente, por enquanto. E futuro, espero, no entanto."

Cansei de esperar e fui caminhando pelo acostamento, seguindo o espaço-tempo do caminhão, e deixei pegadas imperceptíveis na terra quente e bruta, quase propositalmente. De vez em quando olhava para trás, só pra não confirmar nada. Tanto chão e tanto céu, para esses dois eu não fazia a menor diferença. Para a estrada, talvez. Por isso continuei fiel a ela, em vez de ir na vertical ou ficar parado. Apesar de tudo, ou de nada, sentia-me bem. O silêncio só incomoda quando não é tão silêncio assim.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Jornada

O timing não podia ser mais perfeito: seis semanas de olhos vermelhos, três dedos de água gelada em um copo de latão, uma tempestade incrível, uma noite tranquila como poucas, uma parede de tijolos, um sol puro de alcançar o pulmão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Zen

O essencial não é dizer o que quer, mas dizer o que vem.
Porque uma hora vem o que quer, e é o único jeito.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Capítulo XXVIII - Ciclismo

Liberdade é o equilíbrio em movimento.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Déjà vu

O grande efeito não foi tampouco repentino. Primeiro apareceram os créditos e a música, depois veio o clímax, depois a crise, a bagunça, e em seguida o meio-de-campo, um ou outro impedido com razão. As coisas foram ficando tão simples que pareciam feitas de gelo. Os personagens não se conheciam de modo algum; os eventos eram óbvios, ingênuos e pertinentes demais. O primeiro ato teve gosto de purê de batata crua. O bandido sumiu como se nunca houvesse existido. O xerife e a princesa se beijaram ao entardecer e se desencontraram. Por fim, o xerife se viu sozinho. E foi aí que tudo começou.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fio

Encontrei um camarada gente fina chamado Horácio, que depois de ouvir os cantos tristes das corujas acendeu uma fogueira e preparou seu jantar em uma panela de ferro, enquanto falou: “Tinha aquele fio de náilon que amarrava o parapeito de uma janela no décimo andar de um edifício de escritórios ao dedo polegar de um gárgula pequeno no topo do Museu. O fio não podia ser visto da rua, e ninguém se importava com ele, até porque era um fio inusitado e praticamente invisível mesmo, dezenas de graus abaixo dos cabos de energia elétrica na escala de utilidade geral. Mas teve um dia em que um piano voou de algum ponto e se agarrou no fio, e ficou parado como se fosse ali o seu lugar. Durante um bom tempo as pessoas pararam na rua e olharam para cima, e apontavam, e perguntavam, e imaginavam, e se interessavam: ‘Um piano flutuante!’ Aí o piano se esqueceu do fio e acreditou que realmente flutuava, se encheu tanto de orgulho que ficou pesado demais, se desquilibrou e pousou no asfalto, voltando a ser um piano como outro qualquer. Ninguém se decepcionou de verdade (com a exceção talvez do pequeno gárgula).” Acho que peguei no sono um pouco antes de ouvir o final.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Building Bridges

Muitos momentos são apenas momentos, mas alguns são estrofes, e outros refrões. Músicas tocam por toda parte, e é bem fácil não perceber que várias delas são na verdade apenas uma. Uma canção incrível o bastante para a gente reconhecer mesmo sem ter ouvido antes: um pastel de queijo, uma fotografia, um guarda-sol. O importante é aproveitar as coincidências, porque elas dificilmente acontecem por acaso.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pensamento

- Você está pensando em alguma coisa, não é?
- Sempre estamos pensando em alguma coisa.
- Digo, sobre alguma coisa que eu disse.
- Não.
- Acho que sei no que você está pensando.
- Não, não sabe.
- Então fala.
- Cortes de cabelo e TV a cabo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O papel dentro da garrafa verde nas ondas

“Eu não sei nada. Talvez eu saiba que as coisas flutuam, talvez eu saiba isso. Mas mesmo assim, de que me adianta? Se eu estou aqui quando você está ali, e depois o mundo gira, passa um dia, passa um ano, tudo volta a ser o que era - só que totalmente complicado -, e aí a gente se pergunta, sempre com cara de zebra correndo atrás das grades na velocidade da luz: ‘Ok, mas agora eu posso então?’ A resposta voa, sempre acima das nuvens, sempre planando e se entretendo com as próprias asas. Mas temos que continuar tentando, primeiro porque sim; e claro que também porque, no fim das contas, a conta fecha. Se eu imaginava que o futuro seria o passado que eu não vivi, agora percebo que é um presente que eu preciso viver, e é bom começar então.”